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Sobre quem tem certeza e quem não tem

Se sou heterossexual e você homossexual, cada um busca o prazer dentro do seu desejo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 02h00

Em 7 de outubro de 1571, as forças católicas lideradas por d. João de Áustria derrotaram a frota do Império Turco-Otomano. A vitória foi, dizem, pressentida pelo papa São Pio V em Roma, que teria tido a visão e instituiria a festa de Nossa Senhora da Vitória ou do Rosário para celebrar a data.

A batalha de Lepanto é um enorme “turning-point” da história, daqueles encontros que transformam o mundo após seu desenlace, como o Dia D na Normandia (1944) ou a batalha de Salamina (480 a.C.). A luta final de Ali Pasha contra a abordagem da nau real de d. João, sua defesa da bandeira otomana que acabaria capturada, o esforço dos cristãos em menor número porém com convicção de Cruzada e a vitória da Santa Liga sempre me pareceram bom roteiro para uma representação cinematográfica. No meu roteiro imaginário, o meio-irmão do vitorioso d. João de Áustria, Filipe II, receberia a notícia e ficaria dividido entre a glória espanhola encontrada em Lepanto e o incômodo do brilho do súdito-rival. Ao final, o rei espanhol poderia olhar um mapa e apontar para o reino da ex-cunhada, dizendo: Inglaterra, em breve será sua vez. Haveria também foco no mais famoso ferido da batalha: Miguel de Cervantes, que passou a sonhar com cavaleiros e moinhos. Fim do filme...

Passei uma parte expressiva da minha vida lendo biografias de reis, comandantes, artistas e pessoas notáveis. Gosto de entrar na cabeça das personagens. São Pio V, o da festa do Rosário, era dominicano e foi inquisidor. Considerando seus textos e vida, tenho certeza de que não via apenas a vitória de uma tropa favorável ao seu poder. Sua alegria não era somente por um êxito político-militar, no entanto da Verdade, com letra maiúscula. Ele não pensou “venceu meu projeto”, todavia venceu o bem em si, triunfou a Justiça (também maiúscula). Acho que o papa não tinha dúvida do significado daquela vitória. Nossa Senhora ajudou os navios da Santa Liga porque o céu estava ao lado deles. Mais: o outro, o turco, era o mal, o erro, o fim do mundo. 

Suponho que, quando um político vence hoje, pelo menos a maioria, ele sabe que seus métodos e ambições são muito próximos dos derrotados. Imagino que, sendo inteligente, ele ainda considere que, na maioria dos casos, ele candidato vitorioso, é apenas o mais esperto, não o mocinho que venceu o bandido.

São Pio V e Filipe II tinham certeza absoluta de estarem ao lado do bem. Não trabalhavam com relativismo, ou seja, meu adversário tem partes da verdade, pois ninguém a detém – é a versão totalizadora dela. Essa lógica já existia na filosofia de Montaigne, um homem quase contemporâneo dos convictos príncipes católicos de então. Deveria ser escassa em outras cabeças.

O que é o relativismo? Entre outras coisas, ele é algo positivo: eu estou certo e você também pode estar, porque abrimos mão de um critério acima de todos e consideramos que certa subjetividade é possível. O relativista coloca o sujeito como definidor. Assim, se sou heterossexual e você homossexual, cada um de nós busca o seu prazer dentro do seu desejo. Cada um é senhor do seu destino e deve buscar sua própria felicidade. Deixa de existir um certo e um errado exterior ao sujeito. Eu abro mão de narrativas universais. O relativismo anda de mãos dadas com a tolerância e é uma das bases da modernidade. 

Existem traços de relativismo na pregação de Jesus. Ele introduz critérios novos ao dizer que não é o valor da contribuição, mas que a viúva pobre, ao dar um único e miserável óbolo, é superior ao rico que oferece o que lhe sobra. O mesmo relativismo choca alguns quando Jesus diz que o samaritano, sendo alguém com identidade duvidosa com o Judaísmo, entendeu o reino de Deus melhor do que o piedoso e ortodoxo fariseu. 

O relativismo assusta porque quebra certezas e esgarça fronteiras. Ele é uma das heranças da modernidade em parte vitoriosa no Ocidente. Exemplo: a França interdita véus e a Suíça barra minaretes. Muitas pessoas consideram o gesto intolerante e utilizam argumentos relativistas. O Irã não tem essa dúvida: qualquer mulher que desembarcar em Teerã terá de usar véu, sendo cristã, judia ou ateia. A lógica de lá trabalha com menos relativismo. Em 2016, o presidente iraniano Rouhani teve encontro diplomático em Roma com o primeiro-ministro Renzi. Os anfitriões cobriram a nudez da estátuas clássicas e não serviram vinho no jantar. Foi uma deferência relativista dos italianos. 

Há algo curioso. Um outro italiano, o papa Pio V, mandou tapar a nudez de Michelângelo na Sistina. O pintor Volterra fez panos pudicos sobre Cristo e outros seres celestiais. Talvez o presidente do Irã tivesse mais coisas a discutir com o papa da batalha de Lepanto do que com o contemporâneo Matteo Renzi.

A trajetória usual da tolerância ocidental seria: você não pode beber álcool, então não beba, eu posso e beberei. Você considera o biquíni imoral, logo, não use. Porém, a convivência com a diferença é sempre um desafio. Implica estabilidade psíquica e relativismo antropológico. 

Vivemos um momento no qual o relativismo está sendo atacado também dentro das sociedades ocidentais. São Pio V está ressuscitado. Haverá mais força na convicção absoluta ou na tolerância relativista? Essa pergunta está provocando novas ondas pró-Lepanto. Bom domingo a todos vocês, etnocêntricos e relativistas. 

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