Sobre os impasses da modernidade

Vanguardas em Retrocesso, de Sergio Miceli, compara experiências experimentais do Brasil e da Argentina

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2012 | 02h06

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

A obra de Sergio Miceli representa o mais sério esforço crítico de reconstrução do processo social que favoreceu a eclosão do modernismo brasileiro. Ao mesmo tempo, o pesquisador tem procurado compreender as circunstâncias históricas que posteriormente estimularam a canonização do movimento, iniciada com a cooptação realizada no período varguista. A perspectiva de Miceli sobre o modernismo é o modelo mais completo de uma abordagem propriamente modernista.

As celebrações reiteradas do modernismo produziram uma abordagem paradoxalmente tradicional, em tudo oposta aos ideais de transgressão típicos de toda vanguarda. Nesse sentido, o título do livro, Vanguardas em Retrocesso, não deixa de alvejar a hagiografia que cerca o modernismo.

Em lugar de considerar as obras das vanguardas como conquistas autônomas de artistas exclusivamente dedicados aos meandros da fatura estética, Miceli busca "conectar as histórias de vida dos escritores aos seus feitos". Método apresentado nos inovadores Poder, Sexo e Letras na República Velha (1977) e Intelectuais e Classes Dirigentes no Brasil (1979), assim como ampliado em Imagens Negociadas (1996) e Nacional Estrangeiro (2003).

Nos dois últimos títulos, Miceli renovou o horizonte de suas preocupações, incorporando o modernismo pictórico. De um lado, ele examinou os retratos da elite produzidos por Candido Portinari. De outro, estudou a pintura modernista em consórcio com estruturas de mecenato que apoiaram a ruptura estética. A contradição salta aos olhos, constituindo o núcleo do novo livro.

Vanguardas em Retrocesso, assim, leva adiante o projeto dessacralizador, adicionando um elemento comparativo. Trata-se de colocar em paralelo as experiências argentina e brasileira, mediante uma série de estudos de caso, destacando-se a análise das trajetórias de Jorge Luis Borges e de Mário de Andrade. Numa síntese do projeto, Miceli afirma: "Os experimentos vanguardistas nesses países devem ser apreendidos pela conjunção de fatores estruturais modeladores da atividade intelectual: as condições de exercício do mecenato, a morfologia social dos integrantes desses movimentos e as ligações dos escritores com mentores, modelos e paradigmas vigentes nas metrópoles europeias".

O livro também colige ensaios sobre Ricardo Güiraldes e Tarsila do Amaral; Lasar Segall e Xul Solar; e ainda analisa a institucionalização dos estudos sociológicos mediante o estudo dos percursos de Florestan Fernandes e Gino Germani. O escopo comparativo estimula intuições inovadoras, renovando a inteligência dos impasses e das conquistas das vanguardas nos dois países.

As conquistas são sempre celebradas; Miceli prefere explicitar os impasses, que favorecem a noção de vanguardas em retrocesso: "Os escritores de vanguarda se empenharam em apreender e internalizar as diretrizes nascentes da estética moderna (...) em dosagem temperada pela voltagem de risco e ousadia que julgavam ajustada aos padrões de gosto ecléticos e convencionais da elite local".

Destaque-se, pois, a importância do livro e a fecundidade do método proposto. Nesse sentido, a crítica que apresento pretende colaborar para futuras pesquisas.

Há uma desproporção considerável entre o rigor e o brilho com que se reconstroem os inúmeros constrangimentos à autonomização dos campos literário e artístico no Brasil e na Argentina e o resultado concreto das análises. É preciso encontrar mediações para o complexo trânsito do nível geral das estruturas sociais ao domínio particular da obra. Daí, surgem aqui e ali asserções surpreendentes: citem-se dois exemplos.

O autorretrato de Mário de Andrade revelaria um escritor "cioso das privações que separam o mulato feioso (grifos meus) das prerrogativas recém-conquistadas pelo imigrante branco e louro de seus versos (...)".

A trajetória de Florestan Fernandes é sintetizada através de uma relação mecânica de causa e efeito: "Não fosse (...) um rapaz de condição humilde, destituído de relações sociais, portanto, muito mais dependente do treinamento incutido no ambiente universitário, com certeza ele não teria se sujeitado, de maneira tão flexível, a uma estrita bainha acadêmica (...)".

"Com certeza"? Por quê? O leitor não encontra no ensaio um raciocínio convincente que sustente a alegação e, por isso, se sente decepcionado. Afinal, a notável reconstrução de um amplo panorama histórico e comparativo mereceria uma análise pontual igualmente aguda.

O estudo leva em conta que as conquistas são sempre celebradas; daí o foco de atenção do autor - distante da hagiografia

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