Sociólogo analisa Japão "vizinho"

Dificilmente uma palavra soa mais ameaçadora, no mundo atual, que "globalização". Com interpretações variadas - desde a escravidão do mundo pobre pelo mundo rico até um salutar rompimento de barreiras econômicas e culturais -, ela não é um processo perfeito, mas permite que sociedades tão distantes e culturamente isoladas durante séculos como o Japão se tornem surpreendentemente próximas e acessíveis.A partir desse raciocínio, o sociólogo Renato Ortiz escreveu O Próximo e o Distante - Japão e Modernidade - Mundo (Brasiliense, 202 páginas, R$ 34,80), seu 11.º livro, lançado oficialmente hoje. Ele parte do princípio que, em um mundo globalizado, a noção de espaço se transforma radicalmente e, por isso, as noções de próximo e distante, familiar e estranho, também se alteram profundamente. Nesse sentido, o Japão não é visto com um lugar "distante", "exótico", "oriental", mas surge como nosso "vizinho", ou seja, parte integrante da modernidade oriental.Ortiz desenvolve há anos teorias instigantes sobre indústria cultural. Doutor em sociologia e antropologia pela École de Hautes Études, em Paris, uma de suas premissas aponta uma ligação lógica: falar em cultura é discutir os destinos políticos de um país. Como o Estado deixou de definir o que é cultura, restando-lhe a obrigação de fazer a normatização e incentivo em algumas áreas específicas, o papel é exercido pelas indústrias culturais.O tema é intrigante, pois, quanto mais se fala em globalização da economia, mais a cultura aparece, dentro de cada país, como algo que resiste, mas que, também, se transforma, construindo uma alavanca indispensável do processo. "Parto do princípio de que o movimento de globalização penetra os diversos países do globo terrestre e posiciono o olhar analítico no interior da modernidade-mundo", escreve, no prefácio do livro.Logo no início, Ortiz esclarece que prefere o termo "mundialização" quando trata da problemática cultural, reservando a idéia de "globalização" para a compreensão das esferas tecnológica e econômica. "Com isso, procuro escapar de um certo determinismo que vê o mundo da cultura como mero reflexo de outras instâncias sociais."Acertadamente, o sociólogo evita fazer um estudo do Japão como se estivesse diante de um todo homogêneo, agora integrado ao megaconjunto de um sistema mundial. "Ao me debruçar sobre o Japão, não tinha a intenção de encontrar o ´outro´; para o objetivo da minha análise, os japoneses são parte de um ´nós´", afirma.Um "nós" problemático, contraditório, pois revela a expansão em nível global de representações culturais vinculadas a interesses concretos. Ao longo de seus capítulos, O Próximo... convida o leitor a rever as características gerais de nossa época que permitiram, em um curto período, recriar as bases culturais da vida social e impor, além das fronteiras, comportamentos estandardizados cuja referência principal não é o território, nem as heranças ancestrais, mas símbolos que se tornam familiares, referências obrigatórias de um cotidiano: uma marca de refrigerante, a música mais tocada, uma etiqueta famosa.Herança - O Japão torna-se, portanto, um caso exemplar - isolado durante séculos graças à sua feição insular, o país conseguiu criar a chamada mentalidade japonesa e constituir um universo de modernidade que não exclui a herança tradicional. Ortiz examina a questão da tradição sob a ótica das relações de trabalho e da organização familiar e social. Participa também do debate sobre a identidade nacional fortemente preservada no processo de conciliação do país com uma vida internacional cada vez mais presente e envolvente.Para desenvolver seu estudo, Ortiz fez diversas pesquisas em bibliotecas reais e virtuais. Começou pelo acervo das universidades paulistas e de entidades específicas, como a Fundação Japão e a Casa da Cultura Japonesa. Viajou também para a Inglaterra, onde pesquisou em Oxford, além de se deslocar para Tóquio, onde freqüentou instituições diversas. Antes de se apresentar como um japonólogo sul-americano, Ortiz oferece uma visão clara de como uma transformação mundial rápida é visível em um dado país.

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