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Sobre máscaras

No Brasil, vivemos um caso doentio de descaramento agressivo de um cargo que é um poder republicano

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2020 | 03h00

Alguns amigos assinalam que a aproximação que fiz da máscara contra a covid-19 com a do carnaval foi excessiva, por um motivo simples: a do carnaval – tirando as que cobrem todo o rosto – liberta a boca e esconde a face, ao passo que a da pandemia faz o oposto: ela esconde justamente o nariz, a boca e os lábios, que são fundamentais nos encontros motivados pela sensualidade da festa de Momo e dos bailes de máscara em geral.

De fato, na criação de uma crônica que deseja compartilhar experiências inseparáveis das minhas atividades como um velho sociólogo comparativo – cuja vida profissional, inaugurada no século passado, começou pesquisando o estilo de vida de ameríndios recém-contatados e de americanos –, corre-se sempre o risco do exagero. Aliás, Max Weber, tão muito citado quanto pouco lido, dizia que “fazer sociologia é exagerar” e eu, na minha modéstia niteroiense, acrescento que toda escrita, inclusive a jornalística, depende de uma infusão de alma. De um propósito sem o qual ficamos apenas com o catálogo, com a multidão de palavras do dicionário, mas sem nenhuma história ou narrativa.

Na minha longa vida, tenho experimentado muitas máscaras, inclusive as de conflito – as famosas “máscaras contra gases” – quando servi no Exército. Em todos os casos, porém, a máscara me dividia em duas pessoas: a que estava oculta pela cobertura parcial ou total do meu rosto e era apresentada, e o meu ser interior, feliz por estar parcialmente acobertado e livre para fugir dos padrões esperados. Há, pois, máscaras protetoras de gases, micróbios e doenças e as que ocultam o nosso lado oficial, liberando ou neutralizando a nossa idade, gênero e posição social. As primeiras são obrigatórias, são as da pandemia, as segundas são as das diversões e carnavais.

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Usávamos a palavra “mascarado” para gente afetada e vaidosa. Uma tribo abundante que afeta sobretudo os famosos e as celebridades, que se pensam como sendo superiores aos comuns. 

No Brasil, vivemos um caso doentio de descaramento agressivo de um cargo que é um poder republicano. Todo poder tem sua respectiva máscara. É a máscara que tem o poder, não a pessoa que a usa. Os desajustes aparecem – quando o ator não se acerta com a máscara, surgem desajustes, mal-entendidos e uma intolerável ambiguidade. 

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Helena Morley (Alice Dayrell de Caldeira Brant, cujo neto, Arnaldo, é um amigo querido) escreveu um diário extraordinário, Minha Vida de Menina. Entre informações preciosas e o olhar desmascarado, descreveu o estilo de vida de uma Diamantina, Minas Gerais, do final dos 1800, com suas rígidas regras caseiras, seu familismo político, seu catolicismo, sua escravatura e seus carnavais. Ao mencionar um deles, Helena revela a freudiana ousadia das máscaras numa história freudiana, contada por uma tia (sempre esses tios amigos e humanos...):

“Quem me fez vontade de ir ao baile – ela diz – foi tia Quequeta, contando o que elas faziam no tempo delas. Uma amiga dela pôs máscara, disfarçou a voz e buliu com o pai a noite inteira, a ponto de ele ficar apaixonado e, no dia seguinte, em vez de ir ao almoço, ficou passeando no jardim, de cabeça baixa, pensando na mascarada. Outra amiga deixou o marido ir ao baile e foi atrás, de máscara, brincou com ele, deixando-o apaixonado, a ponto de ele ficar suspirando a noite inteira”. 

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O comportamento de Bolsonaro aproxima-se do paradoxal mascaramento e desmascaramento do famoso médico psiquiatra de Itaguaí, Simão Bacamarte, o alienista de Machado de Assis que afirmava, lembrando algo importante tanto em 1882, quando a história foi escrita, quanto hoje: “A saúde da alma é a ocupação mais digna do médico”. 

Como se sabe, o Dr. Bacamarte alienou toda a cidade no seu manicômio e, vendo que havia algo estranho nisso, se internou também na Casa Verde. Não há dúvida de que o empoderamento é uma patologia no Brasil.

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Reza uma velha e atualíssima quadrinha mineira, definidora da antiética nacional, o seguinte: “Tu fingiste que me amaste; eu fingi que acreditei. Foste tu que me enganaste, ou fui eu que te enganei?”.

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