Solidariedade ainda possível

Em As Neves do Kilimanjaro, o diretor Robert Guédiguian volta aos seus temas caros - a desumanização do mundo do trabalho contemporâneo e a possibilidade de ser solidário quando impera a luta de todos contra todos. O ambiente também é o mesmo: Marselha, a cidade portuária no Sul da França onde ele próprio nasceu e vive.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2012 | 03h10

Temos ali, nesse mundo dos estivadores de uma economia desenvolvida, uma curiosa situação. Como vai haver corte de pessoal, o sindicato promove um sorteio. Alguns infelizes, justamente os que forem "contemplados", serão demitidos. Um deles é Michel (Jean-Pierre Darroussin), dirigente sindical que, por sua posição, poderia colocar-se fora da situação. Não o faz. A história já indica: eis aí um homem ético. Sujeita-se às intempéries da vida, como seus colegas.

Michel é um homem de meia-idade. Sabe que, demitido, não vai encontrar outro emprego. É casado com uma mulher cheia de personalidade como Marie-Claire (Ariane Ascaride, mulher do diretor e sua atriz-fetiche). O casal compreende, então, que entrou em nova fase da existência. Decide fazer uma viagem há muito planejada e adiada, à África, rumo às neves do Kilimanjaro - como no conto de Ernest Hemingway que tem esse título.

Falsa pista. Se há uma inspiração literária para Guédiguian, ela está em outra parte, num poema de Victor Hugo, Les Pauvres Gens, Os Pobres. Vale a pena lê-lo. Fala da solidariedade humana, mais encontrável entre pessoas que menos condições materiais têm de exercê-la. É o fio que liga as partes do filme; o seu núcleo duro.

É curioso como Guédiguian consegue abrir novos ângulos de compreensão a partir de uma situação inicial tão comum e banal no mundo contemporâneo. Depois, todas as nuances e complexidades da história vão se abrindo aos nossos olhos. O que significa para quem lutou pela igualdade sentir-se um burguês acomodado? Há como desatar esse nó, que a pretexto da sobrevivência nos transforma a todos em individualistas? São as questões prementes, que ficam a nos martelar a cabeça após vermos este filme extraordinário.

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