Sol da meia-noite

Prosa de Sábado

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2010 | 00h00

O sol se põe no horizonte. O poeta se põe no livro de versos. Poeta Poente (Perspectiva) é o título da nova coleção de poemas de Affonso Ávila, autor do já clássico Código de Minas (7 Letras, 1997). O sol e o ser humano se consagram ao ocaso dos respectivos percursos. No entanto, a poesia e as artes foram solares no século 20.

Em 1922, no poema Cemitério Marinho, Paul Valéry abre o périplo do sol pelo meio-dia. Firma o astro na abóbada celeste e o reafirma no momento exato em que põe em evidência a completa ausência de sombras na terra. O sol a pino atiça faíscas de luz nos metais tomados pela maresia e na crista das ondas do Mediterrâneo. Ao cansaço causado pelo pensamento segue-se o longo olhar lançado à calma luminosa dos deuses. Entregue à luz do meio-dia e às pombas, aos esguios pinheiros e às ondas renovadas do mar, o cemitério é convite à vida. Em epígrafe, versos de Píndaro incitam o leitor a gozá-la no instante-já: "Não aspire, oh minha alma, à vida eterna, mas esgote o campo do possível." No cemitério marinho de Paul Valéry, a vida calca os pés no leito da morte.

Banhado pelas ondas que o vento agita no canavial, um diferente cemitério marinho logra poema em engenho de açúcar pernambucano. Nele, sob o inclemente sol tropical, a vida se traja de luto. Morte e vida severina. No poema Cemitério S. Lourenço da Mata, João Cabral de Melo Neto presta homenagem ao mestre francês e nordesteia as ondas do Mediterrâneo: "É cemitério marinho / mas marinho de outro mar. / Foi aberto para os mortos / que afoga o canavial." Longe das águas do Mediterrâneo, louvadas pelo cineasta Manoel de Oliveira em Um Filme Falado, ali, os cortadores de cana são tragados pelas ondas do canavial. Não chegam vestidos de caixão. São derramados no chão. Tão da terra são, que a terra nem sente a intrusão. Em S. Lourenço da Mata, a morte calca os pés na lavoura da vida em versos que rimam em ão.

Cabral é herdeiro de Carlos Drummond de Andrade. Ao perder a referência ético-filosófica mediterrânea, o sol ganhou os trópicos, crestou a pele humana e adensou o vazio da vida com a sua indispensável politização. Assim o tinha anunciado Drummond no poema Morte do Leiteiro. Ao iluminar a violência da Segunda Grande Guerra e o medo que ganha os cidadãos durante a ditadura Vargas, o sol drummondiano abre seu périplo pela aurora carioca. Pé ante pé, o dia amanhece como o leiteiro que, ao depositar a garrafa à porta da cozinha, é tomado por ladrão e recebido à bala. Leite e sangue derramados, branco e vermelho, as duas cores se procuram e se enlaçam amorosamente, "formando um terceiro tom / a que chamamos aurora".

Affonso Ávila se soma à lista dos poetas solares brasileiros, herdeiros, cada um à sua maneira, da lição de Paul Valéry. Lemos no poema Meridiano, em Poeta Poente: "Ao pleno sol de fortuito meio-dia / não em berço de ouro e estrela na testa / o soluço de vir ao mundo foi sua festa." Ao sol do meio-dia, a vida se abre em soluços. No entanto, o sol se põe. Não mais apetece ao poeta calcar a morte na lavoura da vida, embora ainda seja afeito a "acolher o pretexto para o texto", ou "o sobe e desce da bolsa".

Poeta Poente. À semelhança da crisálida, que dá título ao poema que abre o volume, Affonso Ávila se põe em expectativa de revelação. É preciso "lutar até o juiz decretar o seu tempo / e cair em nocaute só ao último assalto". É chegado o momento em que "o após do antes infinito" é o "retilíneo percurso / incrustado de curvas e recurvas". O vir-a-ser é aula de "nascer mínimo". É "o ter por onde ir e não saber a saída". Sobrevive-se graças às arapucas armadas à lucidez pela experiência humana: "Saber que o tempo não passou / foi passado para trás." Como esclarece no poema Terceira Estação: "A fonte não secou mas a água está turva / e turva a palavra da antiga clara semântica." E adiante reitera: o poeta "já pagou o check-in e aguarda a decolagem". A esculpida companheira, "replena de beleza", o acompanha na viagem.

Em poesia que nasce substantiva, embora "cediça" (em estado de putrefação), a palavra é "aurora da última hora". A situação (do sol na abóbada, do poeta na cidade) se expressa pelo "desfazimento do feito e do não-feito". No ajuste de contas, deve-se "pagar enfim o que foi dado / no jogo da vida ou no jogo de dados", ou seja, "o construído o consentido o destruído". O abatimento ("a atonia") tomba na "calada da noite". Confundem-se o físico, o figurado e o psíquico: "Víscera, avesso, abulia."

A esperança do poeta poente é, pois, intervalar. Calar ou falar o último solilóquio, "enquanto a alma é batida de fel e não tomba / enquanto ainda muge a ovelha e despetala sua lã". A esperança se expressa pelo tempo do enquanto. Neste, a ação verbal vem no infinitivo (calar, falar, olhar). Por ser desprovido de pessoa e de número, o infinitivo se confunde com o tempo circular, em que os 80 anos é um "amálgama de aros". Confunde-se com o tempo mítico, onde o poeta encena Pigmaliões e Teseus. No tempo do enquanto, graças às reminiscências, passa a calar fundo o que, no calendário das ações, é conversa fiada e banalidade.

A memória é algema ou liberdade?

Os poemas poentes de Carlos, João e Affonso. Por não ter visto a infância passar, Carlos Drummond readquire os olhos de menino em Boitempo. Não os ressuscita para rever o tempo antigo. Em perspectiva e palavra de poeta-criança, entrega ao leitor o futuro tal como visto do tempo pretérito. João Cabral sensualiza a paisagem em Sevilha Andando. Empresta-lhe coxas femininas. Da janela, "vê passar, entre as que passavam, / uma mulher de andar Sevilha". Affonso Ávila escreve a "áspera fábula", enquanto manhã, tarde e noite se confundem e o horizonte tarda em fechar seu ciclo. Pier Paolo Pasolini pergunta ao poeta poente: "O que o senhor ainda tem no ativo? Eu... uma desesperada vitalidade." No dizer de Roland Barthes, a desesperada vitalidade pasoliana se confunde com "o ódio da morte". Brilha o sol da meia-noite.

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