Estadão
Estadão
Imagem Roberto DaMatta
Colunista
Roberto DaMatta
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Sobre presentes e relógios

Há também ocasiões em que presentes são dados sem simpatia

Roberto DaMatta, Impresso

21 Dezembro 2016 | 02h00

É tranquilo falar de regalos e relógios. Relógio, diria um economista, tem propósitos práticos: serve para marcar o tempo. Já os presentes são instrumentos de afeto e gratidão. Encerramos a questão? Dificilmente... Se “tempo é dinheiro”, há momentos em que relógios são evitados. Oscilamos entre situações controladas pelo tempo e situações nas quais o tempo é controlado. Nas festas, os relógios devem ser esquecidos.

O altruísmo – essa marca que desmonta o egoísmo individualista – confunde os fins e os meios. Ele faz o todo ficar mais importante que a parte e revela a relatividade do tempo. Uma hora com a amada passa em segundos e 30 segundos sentado num fogareiro dura uma eternidade! Há tempos sem preço, e tempos que rendem juros e multas.

Há também ocasiões em que presentes são dados sem simpatia. Chefes de Estado trocam presentes protocolares, namorados trocam flores, chefetes de gangues políticas dão, recebem e retribuem joias, relógios, quadros e festins. Tal como os velhos Potlatch das tribos do noroeste americano, as expedições Kula dos melanésios, e o nosso carnaval, os fins não estão em relação e ultrapassam os meios.

Em 1925, um fundador da moderna antropologia, Marcel Mauss, meditou sobre esses assuntos em Ensaio Sobre a Dádiva. Presente, dom, regalo, lembrança, agrado, seriam elementos constitutivos da vida coletiva. Tal como a linguagem que se faz trocando palavras, não há vida social sem trocas. Para Mauss, a troca pressupõe 3 momentos: dar, receber e ‘reciprocar’ – ou seja – dar de volta. Todos esses movimentos são obrigatórios e formam vasta rede que nos acompanha do nascimento até a morte. É uma ofensa e tanto não aceitar quanto dar em demasia. E – como sabem os santos, os deuses e os caudilhos – é uma safadeza não devolver aos doadores as suas dádivas.

*

Não é justamente essa ausência de reciprocidade que estamos testemunhando nessa nossa vergonhosa vidinha pública? Não estamos todos ultrajados por termos dado tanto e recebido tão pouco em troca? Receber irresponsabilidade pelo nosso trabalho não seria uma ofensa que vai além das leis? Não é uma abominação descobrir que nossos impostos foram embolsados e repassados como doações ou presentes não para nós, o povo, mas para uma súcia da empresários?

A perversão da ética do dar-receber-e-retribuir faz desse cronista não apenas mais um idiota enganado, mas o torna, acima de tudo, um cidadão acabrunhado de viver numa sociedade cuja elite tem como objetivo assassinar o cerne da sociabilidade humana. Esse princípio primordial de justiça, que em todo lugar exige dos poderosos e dos ricos um mínimo de reciprocidade para com os doadores.

Impostos e votos são presentes. A crise que vivemos não é um simples fato político, é um execrável incesto. Equivale a lograr a inocência de uma criança. É tão imoral como roubar esmolas de um cego.

*

Antes de Karl Polanyi, Mauss vislumbrou o desafio que uma ética individualista iria erigir às instituições que estudou – trocas institucionalizadas (como as do nosso Natal) e encorpadas em valores que existiam nas chamadas “sociedades primitivas”, mas cujos ecos permanecem em instituições como o juro, a caução, confiança, a previdência social e o cuidado pelo coletivo.

A ausência de reciprocidade leva a desequilíbrios e a uma impensável ameaça: a do esgotamento do planeta pelo seu uso como uma entidade sem alma. Mauss assevera: “A liberalidade é obrigatória, porque Nêmesis (deusa da equidade) vinga pobres e deuses pelo excesso de felicidade e riqueza de alguns homens que devem desfazer-se delas: é a velha moral da dádiva transformada em princípio de justiça; e os deuses e os espíritos consentem que as porções que lhes dão e que são destruídas em sacrifícios inúteis sirvam aos pobres e às crianças”.

*

E o relógio? Eis o que ouvi: Um xamã da tribo dos Other Brecht, conhecidos encenadores de histórias do povo ao contrário, presenteou um chefe cantador com um relógio de luxo. Envergonhado, ele jamais usou a joia. Pelas leis das trocas, porém, ele não poderia devolvê-la ou revelar o motivo da doação. O regalo foi escondido até ser descoberto pela bruxaria do clã republicano. Foi quando ele percebeu que os presentes têm um espírito que liga doadores e recebedores. Seu caro relógio regalo o denunciou. Afinal, todo presente excessivo vira veneno.

Mais conteúdo sobre:
Natal

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.