'Solace', um thriller múltiplo e paranormal

Afonso Poyart conta como foi rodar seu primeiro filme em Hollywood

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h17

Solace, novo filme de Afonso Poyart (de Dois Coelhos), é definido por alguns como thriller paranormal, por outros como policial, mas o diretor prefere chamá-lo de antigênero. "É a história de um médico aposentado que, depois de perder a filha, é procurado por um agente do FBI para ajudar a solucionar uma série de assassinatos", definiu Poyart em conversa com o Estado, na semana passada, quando o brasileiro havia acabado de voltar ao País, depois de passar semanas em Atlanta, onde o longa foi rodado. "É um filme interessante e eu quero fazer um filme antigênero. Não é um filme de serial killer. Só tem uma premissa inicial, da busca de alguém, mas depois isso muda. É um multiplot, um elevated thriller."

Poyart, que começou a carreira na publicidade, dirigiu videoclipes, curtas e estreou no longa-metragem com Dois Coelhos, afirma sem pestanejar que Solace foi a experiência mais difícil de sua vida. "Foram 32 dias de filmagens intensas, sem contar a preparação anterior, os ajustes no roteiro. E ainda teve o desafio de filmar em outro país, cultura, com outra lógica de mercado, com outra dinâmica de atores. É algo que mudou minha vida."

Quando questionado sobre qual a maior diferença entre rodar um longa em caráter independente, como foi o caso de Dois Coelhos (em que Poyart além de escrever, produziu e dirigiu), e um em Hollywood, é rápido na resposta. Não afirma que é dirigir astros do naipe de Colin Farrell e Anthony Hopkins. Nem ter de dirigir em outro idioma. "É o dinheiro. O filme americano é visto pelo mundo todo. Então, um projeto como Solace, que nos EUA tem orçamento considerado pequeno, US$ 30 milhões, pode custar isso. No Brasil, um filme não pode custar R$ 60 milhões, pois não vai se pagar só no mercado interno. E acho que a língua é nosso maior empecilho. Eles têm o inglês a favor deles."

Produzido pela New Line Cinema (da saga O Senhor dos Anéis), o projeto de Solace começo com a previsão de US$ 50 milhões e 55 dias de filmagem. "Ao longo do processo, caiu para US$ 27 milhões e 30 dias. Foi duro, mas conseguimos", lembra Poyart, que despertou o interesse do produtor e manager americano Brent Travers ao lançar Dois Coelhos, em janeiro de 2012. "Além de vender o roteiro original, que está sendo adaptado e vai ganhar um remake, a Sony comprou o original e deve lançá-lo em breve nos EUA."

O longa abriu as portas para convites para dirigir produções americanas. "Assinei com a UTA (United Talent Agency) logo depois da estreia de Dois Coelhos aqui. E em agosto de 2012, depois de ler 70 roteiros e me apaixonar por Solace, já estava no projeto", recorda o diretor, que observa que o convite da New Line ocorreu muito por causa do equilíbrio entre a importância dada ao visual e à história em seu primeiro longa. "Acharam que minha pegada visual tinha tudo a ver com o perfil do personagem do Tony (como Anthony Hopkins gosta de ser chamado), que é clarividente. Há algo de A Origem", analisa.

Para criar a identidade visual do thriller, Poyart analisou o potencial que o roteiro lhe dava. "Dois Coelhos é muito focado no visual, mas não deixa de se preocupar com o roteiro. Solace também. É um filme muito emocional. E também precisava de um visual forte. Se não, corria o risco de ter uma cara anos 80", comenta. "Não queria um noir ou dark. Até porque o assassino do filme é um 'mercy killer'. Ele mata pessoas que vão morrer. E tem poderes paranormais. O filme vira uma batalha entre dois paranormais, pois ele mata pessoas que sabe que vão morrer, de alguma doença horrível. Para não sofrerem. O roteiro explora essa questão de quase eutanásia."

Detalhe interessante é que Solace nasceu para ser a sequência de um dos clássicos contemporâneos do thriller: Seven -Os Sete Pecados Capitais, de David Fincher, que também foi produzido pela New Line. "Os produtores queriam, inicialmente, que Fincher o dirigisse, mas ele não quis. Morgan Freeman foi cotado para ser o policial que o Tony (Hopkins) faz, mas não aconteceu. E o projeto mudou."

Como o personagem de Hopkins é clarividente, foi possível explorar visualmente as experiências que Poyart tanto aprecia. "Assim, ganhei a confiança dos produtores, pois disse a eles que era isso que a história pedia", afirma ele, que teve como diretor de fotografia um americano, Brendan Galvin, mas fez questão de manter seu parceiro brasileiro Carlos Zalasik (que assina a fotografia de Dois Coelhos) como operador de câmera.

Outro talento brasileiro na produção é a atriz Luisa Moraes. "Faz um papel pequeno, mas importante, pois permeia as visões de John Clancy (Hopkins)." Completando o elenco, há Jeffrey Dean Morgan, Abbie Cornish, entre outros.

Sobre a experiência com o casting, Poyart diz ter sido positiva. "O início foi difícil. Era um desafio chegar com a ideia da cena, fazer com que os atores entendessem e concordassem e fizessem o que eu queria, mas sem perder a espontaneidade. Esse mix é o melhor", conta. "Como dizer a Tony o que fazer? Um gênio. Ele foi durão no início, mas depois se tornou um grande parceiro. Ele é mestre da simplicidade. Colin também é um cara ótimo. Sem estrelismos. E o Dean Morgan é um ator que merece mais atenção. Ótimo também", comenta o diretor, que agora trabalha na edição de Solace, ao lado do montador Lucas Gonzaga. "Por contrato, o primeiro corte é meu. Isso faz toda a diferença. Mexi no roteiro (escrito por Peter Morgan, de 'A Rainha', 'Frost/Nixon' e '360'), pude dar minha cara ao filme e tenho liberdade na edição. Ainda não terminou, mas, por ora, estou feliz. Pude fazer muito coisa do meu jeito."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.