Sobre o mal que a odos persegue

Com Sob o Sol de Satã, tem início um projeto de publicação no Brasil dos escritos essenciais do francês Georges Bernanos - que viveu no País -,[br]autor de uma obra polêmica, amarga e definitiva

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Ausente das livrarias brasileiras há alguns anos, a obra do escritor francês Georges Bernanos (1888- 1948) volta ao mercado numa iniciativa da Editora É, que vai lançar sete livros do jornalista e ensaísta católico, lembrado também em palestra e debate realizados esta semana com apoio do Estado. Polêmico, o escritor, que morou no Brasil por sete anos (de 1938 a 1945), permanece incômodo, como prova seu primeiro romance Sob o Sol de Satã, originalmente publicado em 1926 e que inicia a Coleção Bernanos da Editora É. A meta da casa editorial é o lançamento da obra completa de autores fundamentais, como o filósofo e historiador francês René Girard, que terá 55 livros publicados, e o dramaturgo romeno Matei Visniec. Dele, que é considerado o sucessor de Ionesco, foram comprados os direitos de 17 peças.

De Bernanos serão lançados títulos essenciais como Le Journal d"Un Curé de Campagne (Diário de um Pároco de Aldeia, 1936) e Nouvelle Histoire de Mouchette (Nova História de Mouchette,1937), ambos transpostos para o cinema pelo diretor Robert Bresson (1901-1999). Foi com o primeiro - a história de um jovem padre doente, alcoólatra e ignorado por seus paroquianos - que ele ganhou, em 1936, o grande prêmio da Academia Francesa, e Bresson, em 1951, o Leão de Ouro do Festival de Veneza. Além desses, a editora publicará a primeira tradução brasileira de Les Grandes Cimetières Sous la Lune (Os Grandes Cemitérios Sob a Lua, 1938), Jeanne Relapse et Sainte (Joana Relapsa e Santa, 1934), Monsieur Ouine (Senhor Ouine, 1946) e Un Mauvais Rêve (Um Sonho Ruim, 1950).

Em todos os livros prevalece a máxima jansenista de que a graça sopra onde quer. Em que momento uma "irrisória força" torna obscura a mais clara das almas?, pergunta Bernanos em Sob o Sol de Satã, livro sobre um jovem padre que se crê sem vocação mas acaba reverenciado como um santo por seus fiéis, após ser seduzido pelo demônio numa estrada rural e conduzir a adolescente Mouchette ao suicídio. O demônio, conclui Bernanos, não é senão a imagem deformada dos pobres diabos de "mãos pérfidas" e "ouvidos vazios"que se arrastam e blasfemam pelo planeta. Satã, segundo o autor, não se encontra na "carne irrigada de lubricidade insaciável", mas na oração do homem só, em seus jejuns e penitências, o que explica a constante mortificação de padre Donissan, o pároco de aldeia de Sob o Sol de Satã, um simplório sem muita instrução, vindo do mundo camponês para ser orientado por um superior burguês, Menou-Segrais.

A despeito dos esforços do último para alimentar a autoconfiança de Donissan, o confronto com Satã não dá trégua ao pároco, que, após a tentativa de ressuscitar uma criança, se esgota e é encontrado morto por Menou-Segrais no confessionário. Bernanos atribui a Satã um poder assombroso, muito além do que outros escritores católicos franceses ousaram - até mesmo porque sua independência ideológica nunca permitiu que andasse em bando. Para ele, o mal domina o mundo. A função de sua literatura é ser mesmo edificante - Bernanos estudou em colégio jesuíta e quase foi padre -, mas não escapista. Nesse romance, ao narrar o encontro sensual entre Donissan e Satã no atalho de uma estrada vicinal, Bernanos faz o demônio roubar o fôlego do vigário com um beijo tão violento que, segundo o próprio, sela um compromisso para contaminar o tabernáculo de Cristo.

Donissan renasceria como o padre tímido e alcoólatra de Diário de Um Pároco de Aldeia dez anos depois. Ele morre de desespero e tuberculose, após castigar seu corpo comendo apenas pão e tomando vinho. A mística da graça é identificada com a agonia do cura de Ambricourt, consumido também por um câncer no estômago - e o sacramento da sagrada eucaristia pela carne e o sangue de Cristo é simbolicamente representado pela dieta alimentar do padre que, diferentemente do vigário de Sob o Sol de Satã, aceita humildemente sua fraqueza diante de paroquianos que o desprezam.

Os personagens de Bernanos migram de um livro a outro como se, de alguma forma, o escritor tentasse reconstruir suas criaturas dotando-as de outros atributos. A Mouchette que mata o amante, seduz um médico para fazer aborto e é levada ao suicídio no prólogo de Sob o Sol de Satã, reaparece de outra forma em Nouvelle Histoire de Mouchette, embora o tema seja invariável: o destino inelutável de uma adolescente miserável conduzida à perdição num mundo dominado pelo Mal. O silêncio de Deus se faz aqui ainda mais misterioso. Mouchette vive com o pai alcoólatra, a mãe doente e um bebê. É desprezada na escola, assediada por garotos na rua, violentada por adultos. O que lhe resta? Encarnar a voz de Deus e romper seu silêncio. Mouchette, no entanto, é marcada pela fatalidade. Não tem consciência de sua marginalidade, do mal que a persegue.

Bernanos, como intelectual, tinha, ao contrário, perfeita noção do que significava sua escritura num mundo laico. Encarou-a como um ato missionário para defender não só os valores cristãos como os da antiga França monarquista. Chegou a ser preso por sua ligação com o movimento direitista Action Française, que depois repudiou, abjurando sua ideologia. Se, equivocado, apoiou o governo de Franco no começo, depois se tornou um dos mais combativos opositores do nazi-fascismo, escrevendo Os Grandes Cemitérios Sob a Lua, que denuncia os massacres promovidos pelos franquistas - testemunhados enquanto vivia em Mallorca. Cansado de imbecis nacionalistas que se entregam a uma guerra fratricida e idólatras fascistas, Bernanos apela à honra - palavra em desuso nos tempos de Franco e Hitler. O escritor argelino Albert Camus ficou emocionado ao ler o texto, defendendo Bernanos de seus opositores de direita e esquerda.

Foi desiludido que Bernanos chegou à América do Sul, estabelecendo-se em Barbacena, Minas, em 1938. Aqui continuou colaborando com jornais e escreveu pelo menos um livro fundamental entre os que serão publicados pela Editora É em 2011: Monsieur Ouine. O protagonista é um professor aposentado que mora na França e cujo nome traz tragicamente amalgamadas as palavras oui e non (sim e não), numa espécie de comentário irônico do autor sobre a simetria entre a afirmação e a negação, o bem e o mal, dividindo o mesmo terreno - e as mesmas almas. Em Monsieur Ouine, os personagens são levados a uma certa afasia demoníaca. Um deles, o órfão Phillipe, é informado que seu pai não morreu na 1.ª Guerra - esperança logo abafada, pois o garoto, após dormir na cama do professor, aparece boiando num riacho próximo ao castelo onde se abrigou.

A fatalidade persegue as criaturas de Bernanos: 12 personagens criados por ele se matam e há um número quase igual de assassinatos em sua obra. O mal está incorporado às almas danadas de tal maneira que nem mesmo os padres conseguem extirpá-lo. É dessa impotência que trata sua literatura. Não é sem razão que a obra desse cristão provoca até hoje certo desconforto. Para ele, vivemos mesmo sob o sol de Satã.

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