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Sobre malandros e malandragens

Há uma ‘ética da malandragem’ (de não fazer nada) pela qual todos se salvam e nada muda

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2018 | 05h00

Aos 12 anos, troquei uns selos raros com o avô de uma vizinha. Fui vítima de um malandro. A malandragem justifica sorrindo a ausência de boa-fé. Ela confunde o bem com o mal e o certo com o errado. Segue a lógica da mistura que salva os poderosos, fazendo com que o fraco vire momentaneamente forte.

Malandragens combinam autoridade com a inconsciência de direitos dos que foram logrados. É preciso não esquecer que, até anteontem, o Brasil foi escravocrata. Nele, o trabalho não era um chamado ou vocação, mas castigo. Separamos emprego – acima de tudo, público – de trabalho. Não se entende a malandragem somente com a lei. Ela é a marca de um sistema que desvaloriza o trabalho. O malandro imita o ideal do patrão rico que tudo tem e nada faz.

Há entre nós uma “ética da malandragem” (de não fazer nada) pela qual todos se salvam e nada muda. O trabalho como castigo produz a institucionalização da corrupção política cujo tema implícito é o trabalho como algo que inferioriza e o mantra do “se eu não roubar, outro rouba” – o que é de todos, não é de ninguém! Hoje, descobrimos como é dramático sair desse embrulho. 

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No Brasil, roubar uma pessoa é roubo, assaltar o que é de todos é malandragem. Uma impecável honra pessoal desculpa o descarado roubar coletivo. Quem, aliás, rouba é o governo e não o Estado ou a sociedade. É no “governo” que surgem as famílias e partidos malandros, a roubar dentro da lei. 

Os donos do poder, como viu Raimundo Faoro, são os que se apropriam da máquina, aristocratizando (pelo domínio burocrático) seus controladores. O “político” – salvo exceções – é o mediador que malandramente desvia os recursos do Estado em favor de um governo. Do “governo” que é sempre personalizado como inocente para os seus asseclas. 

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Bens públicos ou particulares impessoais: poltronas de cinema, bancos de praça ou paredes são vandalizados. Festas, como o carnaval, ritualizam a licença e estimulam esse comportamento porque nele todos viram malandros.

Quando estudei a oposição entre a casa e a rua, notei como o conceito moderno, igualitário e individualista de cidadania era difícil de se realizar num sistema no qual, na rua, só há desconhecidos. Inimigos potenciais (bandidos ou malandros); em contraste com a casa dos parentes e empregados. 

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Para civilizar espaços coletivos será preciso tomar pé de um sistema cosmológico no qual os laços de sangue e carne continuam a exercer pressão sobre um modo de relacionamento igualitário, vigente nas instituições democráticas. Só com malandragem se pode combinar mérito com favor e parentesco. É a distância que fabrica a polaridade não politizada da casa com a rua, a qual nos leva à incivilidade costumeira com quem não conhecemos.

“Esse eu conheço!”, falamos quando um amigo é atacado. De onde vem tal grito defensivo senão de um sistema ainda aristocrático e mal resolvido no que diz respeito a suas regras escravocratas? Normas rígidas para os escravos do eito, mas relativizadas para os escravos da casa, conforme disse Maria Isaura de Queiroz num ensaio clássico.

Não se pode esquecer que o Brasil teve rei e imperadores. Que amalgamou aristocracia branca com negros africanos – igualmente estrangeiros (como aprendi com Manuela Carneiro da Cunha), até o gradual e segmentar processo de abolição que vai da proibição do tráfico negreiro, à libertação de escravos de 60 anos e a do “ventre livre”. Quando veio a Lei Áurea, a população negra estava devidamente hierarquizada em termos de cidadania, com avós livres, filhos escravos e netos livres! Isso sem contar os que compravam sua liberdade.

Como passar de uma sociedade em que o rei era dono de tudo para uma coletividade na qual os bens públicos são republicanamente de todos, mas não há rei? O populismo não seria uma busca do rei?

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A malandragem abafa diferenças fazendo do inferior social um herói anedótico. Ela só vai ser domesticada quando levarmos a sério o trabalho e nos livrarmos dos bloqueios legais que são o centro de um sistema de privilégios. A vivência da igualdade demanda conflito e coragem. 

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