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Sobrevivendo

Um poeta italiano divulgou seu número de telefone e se dispôs a falar com quem quisesse ligar

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2020 | 03h00

Já sobrevivi a uma pandemia. Na adolescência. Fui o último da minha classe no colégio a pegar a gripe asiática, nos estertores de 1957, talvez nos primeiros meses de 1958. Como se pode notar, não morri – nem meus colegas. Na família, só a mim a gripe pegou. 

Por ter sido o último dos moicanos a sucumbir àquela mutação do vírus H2N2, tive algumas semanas a meu favor para desdenhar dos colegas caídos e ainda por cair de cama. Minha reprovável fanfarrice foi a memória mais viva que daquele surto ficou. Febre abrasadora, moleza geral, dor por todo o corpo, sobretudo na cabeça, que parecia querer explodir quando mexia com os olhos – também desses sintomas, et pour cause, me lembro; mas nada do tempo que a gripe me manteve acamado, nem dos remédios que tomei. 

A pandemia seguinte, a gripe Hong Kong, desembarcada no Rio na década seguinte, dessa, até porque dela escapei, não me recordo patavina.

A influenza asiática, de início injustamente conhecida como “gripe Singapura”, também se originou na China, como a covid-19, por volta de 1956. Não fez mais do que 4 milhões de vítimas fatais porque descobriram rápido uma vacina. Antes, porém, derrubou um bocado de celebridades: da rainha Elizabeth, da Inglaterra, à Miss Universo de 1957, a bela peruana Gladys Zender. 

Sua porta de entrada no continente foi o Chile. Sua primeira vítima famosa no Brasil, ironia das ironias, o ministro da Saúde, Mauricio Medeiros. O da Guerra, marechal Lott, também a pegou, assim como o patrão dos dois, o presidente JK, que teria sido contaminado por alguém da comitiva do presidente português Craveiro Lopes, em visita ao Brasil.

A covid-19 não é minha primeira pandemia, mas, como todo mundo, estou debutando em distanciamento físico e isolamento social compulsórios. Estoicamente e, na medida do possível, espartanamente. 

Adoro ficar em casa, ler, ver filmes e ouvir música, e não morar sozinho refreia um pouco a ânsia de falar com alguém, agora, hélàs, só por telefone. Mas não me agrada conversar por telefone, nem sequer por Skype ou Zoom, que, ao contrário do que se propala, não encurtam distâncias, acabam com elas. E nos obrigam a pentear o cabelo e tirar aquela camiseta furada ou manchada de café.

Mas, ainda que me agradasse trocar ideias por correntes eletromagnéticas ou pela internet, teria de me defrontar com algo pior: a falta de assunto.

De assunto, propriamente não, de novidades. Ruminamos as mesmas queixas, amaldiçoamos as mesmas figuras, rogamos as mesmas pragas, repetimos os mesmos refrões pessimistas – daí porque prefiro trocar e-mails, cada vez mais objetivos, parcimoniosos, gracilianos, telegráficos. Porque, além de tudo, andamos mais lentos de cabeça, morosos e desavindos com nosso ritmo circadiano. Eu pelo menos ando.

A semana continua tendo sete dias, mas que se tornaram tediosamente indistintos. Sexta-feira perdeu sua prévia aura de prelúdio do ócio sabático; o verbo sextar já deve ter caído em desuso; não sabemos mais dizer se “ainda é quinta” ou se “já é quinta”. Até os domingos ficaram menos melancólicos, porque todos os dias da semana agora o são. 

Os analfabetos e iletrados sofrem mais nas atuais circunstâncias. Os que vivem de ler e escrever são profissionais da solidão; precisam do isolamento para produzir. Pascal achava que a tragédia do homem começa quando ele não consegue ficar sozinho sem se aborrecer consigo mesmo. A leitura é uma forma de solidão compartilhada, de diálogo à distância, de encontro e viagem imóveis. Leiam e salvem suas almas e seu sistema nervoso. Não é por acaso que, pelas redes sociais, tantos internautas troquem indicações de leitura.

Ninguém parece discordar de que o mundo que conhecíamos acabou. Acredita-se que seremos todos, quiçá já somos, nostálgicos de um passado que ainda outro dia era presente, embora não devêssemos sentir saudade de um mundo cheio de fanatismos, injustiças, ecocídios, desigualdades sociais, polarizações políticas, fora de síncrone com a biosfera e à mercê de líderes políticos tão abjetos quanto incompetentes e mentiras disseminadas eletronicamente por uma rede infinita de delinquentes, ignorantes e boçais. 

Os que até pouco tempo enchiam a boca para exaltar a aurora tecnológica, a democratização da informação e a globalização, agora, embaraçados pelo retumbante fiasco do ultraliberalismo econômico e pela evidência de que apenas o dinheiro, as divisas, não as soluções compartilhadas para superar obstáculos cruciais, afinal se globalizaram, assistem, impotentes e covidiotizados, à mais devastadora ameaça biológica que o planeta enfrentou nos últimos cem anos. 

Devastadora, mas cheia de avisos e lições. Ao mesmo tempo em que paralisou o planeta e freou bruscamente a desatinada pressa em que vivíamos, a pandemia limpou os canais de Veneza, dissipou a nuvem negra que pairava sobre a China, permitiu que um puma passeasse, fagueiro, pelas ruas de Santiago do Chile e um bando de pinguins se urbanizasse numa cidade da Austrália, salientou o escritor mexicano Juan Villoro, numa entrevista esta semana, concedida ainda sob o impacto de um ninho de corujas que ele avistara na varanda de um amigo em Barcelona.

E Villoro nem sabia que o covid-19 pôs à prova e pode ter salvo nosso sistema público de Saúde, condenado à morte pela necropolítica do capitão presidente.

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