Sociedade

Terça passada, fui ao novo Allianz Parque assistir a Palmeiras e Santos, a convite do meu amigo Paulo Bonfá. Tirando o jogo, o jogo foi ótimo. No segundo tempo, o Santos fez um gol e empatou a partida. Silêncio no estádio. Silêncio absoluto. Não só porque era o estádio do Palmeiras, mas porque a torcida do Palmeiras estava em um número um pouco maior: 40.000 a 0. Era jogo de uma torcida só. 

Fabio Porchat, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2016 | 03h00

Descobri isso ali na hora e não sabia exatamente o que havia acontecido para essa medida ter sido tomada, mas imaginei que coisa boa não teria sido. Ao mesmo tempo que acho correto adotar essa opção como medida punitiva, acho uma espécie de desistência total do processo de civilidade. Que tipo de pessoas somos nós que não conseguimos assistir a um jogo de futebol ao lado de alguém que torce para um time diferente do nosso? A punição (à qual não sou contra) pune a sociedade como um todo. Ela nos diz que, já que alguns não se comportam, não há outra solução a não ser impedir pessoas com opiniões diferente (torcedores) de se encontrarem. 

No fundo, a separação de torcidas no estádio por si só já é uma maluquice, afinal de contas, aquelas pessoas não estão em guerra, estão apenas torcendo para um time de futebol diferente. Não haver nem torcida, chega a ser uma derrota para a sociedade. É importante para todos nós, durante a vida, lidar com o diferente, com o oposto, com o outro, para, justamente, poder viver a vida, que se apresenta várias vezes para nós muito diferente do que sonhamos e queremos.

Precisamos saber lidar com as frustrações, até porque na vida temos mais delas do que alegrias, para evoluirmos e crescermos enquanto seres humanos (que, no caso, alguns de nós somos). Nos isolarmos dos que não pensam igual a nós é o oposto de viver em sociedade (isso vale para qualquer assunto. Política inclusive). Como torcedor de futebol, entendo que os ânimos se exaltem, eu mesmo me irrito (mais com meu próprio time, é verdade). Sei que acabamos tendo reações passionais e não racionais durante uma partida. Só que a força tem que ser no sentido de se controlar e não de desistir de assistir a um jogo. No momento em que temos que tomar esse tipo de atitude punitiva, acabamos desistindo da humanidade e punindo o País como um todo. Quando convivemos com isso, aceitamos que não estamos preparados para viver em sociedade e mais: que não acreditamos mais nela.

Pena.

 

PS: Por acaso, eu relato o jogo Palmeiras e Santos, mas já aconteceu com inúmeros times, meu Vasco inclusive, e seleções do mundo todo. O que penso se encaixa para qualquer equipe de qualquer esporte, inclusive.

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