Sobre samba e dança

As inúmeras possibilidades do samba, em seus diversos estilos e modalidades, já se evidenciaram também em palcos de grande prestígio. E isso num tempo em que as escolas de samba eram apenas grêmios recreativos comunitários brincando o carnaval. Apreciado por plateias seletas, não só como gênero de canção popular, mas também como espetáculo de canto e dança, o samba ganhou essa força no Rio dos anos 50.

Nei Lopes, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2011 | 00h00

Em palcos como os das boates Night and Day, Casablanca, Monte Carlo, etc., frequentadas pelo "café society", como então se dizia, célebres shows foram montados, tendo o samba como núcleo principal. Banzo-Aiê, Esta Vida É um Carnaval e Satã Comanda o Espetáculo foram alguns deles.

Nessas montagens luxuosas, produzidas principalmente pelo célebre Carlos Machado, constituíam grande atração, ao lado das "cabrochas" ou "pastoras", os solos de dançarinos sambistas do sexo masculino, depois popularizados sob a denominação "passistas". Mas nem sempre foi assim.

O nascimento da figura do passista de samba remonta à década de 40, quando o compositor Herivelto Martins resolveu criar no palco o que chamava de "miniescola de samba", composto por seu coro feminino e um pequeno grupo de percussionistas. Mas a ideia de incluir a dança nos números do conjunto não foi pacificamente aceita: com as mulheres, tudo bem; mas com os homens, ficou difícil.

O caso é que até então o samba dançado em solo, no meio da roda, era coisa de mulher. Como conta Herivelto no livro Dança do Samba, Exercício do Prazer, lançado em 1966 pelo saudoso jornalista José Carlos Rego, a ideia foi muito mal recebida entre seus sambistas. "Claudionor da Portela se aborreceu, parou de bater o pandeiro e se afastou do ensaio - narrava ele -; Bucy Moreira, de muita liderança no grupo, ficou pensativo, mas disse nada; e no terceiro espetáculo, a surpresa: Tibelo, um negro enorme, no meio da apresentação deixou o tambor e arriscou umas invenções com os pés. O público, apanhado de surpresa, primeiro começou a rir, mas aos pouquinhos soltou os aplausos. Incentivado, Tibelo ampliou a variedade de passos e o público veio abaixo."

Tempos depois, três jovens portelenses, entre eles o compositor Candeia, foram convocados por Carlos Machado para o show The Million Dollar Baby, no palco do Night and day. Mas seus passos eram convencionais e comportados. Então, da mesma Portela, veio um sambista tão inventivo que era tido como "maluco": o legendário Tijolo, de nome civil Alexandre de Jesus. E foi a partir do sucesso e da criatividade de Tijolo no palco que a figura do passista foi desestigmatizada, descendo do music hall para a avenida, num inusitado percurso, como também mostra o livro de J.C. Rego.

Mas o que realmente importa dizer é que, no Rio dos anos 50, o mundo das boates grã-finas acolheu a arte e a cultura do samba de maneira ampla. Veja-se por exemplo que, no fabuloso show Banzo-Aiê, Carlos Machado pretendia contar a "história da raça negra"; ele que, antes, em Esta Vida É um Carnaval já tinha colocado no palco um grande contingente de sambistas do Império Serrano.

Não podemos celebrar esse momento como de "inclusão". Mesmo porque nossa primeira lei contra a discriminação racial (chamada "Afonso Arinos" quando deveria se chamar "Abdias Nascimento") mal surgia ali, por conta de uma ofensa sofrida pela coreógrafa afro-americana Katherine Dunham num hotel paulistano.

Como se pode intuir, os negros e o samba estavam no palco, diante do "café society" (expressão da época) apenas para divertir os abastados. Mas estavam presentes, de corpo e alma, cantando e dançando.

Na década seguinte, no curso de um processo, o novo estilo interpretativo surgido do samba, além de negá-lo como sua fonte geradora, abandonou sua complexidade rítmica e sua forma dançante para se mostrar como música "de concerto". A partir daí, o gênero mãe veio perdendo substância. E, apesar da revolução dos "fundos de quintal" nos anos 70-80, hoje, menosprezado e ignorado em suas inúmeras possibilidades (canto, dança, orquestração, execução instrumental etc.), ele só "dança" no mau sentido.

Lamentavelmente.

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