Soldini e sua crítica da risível política italiana

O Comandante e a Cegonha é a atração de hoje da mostra Panorama Suíço, em exibição no CineSesc

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h11

Conhecido do público brasileiro por êxitos como Pão e Tulipas e Ágata e a Tempestade, o diretor milanês Silvio Soldini tem uma acentuada preferência pelo drama e até se exercita com frequência no documentário, o que permite entender a base realista da maioria de seus filmes. Soldini agora muda o registro e revela seu lado, digamos, surreal, e numa comédia que define como "leggera". Isso não impede que, em O Comandante e a Cegonha, ele tenha se valido da ferramenta do humor para dar seu testemunho sobre a Itália contemporânea. O filme é uma coprodução ítalo-suíça e, como tal, integra a mostra Panorama Suíço, que começou quinta-feira no CineSesc. Terá sessões hoje e na terça - veja os horários.

Acostumado ao sucesso, Soldini, numa entrevista por telefone, não se vexa de dizer que O Comandante e a Cegonha ficou aquém da expectativa. "Tivemos boas críticas, bom público, mas por se tratar de uma comédia, de um filme mais leve, com toques fantásticos, imaginava que o público fosse lotar as salas. Não foi o que ocorreu. O cinema italiano passa por um momento de crise. O público diminui, está cada vez mais difícil conseguir dinheiro e o que me salva é que tenho sucessos no currículo. Mesmo assim, os produtores não gostaram muito quando mudei o registro e agora me dizem que tenho de voltar ao drama."

Ele acrescenta que, embora satisfeito com sua comédia, talvez tenha errado o foco. "Para rir, nós, os italianos, não precisamos do cinema. Basta olhar para a nossa política." O assunto cai em Beppe Grillo, o comediante que virou a sensação política da Itália. Soldini ri do outro lado da linha, mas reflete. "Quando ele surgiu, com seu movimento Cinco Estrelas, ridicularizando os políticos profissionais, era divertido. Mas o movimento dele cresceu, virou uma força política e aí perdeu a graça. A política é, ou deveria ser, uma coisa séria e esse populismo que, com diversas caras, não cessa de se desenvolver e triunfar na Itália é um signo de como as coisas não vão bem." E o Cavaliere - Sílvio Berlusconi? "Este é o bufão mor."

De volta a O Comandante e a Cegonha, Soldini diz que o filme já nasceu complexo. "Queria que fosse leve, divertido, mas também que fosse muito político, o meu comentário sobre a Itália de hoje. Os personagens e as situações foram surgindo em função disso. O homem comum, a advogada. Ele é viúvo e tem dois filhos, o jovem que tem a cegonha, a garota que vai parar na internet, nua com o namorado. O filme fala de muita coisa e o importante era não perder o foco." A grande sacada é que tudo é visto pelo olhar de Giuseppe Garibaldi, o artífice da unificação da Itália, do alto de sua estátua, em Turim.

"Comemoramos há pouco o sesquicentenário (150 anos) do Risorgimento e o filme nasceu dessa ideia - se Garibaldi, que era um idealista, o homem que forjou a unidade da nação italiana, voltasse hoje, que país veria? Ficaria contente ou, pelo contrário, reavaliaria seu movimento - mas foi para isso que lutamos tanto?" E por que Turim? "Na verdade, não queria que o filme se passasse numa cidade específica. Gostaria de ter filmado em três ou quatro cidades, mas razões operacionais e de custo me limitaram a Turim e Milão, para as tomadas do alto. Queria ter muitas cidades para não ter nenhuma. Este filme não é sobre uma cidade em particular. É sobre um país. A própria praça com a estátua é uma criação cenográfica, com algumas liberdades em relação à praça verdadeira. Foi um filme gostoso de fazer. Espero que o público brasileiro o aceite melhor que o italiano."

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