Sobre poesia e barbárie

Dirigida por José Wilker, Palácio do Fim, de Judith Thompson, investiga ecos do conflito no Iraque

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2012 | 03h09

O 11 de Setembro não mudou apenas os rumos da política internacional. Também a arte não é mais a mesma desde que a imagem de dois aviões se chocando contra as Torres Gêmeas correu o mundo.

A literatura fez do fato - e de seus desdobramentos - inspiração para grandes obras, como é o caso de Sábado, de Ian McEwan. Canções trataram do assunto. Cineastas se apropriaram do choque. Filmes como Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, são exemplo eloquente. Até mesmo em seriados televisivos, a nova ordem mundial impulsionou a criação de tramas e conflitos.

Nesse contexto, a estreia de Palácio do Fim, que abre temporada paulistana na sexta, não surge como voz dissonante. Vem engrossar o coro de uma série de manifestações. O que não lhe tira, cabe ressaltar, seu quinhão de singularidade.

Dirigida por José Wilker, a peça examina os horrores da Guerra do Iraque. Para construir o texto, a dramaturga canadense Judith Thompson valeu-se de reportagens e casos amplamente divulgados pela imprensa.

Não faz ficção, no sentido estrito do termo. Mas está longe de incorrer no documentário. "O que me encantou não foi propriamente o fato de se denunciar uma guerra injusta", aponta Wilker, que assistiu a uma montagem do texto em Nova York, em 2008. "Mas o modo como a autora contava aquela história. Como ela conseguia arrancar poesia, uma brutal ternura daquele assunto."

Três personagens são convocados à cena. Defendem pontos de vista absolutamente distintos sobre o conflito. A atriz Camila Morgado abre a encenação. Toma o papel de Lynndie England, a soldado norte-americana que chocou a opinião pública ao posar para fotos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque.

Rememoram-se as cenas de tortura nas quais Lynndie tomou parte: seus sinais afirmativos diante de prisioneiros nus e humilhados. Impressiona, sobretudo, o discurso sobre a banalidade do mal que Thompson consegue erigir. A crueldade e a barbárie nem sempre têm as explicações racionais que gostaríamos que tivessem. Nascem de simples lapsos, de falhas. "Como alguém faz o que ela fez? Eu me fiz várias vezes essa pergunta. O mais difícil foi conseguir não julgá-la", diz Camila.

Apesar do vínculo estreito com episódios reais, Wilker encontra ecos da peça no Brasil. "Pode parecer um exagero, mas não é. Ainda que uma primeira leitura fale só de algo distante de nós, a peça refere-se ao animal que habita dentro da gente e que, de vez em quando, surge sem controle."

Antônio Petrin também interpreta um personagem que o público conhece dos noticiários. Até hoje, controvérsias cercam a morte do cientista britânico David Kelly. Foi mesmo suicídio? Ou o assassinato de quem sabia demais? Ex-inspetor de armas da ONU, Kelly revelou ao mundo a grande farsa que serviu de subsídio à invasão do Iraque.

Fecha o painel a saga de Nehrjas Al Saffarh. A partir do relato de um amigo, a dramaturga delineou o percurso da ativista do Partido Comunista, vivida por Vera Holtz, que foi torturada pela polícia secreta de Saddam Hussein.

Por sua interpretação, Vera foi indicada para o Prêmio Shell de melhor atriz no Rio de Janeiro. O espetáculo, aliás, lidera as indicações na premiação. Concorre também nas categorias direção, figurino e iluminação.

A luz, assinada por Maneco Quinderé, é um dos elementos utilizados pelo diretor para imprimir certa cor cinematográfica à sua versão. "O refletor assume o lugar de uma câmera", observa Wilker. "O texto oferece essas possibilidades de aproximação com o cinema. Era possível trabalhá-lo como plano sequência. Mas também editá-lo."

Palácio do Fim já foi vista no Canadá, nos Estados Unidos e na Inglaterra. Em todas essas montagens, foi encenada tal qual como concebida pela autora: três monólogos estanques, que se sucedem. Na versão brasileira, Wilker "edita" o tríptico de maneira diferente: intercala trechos dos depoimentos de cada um dos personagens. "É ainda um jeito de aguçar a curiosidade do público", diz Antônio Petrin.

O texto de Judith Thompson assombra pela justaposição entre as barbaridades do regime de Saddam e a estupidez da guerra perpetrada pelos americanos. Todos nós já conhecíamos essa história. Mas seus personagens parecem revelá-la de forma insuspeita. E a fazem doer com outra intensidade.

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