Sociedade Betta

Levamos para casa um peixe de briga, que mata seus oponentes e faz parte da rede antissocial

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

09 de março de 2019 | 02h00

Há um ano, logo depois da barraca de pastel, parada obrigatória das quartas-feiras, uma ambulante boliviana vendia peixes ornamentais na saída da feira em sacos plásticos claustrofóbicos. De dar dó. 

Achei que eram peixes dos Andes, ou da Amazônia boliviana. Foi a primeira e última vez que a vi. Sua venda está conosco até hoje. Afinal, eu costumo levar os filhos para o pastel com caldo de cana das quartas-feiras. 

Meu filho Tião é a pessoa mais popular da feira. Todos o chamam para provar suas frutas. O que ele faz com gosto. Desde os 2 anos, eu o solto e fico atrás escutando: “Tião, Tião!”.

Se Tião tem gosto por comida, e dá gosto vê-lo comer, Joaquim tem por cores, pintar, esculpir na madeira e montar estruturas. Os peixes eram de um azul, verde e roxo de destaque, alguns com a cauda maior do que o corpo, o que chamou sua atenção. Ele escolheu um roxo macho com a maior cauda.

Ao chegar em casa, logo descobrimos que se tratava de um Betta, o “lutador siamês”, e que vive em poças e arrozais da Tailândia, Sudoeste Asiático, não em rios ou lagos andinos. O solitário siamês, pois é um peixe de briga que mata seus oponentes, até a fêmea com quem procria, se ela der bobeira e não cair fora após o abraço nupcial, tem um gênio assustador, que intrigou meu filho, o menino mais sociável do bairro, que cultiva amizades como poucos. 

O Betta quer o isolamento. Odeia seus pares.

Para mim, bastariam uma jarra de vidro, água da torneira e migalhas de pão, e ele sobreviveria uns dias, e todos nos esqueceríamos dele. Que nada. Numa loja pet franqueada, quase fui preso pela inquisição ambiental. 

Pão tem fermento: eu o envenenava. Ele só come ração balanceada própria com 33% de nível proteico e alta digestibilidade, bolinhas minúsculas, alimento extrusado e balanceado de carnitina, vitamina C e carotenoides, que cheira a ração de cachorro.

Vive na água, que deve ser limpa mensalmente por conta dos excrementos (como não pensei nisso?), precisa de um jato eventual de Protect Plus de “alto rendimento”, que “não faz espuma” e “não deixa cheiro”, coloide orgânico que forma uma capa protetora sobre o muco natural do peixe, neutraliza compostos nocivos a ele, como metais pesados, cloro, e diminui o estresse.

A vendedora vigilante, que deve gostar mais de animais de que dos humanos, apesar de vender para humanos, orientou que o peixe não pode ficar mais do que dois dias sem comer, e só podemos dar no máximo três bolinhas por dia. 

Um Betta azul da amiguinha do Joaquim é sem rabo. Uma mutação? Não. Ele comeu o próprio rabo, pois ficou uma semana sem ração. E lógico que sempre dou cinco bolinhas; sou de origem italiana. Agora, vizinhos têm a missão de alimentá-lo quando viajamos.

Ele é carnívoro. Chegamos a catar aranhas e insetos vivos para atirá-los no aquário, que agora é profissional, e vê-lo em ação. Mas o fantasma da vendedora xiita, que deve ser budista e vegetariana, e vê monges reencarnados em qualquer animal, me persegue como o pai de Hamlet. 

Achei que o gesto atormentaria o sensível artista de 5 anos, que chorou quando a mãe matou uma barata a chineladas e gritou: “Morre, desgraçada!”.

Não sou bom para nomes de animais. Tive gatos que se chamaram Kátia, Deise, Otavio, Mário, Hugo, Fábio. Meu amigo Otavio Frias Filho quis conhecer o Otavio, quando soube que eu tinha um gato homônimo. E sempre perguntava dele. Foram apresentados. Mas nunca contei que meu Otavio depois caiu do décimo primeiro andar da janela em que eu morava nas Perdizes. Mário também desabou e morreu. Depois disso, gatos só com redes nas varandas e janelas.

Como sou pouco criativo para nomes, deixei a tarefa a Joaquim. Escolheu Fly-in. Não Flying. O nome pegou. Uma vizinha o chama de Fly-in Rubens Paiva. 

Acontece que Fly-in me reconhece. Quando chego, ele fica feliz. Abana a cauda. Gruda no vidro. Se coloco a mão, ele se aproxima. Ninguém acredita em mim. Se colocarmos um parente, ele mata. Uma namorada, ele mata. Fly-in me ama.

Peixes reconhecem faces humanas com uma precisão surpreendente. A experiência foi feita com um peixe arqueiro (toxotes chatareus) pela Universidade de Oxford. Mostraram um rosto e deram comida. Depois, mostraram 44 outros rostos ao lado do que significava comida. Ele só borrifava água no que dava comida.

“O estudo não apenas demonstra que o arqueiro tem impressionantes habilidades de discriminação, mas também fornece evidências de que um vertebrado sem neocórtex e sem prerrogativa evolutiva de discriminar rostos humanos pode fazê-lo com alto grau de precisão”, publicaram no Scientific Reports.

E eu o amo. Me vejo na sua solidão. Ele está na estante do meu escritório, me vê escrever, o gesto solitário e camuflado de se comunicar de dentro de um aquário com milhões: roteiros, crônicas, posts, mensagens, livros, peças.

Não invejo seu ódio. Ele me lembra os lobos solitários de redes sociais, que atacam pessoas, pedem comida por aplicativos, namoram virtualmente sem vínculo, tornam-se membros ativos e ativistas da sociedade Betta: a rede antissocial. 

“A internet transformou a humanidade de muitas maneiras, deixou muitas coisas mais fáceis e eficientes, mas estamos mais sozinhos e desconectados do que nunca”, disse Orkut Büyükkökten, inventor da primeira grande rede social, ao Canaltech.

A cultura do narcisismo e ódio é criada pelos “cercados de espelhos, que refletem não verdadeiramente como nos sentimos, mas o que queremos que o mundo veja em nós”. 

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