Sólido projeto poético

Formas do Nada, novo livro de Paulo Henriques Britto, evidencia sua erudição notável em poemas de levada irônica

Moacir Amâncio, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h12

A solidez do projeto poético de Paulo Henriques Britto, está patente da primeira à última página de seu novo livro, Formas do Nada. Brito é um poeta que trabalha métrica e rima, mas engana-se quem julgá-lo um autor simplesmente apegado a um modo, digamos, tradicional de fazer poesia. A temática, atualíssima, simplesmente recupera o de sempre. A temática contemporânea vem embalada numa forma antiga que se coloca como desafio para o poeta que deverá antes de mais nada fazer uso da inteligência mais perspicaz para evitar as armadilhas do texto constrangido pelo limite de sílabas e rimas. Entre as armas da inteligência encontra-se a levada irônica que confirma e nega ideias, assim como a contrapartida dos sentimentos: "A qualquer hora, o que se chama vida / pode mudar da água pro vinho. Ou vice- / versa..." (pág. 44). O que faz, tanto faz se não for feito, o fazer e o não fazer se reduzem a um ato único. E isso se consubstancia, como sugerido acima, no campo do poema.

Dessa maneira o popular soneto, ele próprio um lugar-comum, um kitsch maravilhoso que atravessa os séculos, passando de Petrarca a Camões e Góngora até se tornar uma espécie de roupa absurda que alguém tenta obrigatoriamente vestir, embora não caiba nele, ou cabe demais e sobra, expressando o incômodo de estar em desacordo no mundo, na palavra, na velha carcaça tão alheia: "Não esteja à vontade. / A casa não é sua. / E se não gostar, / por ali é a rua." (pág. 56). Tudo bem, mas rua para quê? O ceticismo e a ironia não funcionam como um esquema para a aceitação das coisas. Pelo contrário, funcionam como índice do atrito entre o eu lírico, uma figura de palavras, e suas circunstâncias.

A erudição notável vem embutida nos textos como parte do organismo, não se trata portanto de algo postiço, artificial ou mero exibicionismo. Faz parte da dinâmica dos poemas, citações explícitas ou implícitas imbricam-se com o banal da atualidade que por sua vez absorve a erudição e a nivela, como Heloísa Jahn observa de maneira precisa na apresentação. Diz um poema: "Não fosse por isso / por outra seria. / Não tem, desde o início, / teleologia // nem origem, causa / ou motivação. / Avança sem pausa / rumo à conclusão, // a qual é um fim sem finalidade. / E termina assim. / Pronto. Já vai tarde." (pág. 59). O ser e o não formam uma prática lúdica, um pouco mais, um pouco menos. O exercício poético de Britto pode ser desenhado como uma esgrima em que o áspero do metal se neutraliza no vazio da rima. Só resta isso? Então vamos lá, mas com engenho e arte.  

MOACIR AMÂNCIO É ESPECIAL PARA O ESTADO, MOACIR AMÂNCIO É AUTOR DE ATA (REUNIÃO DE POEMAS) E YONÁ E O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA, CABALA, PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA NA USP

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