University of Southern California/Divulgação
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Sobre preciosidades evolutivas

E o 'Cérebro Criou o Homem', de António Damásio, marca reviravolta nas pesquisas sobre o assunto

MARCELO FERNANDES DA COSTA,

26 de novembro de 2011 | 06h00

Ao ler o recente livro de António Damásio, E o Cérebro Criou o Homem, fiquei com a impressão de que ele está chegando cada vez mais próximo de uma encruzilhada que vai marcar uma reviravolta acadêmica no estudo de nossa essência. Propositadamente utilizo a palavra encruzilhada porque a mente e o cérebro foram, durante muitos séculos, considerados independentes. É certo que muito se caminhou no entendimento das atividades da mente e do cérebro, cada um ao seu caminho. Damásio anuncia, algo premonitoriamente, o encontro de duas preciosidades evolutivas: nós - mente, com nós mesmos - e cérebro.

As perguntas que abrem seu livro e dirigem todo o seu desenvolvimento "Do que é feita a consciência? Ela é a mente com algo mais (...) Mas de que é feita a mente? Ela vem do ar ou do corpo?" são provocativas. Como cientista, ele antevê as respostas que nós cientistas e filósofos poderíamos oferecer "Pessoas inteligentes dizem que ela vem do cérebro, que ela está no cérebro (...)". A insatisfação em não se saber como o cérebro faz a mente motiva toda a reflexão unindo psicologia evolucionista, filosofia e neurociências, perfazendo um caminho de evolução dos seres, do sistema nervoso e do pensamento, que somente António Damásio poderia fazer.

Com coragem, ele apresenta a mente como um processo evolutivo que tem início nos mecanismos de regulação da vida, com a busca biológica pelo equilíbrio que garante a vida: a homeostase. Após esta breve introdução inserindo o valor biológico como motivador para o desenvolvimento da mente, e, depois, da consciência, o cientista dedica grande parte de suas discussões ao entendimento do que há de peculiar no cérebro que o torna capaz de criar a mente.

Nesse ponto, fica muito claro que Damásio assume uma posição, frente às ciências da mente, na qual esta mente tem um importante, se não fundamental papel, na nossa homeostase, no nosso equilíbrio vital. Parte da noção de que a geração de mapas e ideias associadas a emoções e sentimentos, com direito a consultas nas memórias, cria o alicerce fisiológico para a mente e aponta, como fruto dessa complexa e intrigante rede fisiológica cerebral, a mente.

Como se não bastasse fornecer elementos para desvendar uma das mais intrigantes questões que transitam entre filosofia, psicologia e neurociências, ele avança mostrando que a consciência é o elemento de fundamental importância desta mente e que dela parte o que denominou de self: a consciência sobre o "próprio organismo que habita".

Como último passo desta jornada sobre o cérebro e seu produto mais sublime, o cientista aponta o self autobiográfico como uma integração entre a consciência sobre si com base em nossa história memorizada. Esta instância de nossa mente consciente evoca registros passados e recebe um "verdadeiro dilúvio de memórias impregnadas com as emoções e os sentimentos que as acompanharam originalmente". Neste processo de recuperação autobiográfica não só recompõe a nossa história e tudo o que vivemos como também projeta uma antevisão do futuro. Impressiona o número de estruturas cerebrais que, de acordo com Damásio, estariam envolvidas nessas construções mentais.

Ele finaliza o livro realizando uma espécie de projeção, em que retoma o conceito de homeostase e o amplia, incluindo principalmente nossos comportamentos sociais - moralidade, sistemas de justiça, economia, política, a ciência e a tecnologia. Magistralmente, oferece ao leitor uma história evolutiva dos processos mentais culminando no ser capaz de reflexão, que somos. Esta capacidade de refletir é uma das mais poderosas habilidades homeostáticas de nossa espécie, permitindo a cada um de nós "oscilar entre os ontens que ficaram para trás e os amanhãs que não passam de possibilidades".

Vejo neste livro uma grande oportunidade de revisão conceitual. Unir os conceitos de mente, estudados pela filosofia, com os avanços científicos obtidos pela psicologia evolucionista e mais recentemente pelas neurociências, é uma atitude de vanguarda e que rompe barreiras acadêmicas e ideológicas que só alguns são capazes de alcançar.

Marcelo Fernandes da Costa é professor doutor do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da Usp e coordenador de pós-graduação em Neurociência e Comportamento daquela mesma instituição de ensino

E O CÉREBRO CRIOU O HOMEM

Autor: António R. Damásio

Tradução: Laura Teixeira Motta

Editora: Companhia das Letras (440 págs., R$ 49)

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