Sociedade secreta dos biógrafos

Entendamos a constatação de Jorge Luis Borges, autor de História Universal da Infâmia: "Em todas as partes do mundo há devotos de Marcel Schwob que constituem pequenas sociedades secretas".

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

Essas sociedades secretas têm lugar e data de fundação, Paris, 1896. Naquele ano, o escritor Schwob enfeixa 22 minibiografias no volume Vidas Imaginárias (Hedra, 2011) e rouba do historiador a função exclusiva de biógrafo. Rouba-lhe o fardo da biografia para que o artista o carregue às costas, não discriminando os grandes homens dos medíocres e até dos criminosos. Vidas imaginárias reúne minibiografias de filósofos e políticos do mundo antigo (destaque para Crates Cínico e Eróstrato Incendiário), de artistas do Quattrocento italiano (destaque para Paolo Uccello Pintor) e de piratas e bandidos modernos.

No prefácio ao volume Schwob estabelece a premissa: no desenho do caráter, a ciência histórica transformou o detalhe biográfico incomum em muleta do fato social e da ideia. A embriaguez de Alexandre, o Grande, serve para justificar o assassinato do amigo Klitos. O respeito pelo relógio explica o rigor da filosofia de Kant. Por que o historiador camufla a fístula anal de Luís XIV nas decisões estabanadas do monarca? No entanto, continua Schwob, é o detalhe esdrúxulo em si que esclarece o indivíduo. Os grandes gestos e as ideias geniais são patrimônio comum da humanidade, mas cada indivíduo, biograficamente falando, só possui de fato a própria singularidade. Ela monta e narra a biografia escrita pelo artista. A ciência histórica deixava o leitor na incerteza acerca do indivíduo enquanto tal. Continua Schwob: o artista trabalha com o avesso das ideias universais, descreve apenas o particular. Deseja o único. Não classifica. Desclassifica.

Schwob pede que se examine uma folha de árvore com suas nervuras caprichosas e seus matizes fixados pela sombra e pelo sol, com o edema causado pela queda duma gota d"água ou com o rastro prateado desenhado pelo caracol... E lança o desafio: procure-se uma folha igual em todas as florestas da Terra. Tarefa vã. A biografia registra a esquisitice, o inconfundível: o nariz torto deste homem não tem igual no mundo, também o olho mais alto que o outro desse, ou o hábito daquele de comer a tal hora carne branca de frango... Schwob proclama: "O livro que descrever um homem em todas as suas bizarrices será uma obra de arte, qual estampa japonesa em que se vê eternamente a imagem de uma pequena lagarta entrevista certa vez em determinada hora do dia".

A alusão à estampa japonesa não é gratuita. No citado prefácio, Schwob glorifica o trabalho do pintor, desenhista e gravador Hokusai (1760-1849), famoso pela série 36 vistas do monte Fuji. Hokusai esperava chegar aos 110 anos, quando então "todo ponto, toda linha traçada pelo seu pincel seriam vivos. Por vivos, entenda-se individualizados". Schwob infere que o ideal do artista/biógrafo "seria o de diferençar ao infinito o aspecto de dois filósofos que inventaram praticamente a mesma metafísica". Ele "cria em meio a um caos humano". Dali parte a eleição: "Diz Leibniz que, para fazer o mundo, Deus escolheu o melhor dentre os possíveis. O novo biógrafo, qual divindade inferior, saberá escolher aquele que é único dentre os possíveis humanos". Conclui: infelizmente o antigo biógrafo queria ser historiador e nos privou de retratos admiráveis. Presumiu que só interessaria ao leitor um universo humano superior, povoado pelos grandes homens. Assinala: "Aos olhos do pintor, têm igual valor o retrato de um homem desconhecido pintado por Cranach e o retrato de Erasmo de Roterdã". Transpõe: têm igual valor a vida de um ator qualquer e a de Shakespeare.

O prefácio a Vidas Imaginárias é evangelho para os devotos. Dele diz Jules Renard: "Todos os artistas deveriam sabê-lo de cor". A leitura de Vidas Imaginárias proporciona a Albert Samain o prazer do haschich. Cada página bota fogo na imaginação e, em vapores violáceos e nuvens de ouro negro, faz aparecerem e desaparecerem mundos, povos e cidades.

Afirma Jean-Marie Lassus que a América hispânica foi tão sensível a Schwob quanto a França de Charles Baudelaire a Edgar Allan Poe. Jorge Luis Borges e o chileno Roberto Bolaño dão as mãos. Borges confessou que devia a Schwob sua História Universal da Infâmia (1935), essa "irresponsável brincadeira de um tímido que não se animou a escrever contos e se distraiu em falsear e tergiversar histórias alheias". Para escrevê-la, acrescentou, lia vidas de pessoas conhecidas a fim de deformá-las a seu capricho. Em 1996, ano do centenário de Vidas Imaginárias, Bolaño lança o provocador La Literatura Nazi en América (inédito em português), série de minibiografias imaginárias de escritores americanos que bandearam para as ideias fascistas.

No livro de Bolaño não se busquem as minibiografias do argentino Leopoldo Lugones, do boliviano Alcides Arguedas ou do mexicano José Vasconcelos, escritores que ao final da vida se associaram a ideais ultraconservadores. O livro não é panfletário. O nome de batismo não identifica a figura biografada. Ações e atitudes singulares do personagem é que levam o leitor a adivinhar o nome e a nacionalidade desse e daquele e a deslindar a complexa trama romanesca composta de minibiografias. José Miguel Oviedo assinala que o livro é movido "por uma intenção paródica, instrumentada por jogo erudito cheio de piscadelas irônicas e de gozações, às vezes encarniçadas, às vezes benevolentes. Como Borges, Bolaño mistura com frequência o fictício com o real a fim de criar a sensação de verossimilhança no disparatado".

Trinta anos atrás, ao publicar o romance Em Liberdade, assinei ficha de inscrição na sociedade secreta a que Borges se refere.

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