Sobre o isolamento e a perplexidade

LUIS S. KRAUSZ

LUIS S. KRAUSZ É ESCRITOR, PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA, JUDAICA NA USP , O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2011 | 03h08

Em O Monte do Mau Conselho; O Senhor Levi e Saudades, três novelas de 1974 e 1975, agora lançadas num só volume em tradução brasileira, Amós Oz aborda, pela primeira vez, temas que o ocuparão por muitas décadas e que ganharam sua mais bem-sucedida elaboração em De Amor e Trevas, autobiografia lançada em 2002. As novelas, ambientadas no subúrbio hierosolimita de Tel Azra, têm como personagens meninos que, como Oz, são filhos únicos de casamentos disfuncionais, e que passam suas infâncias na Palestina Britânica, nos traumáticos anos que separam o término na 2.ª Guerra Mundial da criação do Estado de Israel, em 1948.

Sob uma ótica ficcional, e por meio de máscaras que leitores da autobiografia facilmente decifrarão, Oz retrata o desconsolo e o desespero de sua mãe, nascida de uma família da burguesia judaica da Europa Central, incapaz de aceitar as agruras impostas por tempos de guerra e de carestia; o idealismo ingênuo de seu pai; a efervescência ideológica em torno dos movimentos de luta armada; as tensas relações entre os representantes do establishment judaico nascente e as forças do colonialismo britânico e, sobretudo, as expectativas contraditórias de sionistas agnósticos, de religiosos tradicionalistas que veem a chegada iminente do Messias, de árabes descontentes com a presença judaica, de representantes de diferentes ramos do cristianismo, de sobreviventes do genocídio na Europa - enfim, uma Babel de línguas, crenças e religiões que se torna ainda mais irônica quando se pensa na raiz hebraica do nome da cidade de Jerusalém, que significa "cidade da paz".

As visões redencionistas de imigrantes que partiram de uma Europa hostil aos judeus, e que imaginavam para si mesmos uma vida espiritualmente mais elevada na terra de Israel, retomam ideias dos profetas bíblicos, mas num registro impregnado pelo imaginário romântico, que forjou uma visão idílica da vida na Terra Prometida.

É o que acontece com o Dr. Hans Kipnis, pai do protagonista de O Monte do Mau Conselho. Kipnis é um judeu alemão que sonha tornar-se pastor nos montes da Galileia, e que transfere para a conturbada Palestina britânica idealizações advindas de Goethe e Schiller. Que ele termine abandonado pela esposa, separado do filho, como pequeno funcionário do serviço estatal de vigilância sanitária, numa cidade povoada de contradições, melancolia e espanto, é apenas um dos múltiplos choques de realidade em torno dos quais se constroem as narrativas incluídas neste volume.

Oz retrata, igualmente, a ambivalência de imigrantes que se refugiaram das perseguições na Europa, mas que continuam a amar, de maneira secreta e envergonhada, a cultura, a paisagem e os sabores de seus países de origem, bem como os conflitos e ressentimentos que envenenam as relações entre judeus de origens diversas - como os do Leste da Europa, com seus afetos sempre à flor da pele, os ocidentalizados, com seu racionalismo exacerbado, e os orientais, cuja religiosidade desarraigada desemboca na marginalização.

A fragilidade do embrião do Estado Judeu, isolado e fraturado por uma infinidade de contradições internas, e permanentemente sitiado por uma natureza hostil - há descrições líricas recorrentes dos chacais e das hienas, dos ventos quentes do deserto, dos pântanos infestados de doenças tropicais - soma-se aos traumas trazidos da Europa antes e depois do genocídio. Como contrapartida, há o grande projeto de redenção nacional, concebido pelo socialismo sionista e pelo movimento kibutziano, hegemônico nas primeiras décadas de existência do Estado. E em nome deste projeto, todos os sacrifícios parecem justificar-se - até mesmo o da felicidade individual.

Outro tema frequente nas narrativas é a emergência de uma sexualidade destrutiva, que desfigura a ideologia e a cultura e funciona como válvula de escape para um labirinto de tensões. Assim, se em O Monte do Mau Conselho o protagonista adolescente se deixa envolver pela solteirona pianista Madame Iabrova e por sua sobrinha, a violoncelista Liubov, Efraim, o militante do movimento clandestino de luta armada pela independência de O Senhor Levi entrega-se à sensualidade transbordante das moças que vêm ter com ele nas horas quentes do dia.

À maneira de A Caixa Preta, romance epistolar de 1986, a narrativa de Saudades é constituída da correspondência entre o Dr. Nussbaum, cujo pensamento é moldado pelo humanismo europeu, e Mina, sua ex-amante. O tema, aqui, são os sentimentos borbulhantes, a necessidade de impor algum tipo de controle a emoções explosivas, o desejo de árabes e de judeus por Jerusalém e a resignação ante o inevitável.

As forças centrípetas que dilaceram uma sociedade nascente, e cuja presença o sensível Oz captava à sua volta, em sua infância, são as mesmas que, hoje, põem em xeque a sociedade israelense, depois do fim da era das ideologias. Em meio a um mundo marcado pelas pulsões e pelos fanatismos estão, também, a impassível vida religiosa e os monumentos religiosos que constituem, desde sempre, a essência de Jerusalém. Mas que permanecem apenas como um pano de fundo lírico, e talvez obsoleto, para a perplexidade e o isolamento. Como declarou Oz ao jornal nova-iorquino Forward de 3 de novembro, "Israel é hoje um país menos confiante do que era há 10, 20, 30 anos. Se os israelenses costumavam ver a si mesmos como um milagre, hoje eles só se veem como parte de uma nação em dificuldades. O isolamento está cobrando um preço pesado à psique israelense".

O MONTE DO MAU

CONSELHO

Autor: Amós Oz

Tradução: Paulo Geiger

Editora: Companhia

das Letras

(280 págs., R$ 43)

Um tema frequente é

a emergência de uma sexualidade destrutiva, que desfigura a ideologia e a própria cultura

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