Sofisticação em dose dupla

Com 12 inéditas, CD Smash revê o refinamento e a qualidade de letra e música de Patricia Barber

JOÃO MARCOS COELHO, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2013 | 02h10

A música começa só com a bateria e contrabaixo; aos 15 segundos entram acordes cristalinos do piano a cada tempo, e em seguida uma voz expressiva entoa uma melodia tão urgente quanto os versos que falam em sonhos de uma situação de emergência, com direito aos delírios de quem vive situações-limite: "Durmo como se estivesse sonhando ao ritmo de uma emergência".

Em seguida, começa o Code Cool, título da canção, com versos agudos como "inspiro como se estivesse pregando". Um inesperado break dissolve o pulso regular por volta de 1h45; seguem-se 60 segundos de sons que beiram a uma bem construída música eletroacústica mista; outro acorde reinstaura um fluxo sonoro mais convencional, mas ainda sem pulso regular, e a voz retorna para dizer: "Faço amor com meus lábios/ leio olhos com livros/ leio livros com ciência (...) sou o Davi de Michelangelo". Só aos 3'49 o pulso inicial retorna para os versos "meus novos sapatos estão grandes mais (...) ando como se estivesse dançando, falarei como se estivesse ensinando, viverei como se estivesse amando", mantendo-se até o final, aos 5'21.

Isso é Patricia Barber, a mais original cantora e pianista da música atual. Nascida há 57 anos em Chicago, ela se impôs desde Modern Cool, CD de 1994 (Premonition Records). Compõe a música, faz letras admiráveis, canta com refinamento e está tocando piano como nunca. Code Cool é a primeira faixa de seu novo disco, Smash, recém-lançado pela Concord (US$ 10,99 no iTunes).

Ela não gravava desde 2008, quando produziu outra gema, Cole Porter Mix (Blue Note), rara aventura por canções de terceiros, exceção plenamente justificável, porque há muitas afinidades entre ela e Porter. Além desses, Barber possui outras quatro gravações, todas indispensáveis, ao menos uma delas obrigatória: Mythologies, de 2006, que, curtido em sequência, sem interrupção, se estrutura como um ciclo de lieder schubertianos.

Smash é uma obra-prima e, de certo modo, uma síntese de sua vida nestes últimos cinco anos. Nesse período afastada dos estúdios, Barber teve perdas afetivas muito grandes, como a morte da mãe, Margaret Orton, em 2009; e profissionais, como o rompimento com a Blue Note motivado pela saída de Bruce Lundvall, seu velho amigo, da presidência da gravadora em 2008, e graves desentendimentos financeiros com seu empresário. Mergulhou no estudo intensivo de piano - e uma excelente faixa instrumental de Smash, Bashful, atesta uma qualidade pianística que não esteve presente em gravações anteriores. "Há neste disco muita intimidade entre a música e as palavras. Ela canta no espaço da vida", diz sua companheira Martha Feldman, professora de música na Universidade de Chicago.

As 12 canções são de Patricia. E inéditas. O trio formado por velhos parceiros - como o baixista Larry Kohut, o baterista Jon Deitemyer e o guitarrista John Kregor - encaixa como uma luva em seu piano, que tem destaque bem maior do que nos seis discos anteriores.

Amor e perda constituem os temas perenes de suas canções. Smash, a faixa que dá título ao CD, retrata o fim de um romance, com versos associados ao conceito de erosão (de edifícios e de um sangrento acidente de carro). Missing, um comovente retrato de melancolia, surgiu de modo inusitado. Uma mulher escreveu a Patricia sua história de vida e perguntou-lhe se aquilo não poderia virar uma canção. Surpreendentemente, ela topou. "Minha ideia foi levar a história dela pelas quatro estações do ano. Quanto toco/canto esta canção em shows, muita gente chora." E extravasa seu protesto em função de recentes iniciativas espalhadas pelos EUA de se anular casamentos gays na bem-humorada canção Devil's Food, tendo como ponto de partida a própria perspectiva homossexual.

Como Cole Porter, Patricia mantém dupla sofisticação, na música e nas letras, em elevadíssimo padrão de qualidade. Ela se autodefine como "songwriter", e esclarece que isso não significa ser poeta. "Poesia é uma paixão, meu sempre presente guia e inspiração. Sozinha, com lógica e diligência, estudei poesia, mas para mim não se cria arte nem por meio de lógica nem com diligência. Como a música, a poesia é criada na boca, no ouvido, e no ar."

Diz e prova. Smash nasceu com a intenção de ser uma série de "canções silábicas". Isto é: ela se autoimpôs limites silábicos para cada verso. Há três exemplos destas experimentações no CD, em que ela trabalha com versos de duas, três e seis sílabas/palavras. Vejam The Swim, com duas: "So like/goodbye/with you/at once/too much/too fast". Spring Song, com três: "His absence/fills the pail/like water/to the brim.". E The Wind Song com seis: "Something suddenly cool/something suddenly dearer/someone wonderful who'll/appear suddenly nearer".

Em todas, tudo flui com naturalidade. Mas esta artista de exceção pratica severa autocrítica e reconhece uma limitação (ou qualidade?): "Estou tentando fazer poesia mais refinada. Mas ainda necessito da rima, porque a rima é ritmo, e ritmo é música".

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