Sofrimento e solidão transformaram Wilde

Para um homem aristocrático, de gosto refinado, acostumado a freqüentar os melhores hotéis e restaurantes de Paris, da Riviera francesa ou da Itália, onde circulava como um rei entre a realeza, é difícil imaginar castigo pior do que se ver de repente confinado a uma cela gelada e imunda, onde não havia nem água encanada nem instalações sanitárias, comendo mingau ralo e pão de centeio duro.Foi o que aconteceu com Oscar Wilde nos dois anos (entre 1895 e 1897) que passou em prisões da Inglaterra, em conseqüência de seu caso homossexual com o jovem Alfred Douglas. Mas para Wilde, entre todos os horrores enfrentados nesse período, houve ainda um agravante: durante a maior parte dos dois anos em que ficou na prisão, ele não teve acesso a papel, pena ou tinta para escrever. Para um escritor, este sim talvez seja o pior, o mais cruel, de todos os castigos.Foi apenas em janeiro de 1897 - quatro meses antes de sua libertação - que Wilde, então confinado na prisão de Reading, começou a receber suprimentos regulares de papel para escrita. O combinado é que receberia, de cada vez, uma folha dupla de papel pautado (quatro páginas, como uma folha de papel almaço) e, assim que tivesse preenchido essas páginas, deveria entregá-las às autoridades da penitenciária, para só depois receber nova folha de papel. Dessa forma, se quisesse fazer um texto corrido, teria de lembrar-se, de cabeça, de como terminara a última frase da última página antes de dar seguimento ao texto.E foi nessas condições, em sua cela escura, em meio ao sempre gelado inverno inglês e com a saúde já debilitada, que Wilde escreveu De Profundis - que um dia seria definido por seu biógrafo Richard Ellmann como uma das mais longas e mais notáveis cartas de amor jamais escritas. Mas De Profundis é muito mais do que uma carta de amor. É um belíssimo texto (apesar de algumas imperfeições e repetições compreensíveis) em que Wilde despeja não só todo o amor e todo o ódio que sentia por Bosie - como Douglas era chamado -, mas onde faz também reflexões filosóficas profundas, analisando com agudeza o comportamento humano e discorrendo com lucidez e poesia sobre questões como humildade, sofrimento e perdão.Sofrimento - Embora De Profundis tenha várias marcas de Wilde - pensamentos bem formulados, frases escritas com grande estilo e também uma enorme erudição (ele fez inúmeras citações de cabeça, muitas delas em outras línguas, como trechos da Divina Comédia, de Dante, em italiano, ou referências a Ésquilo, escritas em grego) -, às vezes o texto é tão pungente que fica difícil imaginar, por trás de suas linhas, o escritor sarcástico e demolidor, o dândi vaidoso e arrogante, de tantas frases cáusticas, que Wilde foi por toda a vida. É o que ocorre, por exemplo, quando ele fala do sofrimento: "Nós, que vivemos na prisão, e em cujas vidas nada existe a não ser a mágoa, devemos medir o tempo pelo pulsar da dor, e pela lembrança dos momentos amargos. Nada mais nos resta a pensar. O sofrimento - por estranho que isso lhe pareça - é o elemento através do qual existimos, por ser o único meio que nos dá a consciência de existir. E a lembrança do sofrimento no passado é necessária como garantia, como evidência de que nossa identidade permanece." Ou quando, mais adiante, resume: "Onde há sofrimento, o solo é sagrado." Também ao falar de seu amor por Bosie, e do Amor, assim, com letra maiúscula, como escreve muitas vezes, Wilde é de um lirismo que teria sido capaz de despertar nele próprio um sorriso sarcástico, não tivesse sido minado pela sofrida paixão por Bosie e pelos horrores da prisão: "... eu nada podia fazer a não ser amá-lo. Sabia que, se me permitisse odiá-lo, no deserto árido da existência que eu teria de atravessar, e que atravesso ainda, cada pedra perderia sua sombra, cada palmeira definharia, cada poço d´água provaria estar envenenado em sua própria fonte." Ou ainda: "... porque a imaginação é simplesmente uma manifestação do Amor e o amor, assim como a capacidade de amar, é aquilo que distingue um ser humano do outro."Mas é principalmente quando fala da humildade que Wilde parece mais irreconhecível. Depois de admitir ter sido bem aquinhoado "pelos deuses" ("Eu tinha gênio, bom nome, boa posição social, brilho e ousadia intelectual"), o escritor confessa: "Agora descubro, oculto dentro de mim, algo que me diz não haver nada vão no mundo, menos ainda o sofrimento. E esse algo oculto em minha natureza, como um tesouro no campo, é a Humildade. É a última coisa que me resta, e a melhor. A última descoberta à qual cheguei, o ponto de partida de uma nova caminhada. Surgiu para mim de dentro de mim mesmo, e assim eu sei que chegou no momento certo. Não poderia ter surgido antes, nem depois. Se alguém me falasse sobre ela, eu a teria recusado. Mas, como eu próprio a descobri, devo guardá-la."Curioso é que os originais de De Profundis jamais chegariam às mãos de Bosie, o objeto da paixão que fez brotar de dentro de Wilde essa torrente de sentimentos. Terminada a imensa carta - escrita ao longo de três meses, utilizando 20 folhas de quatro páginas -, Wilde pediu permissão ao Ministério do Interior para enviá-la a seu amigo Robert Ross, com instruções para que este fizesse uma cópia e mandasse os originais a Bosie. Mas o pedido foi negado pelas autoridades. E o então diretor da prisão de Reading, J.O. Nelson, arquivou os papéis.No então severíssimo sistema carcerário inglês, muitas vezes os prisioneiros até podiam receber cartas, mas não podiam abri-las (apenas eram informados de sua chegada). Ou podiam escrevê-las, mas não mandá-las. A correspondência recebida ou enviada podia ficar retida com as autoridades da prisão, para serem entregues ao prisioneiro apenas no momento de sua libertação. Foi o que aconteceu com os originais do De Profundis.Cumprida a sentença, Nelson devolveu a Wilde suas 80 páginas manuscritas, embora ao fazê-lo estivesse violando as regras, uma vez que o texto não era formalmente considerado uma carta e, nesse caso, deveria ter permanecido arquivado na prisão mesmo após a libertação do escritor.Destino complicado - Depois de solto, Wilde enviou os originais a Ross, como inicialmente planejara. Mas, por algum motivo, Ross não os mandou de imediato a Bosie. E Wilde, que logo reataria com o rapaz, acabou achando melhor que Bosie não lesse o que escrevera (em mais da metade do texto, o escritor destrói o jovem amante, expondo com enorme crueza seus defeitos). As versões sobre o que aconteceu com a carta são um pouco contraditórias, mas, segundo o biógrafo Ellman, Ross acabou enviando uma cópia a Bosie e guardou os originais. Embora a princípio negasse ter recebido a cópia, anos mais tarde Bosie voltaria atrás, admitindo que a recebera sim, mas que, já imaginando seu conteúdo, teria queimado a carta, sem lê-la.O destino desse texto dramático, cheio de beleza e miséria, continuou a ser permeado pela estranheza mesmo depois da morte de Wilde. Quando ele morreu, três anos após deixar a prisão, Ross decidiu afinal mandar os originais de De Profundis para publicação, mas fez uma série de cortes no texto, com a intenção de lançar uma espécie de manifesto póstumo, cujo objetivo era melhorar a imagem de Wilde.Anos depois, em 1912, ainda de posse dos originais, Ross - sempre preocupado em preservar a imagem de Wilde - impôs um embargo de meio século para que os originais fossem divulgados. Somente em 1962, levantado o embargo, sir Rupert Hart-Davis, comparando os originais com a cópia que se encontrava no Museu Britânico, descobriu centenas de omissões e erros nas várias versões que circulavam desde a primeira publicação, feita por Ross, em 1904. O verdadeiro De Profundis - exatamente como Wilde o escrevera, em sua cela gelada e escura - permanecera guardado no fundo de um cofre durante 50 anos.

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