Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Sobrinho de Fernando Pessoa fala sobre o tio poeta

Médico e escritor, que participa da Flipoços, fala sobre os anos em que viveu ao lado do autor

Cleonice Berardinelli, Especial para O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2014 | 03h00

De um lado, uma pesquisadora especialista em Fernando Pessoa. Do outro, o sobrinho do poeta português, que virá ao ‘Brasil participar da 9.ª Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas, a Flipoços, que começa no sábado, 26, e vai até o dia 4, na cidade mineira.

A convite do Estado, a professora Cleonice Berardinelli formulou perguntas para Luis Miguel Roza Dias, médico e escritor, que conviveu com o tio escritor nos últimos cinco anos de vida.

Íntima conhecedora da obra de Pessoa, Cleonice preferiu questionar Roza Dias justamente sobre esse pequeno período de convivência, buscando montar um perfil do homem em seu cotidiano: o sujeito brincalhão, que aprontava com a irmã e inventava passatempos para os sobrinhos. Leia, a seguir, o resultado da conversa.

Lembra-se de alguma atitude divertida do tio Fernando?

Poderia dar vários exemplos, pois o meu tio brincava bastante comigo e com a minha irmã. Duma eu e lembro bastante bem, pois se passou diretamente comigo. Estávamos todos em casa e haveria uma festa, possivelmente de aniversário, pois estavam mais pessoas lá em casa a festejar não sei o quê. Às duas por três, eu teria desaparecido do convívio, tendo alguém perguntado por mim. Como eu era o mais pequeno conviva, ficaram todos alarmados à minha procura, pois quando uma criança da minha idade desaparece da vista, é porque estará, quase sempre, a fazer asneira. Conceito nem sempre certo, mas provável. Toda a gente procurava por todos os lados, até que foi o meu tio que me encontrou. Eu tinha me escondido de baixo da mesa da casa de jantar e tapado com a toalha da mesa que chegava quase ao chão e estava tranquilamente sentado no chão a chupar uma rolha de um garrafão de vinho tinto! O meu tio Fernando ao deparar o seu sobrinhito naquele preparo, fartou-se de rir e exclamara alto e em bom som: "Temos Homem!". Como se sabe, ele gostava da sua "pinga", embora ninguém o tivesse visto ébrio!

De alguma frase dele que despertou em você um sentimento de curiosidade?

Resposta difícil, pois existem tantas, tantas frases por ele ditas ou escritas que me despertaram curiosidade. Como é evidente, frases que ele tenha dito quando eu tinha 5 ou menos anos seriam impossíveis de eu as ter memorizado. No que diz respeito a quando comecei a estudar a sua obra, a tentar seguir a sua senda de pesquisa do "Conhecimento", lendo os livros que tenho na minha biblioteca que eram dele (todos sublinhados por ele), enfim quando comecei a escrever sobre ele em textos, livros e artigos, já o caso muda de figura. De qualquer modo, vou dar um exemplo, entre muitos, de uma espécie de frase, que embora não tivesse nada de transcendental, estava eivada do seu sentido de humor (britânico) e também indiretamente ligada à minha profissão de médico. Fernando Pessoa, desde muito novo, sempre tivera medo de ficar louco e, autoexaminando-se, acreditava que isso lhe aconteceria mais tarde ou mais cedo. É preciso lembrar que ele, até a idade de 6 anos, convivera com a sua avó paterna, Dionísia, que volta e meia tinha acessos graves de loucura que a levavam a ser internada de urgência num hospício em Lisboa. Mais tarde, voltou a conviver com ela, na sua adolescência, quando veio para Lisboa para um curso universitário. Nesse tempo, dava-se com o tio (padrasto) general Henrique Rosa, que resolveu mandá-lo a uma consulta dum seu amigo, Egas Moniz, famoso neurologista da época. Este, examinando-o e nada tendo encontrado de anormal, tê-lo-ia enviado a um colega fisiatra, recém-chegado da Suécia com um tratamento chamado "Ginástica Sueca". Fernando Pessoa, referindo-se a esse tratamento que praticara com sucesso, disse a seguinte frase (a tal que fixei e que nunca esqueci): "Para ser cadáver, só me faltava morrer". Em menos de três meses e três lições por semana, Furtado Lima (o tal fisiatra) pôs-me em tal estado de transformação que, diga-se com modéstia, ainda hoje existo - com vantagem para a civilização europeia, não me compete a mim dizer".

Lembra-se de tê-lo visto imitando o íbis e dizendo aos sobrinhos os versos em que o definia?

A resposta é negativa, pelas razões atrás descritas. Lembro-me, sim, da minha mãe nos contar, que quando ela à noite, debruçando-se na janela da nossa casa, para ver se ele chegava, pois o esperava para jantar, ele, apercebendo-se que ela estava à janela, parava ao pé de um candeeiro iluminado da rua, punha-se em posição de íbis com uma das pernas, alçada, dobrada pelo joelho, para gozar com ela, que ficava envergonhada por causa dos vizinhos.

Que cara fazia então?

Seria a cara possível para "gozar" com a irmã.

Sua companhia era agradável aos meninos? Ou fazia-lhes medo?

Como era o nosso "único e verdadeiro" tio a viver conosco, gostávamos dele como aos nossos pais. Era lá da casa. Ainda por cima, ria e brincava conosco, prestando-se muito sério a, por vezes, que a minha irmã, mais velha do que eu, lhe fingisse fazer-lhe a barba, como já tinha visto o tio fazer na Barbearia do Sr. Manacés, em frente à nossa casa. Eu, por ser mais pequeno, passava a ser só ajudante de barbeiro. Quando estávamos na casa da praia, ia-nos visitar todos os fins de semana, trazendo sempre presentinhos. Ansiávamos recebe-los, ela gozava em dá-los.

Lembra-se de ter ouvido o tio dizer algum outro poeminha? Qual ou quais?

Negativo. Ele, quando chegava, na maioria das vezes, ia para o seu quarto e, pelo que nos contava a nossa mãe, ficava longo tempo a escrever de pé sobre o tampo da cômoda que tinha no quarto. Sei que a mim dedicou dois versos, um chamava-se O Menino do Caracol, pois eu, com os meus 2 anos, usava um caracol de cabelo no alto da cabeça como era costume as mães pentearem os seus filhos. O segundo poema chamava-se Rondeau e, ao menino que ele se referia, era o "BI", que era o diminutivo que ele me dera em que o "B" era de bebê e o "I" de Lu"I"z.

Como era o som de sua voz? Valorizava ou não o que dizia? Era agradável, rica, sonora?

Confesso que não me lembro. Era a voz do tio que vivia conosco, agradável, com certeza e, que eu me lembre, nunca se zangara.

CLEONICE BERARDINELLI É MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS E PROFESSORA EMÉRITA DA UFRJ E DA PUC-RIO

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