Solidão e silêncio no fundo da agulha

Todos os domingos, à meia-noite, quando Nabor cantava "Quizás, quizás, quizás", eu sabia que a domingueira tinha acabado e aquelas meninas de Araraquara desceriam as escadas, passariam por mim, nem me olhando, e iriam para casa. Algumas com os pais, várias sozinhas (não havia perigo), outras acompanhadas pelos namorados. Inveja daqueles namorados, tinham dançado com as moças mais lindas, colado o rosto (apesar da vigilância materna), conseguido um beijo furtivo. Dali a pouco, nos portões, viriam os "amassos", porque mais do que carinhos, os namorados se amassavam com sofreguidão. Em que estado iam dormir.

Ignácio de Loyola de Brandão, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2013 | 02h12

Dia desses, indo para uma reunião na Fundação Carlos Chagas, ouvi no táxi ouvi o bolero siempre que te pregunto, que quando, donde y como. Comentei na reunião: "Ali estou, sentado no banco gelado, sabendo que o domingo acabou". Sandra e Mariana Lapeiz, condutoras do projeto maravilhoso que é o Livro para Todos, (que este ano tem Milton Hatoum como padrinho, assim como Lygia Fagundes Telles e eu fomos nos dois últimos anos), indagou: "O que isso quer dizer?" E eu: "Há canções que me provocam, volto no tempo". Ela: "Já escreveu sobre isso? Não é um livro?"

Era. É. Nove meses depois, o livro estava terminado. Tempo de gestação de um ser humano. Vim arrancando de dentro desde aquela canção Amado Mio, do filme Gilda, ainda na minha infância, até Alfonsina y el Mar, com Mercedes Sosa, que Irina e eu ouvíamos em Hanabanilla, Cuba, pouco antes dela, jovem jornalista mexicana, linda, partir para a Nicarágua para lutar com os sandinistas contra o ditador Somoza. Fui reencontrando Valsinha, de Chico e Vinicius, que embala duas mulheres solitárias numa sala a tecerem bordados de uma vida, bem como Patricia, bolero para ser dançado cheek to cheek nas festinhas da adolescência, mas que Fellini usou para a orgia final em A Doce Vida, filme que marcou uma geração. "Quero, quero ser chamada de querida", lembram-se?

Uma noite, no Recife, no Sesc, vi e ouvi no palco uma mulher que me impressionou ao falar sobre educação e ao contar sobre seus textos, Viviane Mosé. Dela retirei o título de meu livro, Solidão no Fundo da Agulha, porque me trouxe minhas tias e primas em tardes araraquarenses, me trouxe mulheres que conheci e se encerraram no silêncio do fundo da agulha. Mulheres que esperaram ou ainda esperam que ele chegue um dia com um jeito diferente daquele jeito que ele tinha ao chegar. Nossas vidas são atravessadas e marcadas por músicas, por canções que nos devolvem momentos, felizes ou não. Recuperei algumas, mas a cada dia acumulo outras.

Por que uma americana que vi certa manhã, uma única vez, em Roma, perto da Praça de Espanha, eu voltaria a reencontrar 17 anos depois, mulher madura, numa palestra em San Diego, Estados Unidos, ligada por uma carta que ela recebeu e eu nunca li? Ligada ainda por Antonio Tabucchi, o escritor italiano falecido ano passado, um grande amigo. Mais, ligada por Isaura Garcia a cantar: "Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão". Como e por que a vida estende linhas misteriosas, unido ou desunindo pedaços de nós?

A primeira entrevista de sua vida, capa do caderno de variedades do jornal Última Hora, fui eu que fiz com Dina Sfat, quando ela começou no Teatro de Arena, em 1962. Naquela tarde, nos fundos do teatro vazio, alguém cantava Estrela do Mar. Quem não conhece? Um pequenino grão de areia. Dina ficou de descobrir quem era a cantora. Descobriu? Um mistério que continua. Dina morreu três meses do dia em que, indo a Israel, me vi na cidade de Sfat, terra dos cabalistas. Sfat que lhe deu o nome.

Solidão no Fundo da Agulha está pronto e será lançado terça-feira, dia 26, no bar Vianna, em Pinheiros. O bar vizinho à minha casa, onde vou certos fins de tarde e sento-me na mesma mesa, lendo, anotando coisas, ou simplesmente esperando a noite chegar ao meu bairro, porque com ela chegam Marcia e Rita para sentar comigo. O livro está saindo pelo selo Livro para Todos, um dos projetos que tornam diferenciada a Fundação Carlos Chagas, a que estrutura todos os grandes concursos públicos deste Brasil. Projeto que dá a ela um plus.

Paulo Melo Jr., um fotógrafo pernambucano, leu os textos e, câmera em punho, saiu para capturar o espírito de Araraquara, ou de lugares de São Paulo: Rua Javari, Livraria Francesa, ruas do centro, bancas de frutas ao sol, estação da Luz, Avenida 23 de Maio vazia, um pastel de feira sendo frito, o teatrinho de Arena, o relógio do Mappin, debaixo do qual gerações marcaram encontros. O que é este livro? Minhas memórias? Mas são as suas também. Minha músicas? São as de todos. É realidade, lembrança, é ficção. E tanto é um livro de gerações mais velhas ou atuais, que a jovem Rita Gullo interpreta as 11 canções do livro (porque haverá um CD dentro) como se fossem dela, do tempo dela. Ela se comprometeu com cada nota, cada palavra. Tocaremos todas as canções na noite do dia 26, na Rua Cristiano Vianna, 315, e beberemos, e falaremos, porque será um encontro de todos nós, a partir de 19 horas.

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