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Solidão real e virtual

Na solidão, sou eu mesmo, sem necessidade de fazer as coisas que agradam aos outros

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2017 | 02h00

O filme Passageiros (2016, Morten Tyldum) não constará da lista das dez obras que mudaram o rumo do cinema mundial. Há, porém, uma ideia interessante: uma nave se dirige a um planeta muito distante e a jornada consumirá muitas décadas. Para que todos cheguem vivos e jovens, há um sistema de hibernação profunda. Por acidente, Jim (Chris Pratt) é despertado antes do tempo e descobre a complexa perspectiva de ficar sozinho até a morte, privado de companhia de carne e o osso. Ele deixa de fazer a barba, para de usar calças e desenvolve ideias exóticas. Há um momento em que esse novo Adão decide despertar uma Eva, Jennifer Lawrence. Chega de spoiler.

Interesso-me pelo humano solitário. Ainda no campo cinematográfico, quero lembrar Tom Hanks (Náufrago, 2000, Robert Zemeckis) conversando com a bola Wilson, esférico pastiche de um amigo. Anterior a todos, Robinson Crusoé tinha de encontrar medidas para não enlouquecer na obra de Daniel Defoe. Solidão é castigo ou bênção?

Não é bom que o homem esteja só, reflete Deus consigo ao planejar uma companheira para Adão. Curioso que todos os seres vivos foram criados aos pares, apenas o homem foi idealizado sozinho para, depois, em uma reengenharia, receber a fêmea da espécie. De alguma forma, a solidão do homem é o plano original, a companhia veio depois. Seguindo a leitura do Gênesis, todos os animais embarcam aos pares, apenas o humano tem o privilégio de levar família completa com filhos e noras. Que mudança! Nascemos sem par e, passadas algumas gerações, ganhamos o direito de passagens extras na Arca do Dilúvio.

No cinema, na literatura e na Bíblia temos muitos exemplos do jogo complexo entre o deleite-dor da solidão e o jogo ambíguo de inferno-paraíso da vida compartilhada.

Quando o mundo vem a você como um holofote coruscante, pode ocorrer uma queimadura precoce. Ausência de privacidade cobra seu preço. É o caso da sueca Greta Garbo, que se isolou por completo no apartamento de Nova York por tantos anos. Acabou consagrada pela frase que surgira antes do seu exílio voluntário: I want to be alone. Querer estar só, especialmente após episódios exaustivos de sociabilidade, é um sentimento muito forte.

Eis o jogo fatal: queremos estar sós. Solidão nos liberta e permite que andemos sem calças, deixemos a barba por fazer, ou, no caso de Garbo, sem testemunhas para nosso envelhecimento e declínio. Na solidão, sou eu mesmo, longe da cena, livre de roteiro, sem necessidade de fazer as coisas que agradam aos outros. Queremos estar sós. Não obstante, a solidão esvazia, angustia e estimula a depressão de muitos. Dialética do humano: querer e não querer o mundo com outras pessoas.

A solidão estimula a liberdade. Ninguém nos perturba ou nos cobra. Somos nós mesmos. Ao começar seu brilhante Lavoura Arcaica, Raduan Nassar descreve o isolamento do quarto como um lugar inviolável, “é um mundo, quarto catedral”. No caso da personagem, um lugar no qual sua afetiva e invasiva família estava longe.

Contardo Calligaris disse que a escola era um lugar para o jovem se resguardar um pouco e descansar da família. Concordo com ele. Também o quarto dos filhos deveria ser um espaço de solidão saudável. Para os adolescentes, o isolamento do quarto, quando ele é possível (a maioria da população jovem não possui quarto individual), é um escaninho protegido dedicado ao culto do eu, ao afastamento de outros e ao prazer individual.

O gosto adolescente pelo isolamento possui o mesmo caráter ambíguo dos adultos. Queremos estar a sós, de preferência com o celular, estabelecendo contato com todo mundo, menos com as pessoas reais da casa. Trata-se de uma sociabilidade controlada, com botão de on-off, permitindo que possamos entrar e sair das conversas com autonomia. Talvez não seja a solidão que nos cause horror, mas a falta de controle sobre estar só ou acompanhado. O celular respondeu de forma extraordinária a essa demanda, criando a companhia real-ficcional do mundo. Todo o sucesso do aparelho está no jogo de permitir palco e camarim ao mesmo tempo.

Nenhuma escrita sobre a solidão poderá ignorar o celular, a muleta suprema que criamos para ter o suficiente isolamento do mundo aliado ao contato com quem e quando desejarmos. Somos deuses com ele e decidimos que não é bom que estejamos sós e que, da mesma forma, é ótimo voltar a nossa concha confortável. Somos lobos de alcateia e com prazer de uivar solitários para a Lua de quando em vez. Melhor, somos lobos com Instagram e WhatsApp.

Então parece que a chave de tudo não é solidão ou companhia, porém controle. Idealizamos praias isoladas para... poder encher a praia com pessoas do nosso círculo. A ideia de exclusividade é acompanhada de possibilidade de selecionar quem poderá povoar o espaço único.

Celular é nossa praia protegida por senha, que pode ser palmilhada por Robinson Crusoé isolado ou selecionar um Sexta-Feira disponível. A genialidade do aparelho e a base do seu sucesso é esse mecanismo: regulo quem me faz companhia, administro meu silêncio e posso reger quais imagens quero fazer para tornar real meu roteiro imagético para o público. Tudo está reunido em um único aparelho! Ah, se o prisioneiro da máscara de ferro da imaginação de Dumas tivesse tido a chance de fazer selfies, sua solidão teria sido tão menos cruel. Voltarei ao tema. Bom domingo a todos vocês.

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