Solidão da América

Nos quadrinhos de Wilson, lançado agora no Brasil, o americano Daniel Clowes retrata a consciência coletiva

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2012 | 03h10

Inconformado com sua incapacidade de ajudar o pai que agonizava em um hospital, o cartunista americano Daniel Clowes, enquanto aguardava por notícias, tentava relaxar desenhando. "Fiz vários quadrinhos engraçados sobre as divagações de um cara cuja personalidade se revelou logo no primeiro instante", conta Clowes. "Era algo que eu fazia apenas para me distrair, sem pensar muito, deixando o comando com a mão, livremente, sem censura."

Quando se deu conta, tinha desenhado dezenas de quadrinhos que, se não contavam uma história coerentemente, ao menos revelavam um personagem sólido, um homem de meia-idade, solitário, egoísta, que, apesar de insistir, não consegue se relacionar com outras pessoas. "Na iminência de perder o pai, ele tenta juntar os cacos e remontar o que fora uma família", continua Clowes, que conversou com o Estado por telefone. A partir desse fio de meada, ele retrabalhou o material e criou Wilson, álbum que a Companhia das Letras apresenta nesta semana em seu selo de quadrinhos.

Lançada em 2010, a graphic novel tornou-se um sucesso instantâneo, para surpresa do próprio autor. Afinal, ao contrário de homens indestrutíveis, Wilson traz como protagonista um senhor por vezes antipático, que diz em voz alta o que a maioria apenas pensa. Basta a leitura de uma das séries de quadrinhos, intitulada Lanchonete: enquanto aguarda pela ex-mulher, Wilson a descreve como uma prostituta sem perceber que está diante da própria - é a garçonete. Em outra, Portão 27, Wilson puxa conversa com um engravatado no saguão do aeroporto. Ao descobrir que ele é gerente sênior de um pequeno fundo de negócios, Wilson tenta convencê-lo de que está na profissão errada, algo que só vai descobrir quando estiver no leito de morte. Como o rapaz garante ter orgulho do que faz, Wilson, desconsolado, segura o rosto com as mãos e se lamenta: "Ah, Deus, que horror o jeito como as pessoas vivem!".

"Não acredito que Wilson seja um misantropo - apenas enfrenta dificuldades para estabelecer relações com outras pessoas, especialmente quando elas não percebem o erro que ele aponta, o que o deixa muito frustrado." Aos 51 anos, Clowes assemelha-se fisicamente ao seu personagem: traços comuns, calvície dominante, voz grave e monocórdia. A surpresa vem quando ri de si mesmo, quebrando a barreira involuntariamente levantada por sua notória timidez.

Com muitos toques autobiográficos (Wilson, por exemplo, tem um especial carinho por seu cachorro, algo que também acontece com Clowes), a graphic novel é também um notável exercício de narrativa, pois os quadrinhos são separados por tempos às vezes longos, outras vezes curtos, tudo exemplificado por traços secos, porém distintos. "Minha experiência como roteirista ajudou, pois aprendi a trabalhar com as nuances narrativas, nas quais os personagens passam por diversas emoções."

Ele escreveu um roteiro em 2001, quando verteu para o cinema seu livro Ghost World, seu primeiro sucesso inesperado. O filme, aqui intitulado Aprendendo a Viver, garantiu-lhe uma indicação para o Oscar. Também maior visibilidade, que o consolidou como um artista raro a partir de seus trabalhos seguintes, David Boring e Ice Haven, inquietantes álbuns nos quais a rotina de adolescentes é perturbada por fatos grotescos. Comparado a Salinger e Philip Roth, Daniel Clowes retrata uma América irreal, mas totalmente reconhecível.

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