Sobre o sujeito pós-freudiano

Insconsciente e Responsabilidade, de Jorge Forbes, discute o lugar da psicanálise no século 21

LEDA TENÓRIO DA MOTTA, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2012 | 03h09

Para além de todo e qualquer domínio teórico, alguns requisitos prévios parecem impor-se a quem queira manejar o texto suntuoso de Jacques Lacan. Eles são mais da ordem do dom. Facilidade tal com a língua francesa que permita reencontrar o significado numa sintaxe tão mais torturante quanto mallarmeana. Senso de humor suficiente para levar a sério a função da blague nesta reformulação da ciência do inconsciente que, sem prejuízo da contradição que nos funda, deslocou Édipo Rei de Sófocles para Ubu Rei de Alfred Jarry, aliás, salvando da censura uma obra ilhada de Freud, Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente. Sangue frio para não ceder aos golpes de estilo do mestre e pôr-se a mimetizá-lo, obscurecendo o obscuro e traindo a própria cláusula lacaniana do estilo como remédio contra a linguagem que nos fala, já que o lacanês é a ausência do autor.

Se tudo isso estiver certo, Inconsciente e Responsabilidade - Uma Psicanálise para o Século XXI, de Jorge Forbes, tem chances de ser o balanço de Lacan e a interrogação de seus préstimos a 100 anos de distância de Freud que pretende ser.

Aqui, à verve se responde com a verve, numa contra-assinatura autoral digna da tarefa pretendida. E a melhor prova disso é certa nomenclatura principal do livro - o homem "desbussolado", o mundo "desbussolado" - tirada diretamente do francês coloquial "déboussolé", sem nenhuma contemplação vernacular -, com que se recobre a condição do sujeito pós-freudiano, situado fora dos grandes valores verticais da autoridade, num mundo de relações horizontalizadas. Refere-se a essa situação não mais "pai-orientada" todo o esforço do autor no sentido de repensar o papel tanto dos que se arvoram em exercer a velha arte da cura pela palavra quanto dos que pela palavra buscam se libertar.

Mas tampouco é estranha à liberdade de movimento de Forbes a palavra "responsabilidade", menos enfatuada que "ética" e "moral", que se costuma acionar em incursões deste tipo, menos culpabilizante e melhor administradora da angústia que toda chamada à moralidade desencadeia em quem é chamado. Como se pode depreender deste apanhado da ideia principal - "O título Inconsciente e Responsabilidade junta duas palavras que habitualmente não se frequentam, a ponto de ser comum ouvirmos, frente a um questionamento, uma pessoa se defender dizendo: 'Ah, só se foi o meu inconsciente', como se o inconsciente não fosse de sua responsabilidade." Fiel ao último e mais inquietante Lacan, o da denominada "segunda clínica", em que recuam os valores do Pai, tal aceitação da imputação de responsabilidade diz respeito a um novo sujeito histórico, cujo sintoma já não se resolve por levantamento do recalque, o que é da ordem da decifração do complexo. Antes, para além desta interposição, por uma espécie de auto-organização, que consiste não em decifrar e sim em cifrar. Nesta outra circunstância, o sujeito diz seu caos, como um poeta de si mesmo. Sem emprestar-lhe nenhuma acepção prazerosa tola, esse dizer desamparado e impositivo é o que Lacan chamou o "gozo".

Todas as demais marcas do diferencial que Forbes inscreve na cultura dos curadores que nos cercam vem daí.

Seja seu anticatastrofismo, que, indisposto contra o lugar-comum da visão do "pandemônio", troca a recusa do presente pela suposição de que as pessoas não estão assim tão desorientadas como querem fazer crer as novas religiões, os recrudescimentos do conservadorismo e as psiquiatrias medicamentosas. O que pode ser constatado, por exemplo, junto àqueles jovens que, em vez de querer pôr fogo na escola, escolhem exprimir-se através da música eletrônica, ou dos esportes radicais, o que é passar da dimensão da briga com o controle à dimensão do autocontrole.

Seja seu entendimento não piedoso de nossas relações com nossos semelhantes, que, brigando com as psicanálises que cruzam Marx e Freud, fixa-se nos embates do sujeito consigo mesmo, antes que com o objeto. Furta-se, enfim, aos discursos sobre a modernidade injusta que nos possibilitou aceder ao desejo e, bem por isso, não nos deixa sair de nós. Pois para Forbes como para Lacan, não se trata de sairmos de nós, mas de entrarmos em nós. Não porque sejam antiéticos ou cínicos e sim porque, em psicanálise, o outro é sempre fantasmático, isto é, inacessível, enquanto os outros - que Lacan chamou o Grande Outro - são a voz do senso comum, que é o contrário da libertação.

Voltando a Jarry, vale lembrar quanto a psicanálise made in France, que se verte em discurso ubuesco, é insuflada pelas vanguardas da primeira metade do século 20, a cujos muitos redutos - surrealismo e diásporas surrealistas, colégio de sociologia e patafísica - Lacan pertenceu. E é bom ressaltar que é desse mesmo espírito dissidente que Forbes participa, quando reencaminha o gozo da palavra cravada como saída para nós sujeitos atuais, na contramão da vigilância do Grande Pai ideológico que, por aqui, segue reputando imorais os excessos do sujeito e da palavra.  LEDA TENÓRIO DA MOTTA É PROFESSORA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO, SEMIÓTICA DA PUC-SP. PUBLICOU,  ENTRE OUTROS LIVROS,  PROUST - A VIOLÊNCIA SUTIL DO RISO (PERSPECTIVA), ROLAND BARTHES - UMA , BIOGRAFIA INTELECTUAL (ILUMINURAS)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.