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Leandro Karnal
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Sois rei, sois real

Todo poder é cercado de imaginário, pompa e representação

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 02h00

Exatamente hoje, primeiro de julho, há 24 anos, nascia o novo nome do meio circulante que usamos: o real. Criada no governo Itamar Franco com seu ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso, a moeda representou um longo período com inflação menor se comparada a etapas anteriores. A novidade nasceu poderosa: o real valia mais do que o dólar na estreia. Depois, claro, nosso dinheiro ficou mais humilde e os valores voltaram ao leito de sempre. 

Com algumas exceções, a partir de 1994 cresceu no Brasil um sentimento de otimismo oposto ao dominante na década anterior. Os anos 1980 foram de “estagflação”, estagnação econômica e desvalorização da moeda. O Brasil havia emergido da ditadura civil-militar com mais de 220% de inflação ao ano e de joelhos diante do FMI. A Nova República veio e surgiu o Plano Cruzado, que seria o primeiro de muitos coelhos retirados de uma cartola mágica desastrosa. Sarney entregou o poder com inflação superior a 84% ao mês, quase 2000% ao ano, em 1990. A década de 1980 terminava com crise econômica, pessimismo e decepção com a precocemente envelhecida Nova República. Os dois presidentes vitoriosos em um Colégio Eleitoral, Figueiredo e Sarney, acumularam, segundo levantamento do Estadão, a cifra inflacionária inacreditável de 36.850.000%.

“É a economia, estúpido!” A frase da campanha de James Carville a serviço do candidato Bill Clinton continua válida. O real apresentou uma estabilidade superior aos planos anteriores e, com solavancos, solidificou o crescimento da confiança do consumidor e dos investidores. A moeda levou Fernando Henrique Cardoso à Presidência e sobreviveu a uma forte crise especulativa. A economia estável no início do século 21 trouxe novos grupos de consumo, mudanças genericamente chamadas de “revolução do frango” e “revolução do iogurte”. Galinhas e potinhos de laticínios eram o outdoor orgulhoso do plano. O primeiro Bourbon francês, Henrique IV, talvez tivesse prometido ao ministro Sully como meta monárquica um frango na panela de cada camponês aos domingos. O que o “poule au pot” representou para o marketing real em Paris o franguinho assado de domingo repetiu no Brasil. 

A economia próspera também auxiliou o governo Lula. Novos solavancos, crise mundial, programas de redistribuição de renda e nossas commodities disparando no exterior trouxeram mais itens para a propaganda oficial: as passagens aéreas mais acessíveis e o sonho do carro e da casa próprios. 

A análise das duas reeleições, FHC e Lula, parece indicar um gosto do eleitor mais pela estabilidade econômica e possibilidades de consumo do que atenção a outros aspectos como lisura política. Crescimento das compras, estabilidade da moeda, desemprego controlado e sucesso de exportadores e dos bancos produzem, para os governantes, o teflon com o qual podem atravessar sucessivas denúncias. Nada gruda no corpo do monarca ungido pela moeda forte e sonante para implementar consumo reprimido. A mão que gasta parece cegar o olho ético. A barriga cheia acalma a revolta. O progresso é o ópio do povo, novo jargão contemporâneo. 

FHC, Lula e o primeiro ano de Dilma assinalaram governantes, grosso modo, populares. Depois, os índices econômicos começaram a piorar: balança comercial cada vez mais fraca, o PIB em declínio, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ficando aquém do esperado e a economia brasileira perdendo pontos na competitividade mundial. Os cortes no orçamento começavam a aumentar e medidas, populares no começo, como a redução das tarifas de energia, revelaram-se complicadas. Apesar de gestos impactantes como o corte de impostos sobre a cesta básica, o ônus tributário seguiu sua curva histórica e ascendente. 

O clima de crescente insatisfação econômica e a proximidade da Copa de 2014 foram parte do estopim das manifestações de junho de 2013. Todos os governos tiveram seus detratores na República. A crise econômica parece ser o solo no qual a detração sediciosa germina fundo e mais sólida. Dali em diante, todos sabem a história: reeleição apertada, aumento da crise, denúncias, pedaladas, litígios jurídicos e afastamento da presidente. A ascensão do vice não reverteu o impacto da crise. O mesmo caldo de má administração, somado a novas denúncias de improbidade, tragava para o pântano da desaprovação maciça o governo Michel Temer. 

Não desejei fazer um resumo da popularidade ou impopularidade dos últimos quatro presidentes do Brasil. Desejei lançar o debate: se carisma ou sua ausência, denúncias de corrupção (que atingiram todos), traições e ataques da imprensa foram a tônica para a avaliação da presidência ou se tudo isso só pesa por causa da economia. O real, que aniversaria hoje, parece ser o foguete ou sapato de chumbo da carreira de cada chefe do Executivo. Tendo moeda forte no bolso e bom poder de compra, aparentemente, todo brasileiro pensa que o presidente é rei. A crise desnuda o cargo e o revela em sua dolorosa crueza e venalidade. 

Todo poder é cercado de imaginário, pompa e representação. Obras como a de Maquiavel ou textos teatrais como O Leão no Inverno trazem ao centro do palco o caráter mesquinho, medíocre e agressivo do jogo de quem manda. A boa moeda cobre o remendo ético e se constitui na roupa nova do rei. Quando as coisas colapsam, o rei está nu, é feio, incompetente e corrupto. É um novo materialismo histórico: a moeda sonante deglute a ética e doura o teatro da corte. Bom domingo para aproveitar seus reais enquanto é tempo. 

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