Clayton de Souza/AE
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Sobre o tempo

Arnaldo Antunes une gerações no palco e na plateia do DVD Ao Vivo Lá em Casa, com espetáculo de lançamento no domingo

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2010 | 00h00

Há tempos Arnaldo Antunes vem acalentando a ideia de fazer um show em casa para convidados. Em agosto, juntou a antiga vontade com a comemoração de seus 50 anos, montou um palco no terraço em cima de seu escritório, na ala do quintal, e registrou o show da bem-sucedida turnê de Iê Iê Iê, um dos melhores álbuns de 2009. O DVD, com direção de Andrucha Waddington, foi filmado em HD, teve patrocínio do projeto Natura Musical, e tem show de lançamento domingo no Citibank Hall.

A festa reuniu gente de diversas gerações, bem como canções que versam sobre a questão do tempo, como Envelhecer, Sou Uma Criança, Não Entendo Nada (de Erasmo Carlos, que cantou com o anfitrião), Já Fui Uma Brasa (samba de Adoniran Barbosa e Marcos César que abre o show numa roda de fundo de quintal com os Demônios da Garoa) e As Melhores Coisas, tema do filme As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, sobre adolescentes. Além de Erasmo, Jorge Ben Jor e Fernando Catatau participaram do show como convidados. Com exceção de seu contemporâneo Edgard Scandurra, a banda que acompanha Arnaldo é de músicos mais jovens (Marcelo Jeneci, Betão Aguiar, Curumin, Chico Salem). "Esse convívio entre pessoas mais velhas e mais novas tem uma riqueza bacana. Tem a ver com o fato de ser uma festa de 50 anos. É uma reflexão sobre a passagem do tempo."

Futuro. Ao cantar Envelhecer, ele a dedica a si mesmo, a propósito do aniversário, e a todos "que enfrentam e afrontam o medo de envelhecer". "Várias coisas que falo na música a gente já sente: os filhos crescendo, o cabelo caindo, amigos que morrem. Agora a música eu fiz não impulsionado pelo fato de estar vivendo uma situação de velhice, mas muito pelo desejo de enfrentar o temor da proximidade do que vai vir ainda. É uma projeção futura. Há certa curiosidade para o que será isso e certo temor. A música é feita para responder a esse temor com uma forma de enfrentamento e o desejo de manter certa inquietude. Quero coisas que me façam levantar do sofá, que mantenham a vitalidade dentro dessa perspectiva de confrontamento."

Amigos, família, artistas e outras pessoas ligadas à música - como Wanderléa, BNegão, Ortinho, Péricles Cavalcanti, o estilista Marcelo Sommer (que fez o cenário com as camisetas), Marina Lima, Paulinho Boca de Cantor, Arto Lindsay, Beto Villares - lotaram a casa na Vila Madalena para a gravação do DVD, que mistura o show com cenas da festa de 50 anos de Arnaldo. "É como se fosse a Festa de Arromba lá na jovem guarda", brinca Arnaldo. "A graça do DVD é justamente não mostrar só o show, mas as pessoas na festa."

Ele deu uma arrumada na casa e mexeu com a rotina da família e do bairro. "Nos cinco dias que antecederam a gravação, eles saíram da casa, tomada por uma equipe de 30 pessoas montando grua, estruturas, cenário. Parte do telhado foi retirada para a construção de uma passarela para a passagem da câmera, os quartos viraram cabines de vídeo e som. Os vizinhos foram avisados, os mais próximos, convidados para a festa, gerador de energia e caminhão de equipamentos ficaram estacionados na rua. O som deu pra ouvir a três quadras dali. Enfim, "a vizinhança inteira ficou sabendo".

Arnaldo sempre gostou da "coisa híbrida", desde o início da carreira, já nos primórdios dos Titãs. Então, não surpreende que hoje junte o samba de Adoniran com o samba-rock de Jorge Ben Jor (que canta suas parcerias com ele As Árvores e Cabelo), um rock novo de Erasmo (Jogo Sujo) e outro antigo de Luiz Melodia (Pra Aquietar), uma canção romântica de Odair José (Quando Você Decidir), outra de Frank Carlos (Americana, originalmente um forró) e o sambão carnavalesco Vou Festejar (Jorge Aragão, Noeci Dias e Dida), um dos achados do repertório, transformado em rock. "Desde os Titãs já tinha esse barato de curtir as coisas de ponta, o que era considerado alta sofisticação e o considerado lixo. E achar afinidades entre essas pontas." Sem saudosismo, ele criou novos hits no estilo iê-iê-iê - A Casa É Sua, Invejoso (com participação do guitarrista Fernando Catatau no DVD), Envelhecer, as baladas Meu Coração e Longe - e trouxe canções de álbuns anteriores, como Cabelo, Consumado e Essa Mulher para esse formato.

Ele se vê de novo no centro de uma efervescência musical em São Paulo, como nos anos 80, quando começou. "Há uma cena favorável, artistas e lugares onde as pessoas podem tocar e muito intercâmbio, as pessoas compõem juntas, participam uma do disco e do show da outra, como Tulipa, Tatá Aeroplano, eu participei do disco do Ortinho, do próximo do Romulo Fróes, tenho parcerias com Marcelo Jeneci. O fato de Cidadão Instigado (Ceará), Nação Zumbi (Pernambuco) e Lucas Santtana (Bahia) terem vindo morar em São Paulo já contaminou de possibilidades de parcerias, de participações. E há também um intercâmbio legal de pessoas do Rio, como Kassin, Domênico, Moreno Veloso, Jonas Sá, Davi Moraes. São artistas com quem também trabalho. É uma rede de gente muito talentosa."

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