Sobre figuras e discursos

Estudo de Renato Mezan defende a ideia de que a identidade - fundada no inconsciente- entre o sujeito e o objeto teórico na psicanálise gera uma tensão que, no limite, jamais pode ser eliminada

Joel Birman, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Figuras da Teoria Psicanalítica, livro de Renato Mezan, foi relançado há pouco. Se na primeira edição saiu pela Editora Escuta, em 1995, na segunda sai pela Editora Casa do Psicólogo.

No entanto, esta edição não é apenas a reprodução literal da anterior, pois várias modificações foram realizadas. Assim, na nova edição os textos presentes na primeira passaram por extensa revisão, como também foram acrescentados cinco trabalhos inéditos. Contudo, o espírito da obra não se alterou pelas mudanças ora introduzidas. Pelo contrário, o que orientou o autor nas transformações foi o interesse de enfatizar o espírito que delineou a edição inicial. Desta maneira, a nova apresentação do livro é uma segunda edição propriamente dita e não uma simples reimpressão.

Os textos da obra se inscrevem em duas partes; a primeira se intitula Estudos e a segunda, Leituras. Com exceção do último ensaio da segunda parte, a primeira tem uma densidade teórica maior. Isso porque se compõe de textos com temas bem especificados. Em contrapartida, nos ensaios Sobre a Psicanálise e o Psicanalista, Caleidoscópio e Narciso e Seus Espelhos, Mezan empreendeu a leitura de inúmeros livros, revelando uma admirável concisão nos comentários. Grosso modo, o volume é uma colcha de retalhos de um conjunto de resenhas, apresentações e orelhas de livros já publicados muito bem costurada.

Porém, é preciso que eu possa me adentrar no que estrutura a obra em questão, isto é, o que delineia as suas linhas de força. Qual é o espírito constitutivo deste livro? Qual é a sua hipótese teórica de base?

Nada mais nada menos do que a ideia de que existe uma tensão entre a trama conceitual de um determinado discurso teórico e as figuras presentes neste mesmo discurso, que evidenciariam as marcas singulares daqueles que escrevem o dito discurso. Enquanto os conceitos se inscrevem no registro da visibilidade, conferida pela argumentação e pela reflexão, as figuras se insinuam pelas bordas da discursividade, de maneira insistente e repetitiva. As suas pegadas produziriam ruídos, de forma a singularizar a suposta universalidade pretendida pelos conceitos.

No livro de Mezan o que está em questão é a psicanálise. Na verdade, esta formulação poderia ser estendida para os campos das ciências humanas e da filosofia, entretanto, não para o das ciências ditas "duras". Isso porque é a sombra do sujeito que se impõe naqueles campos, que se insinuam pelas dobras da figurabilidade.

Contudo, antes de me referir a esta extensão, procurarei indicar a sustentação teórica que o autor realiza, voltado para a psicanálise. Assim, se essa constitui conceitos, que se forjam pelo processo secundário do psiquismo, existiria uma evidente pressão do processo primário sobre o secundário, que se faria de maneira insistente. Esta imbricação seria inevitável e insofismável.

Portanto, a conjugação de diferentes cenas psíquicas seria a resultante desta imbricação, de forma que a ordem do discurso se revelaria duplamente regulada. A linguagem seria marcada, com efeito, pela policenia, como nos disse Pierre Fédida num outro contexto teórico. Vale dizer, a linguagem conceitual evidenciaria em filigrana as marcas da figurabilidade, que como espectros (Derrida) povoariam o imaginário dos escritos em psicanálise.

As metáforas que se inscrevem na escrita teórica evidenciam as marcas da figurabilidade. Seria isso que, na composição da escrita, marcaria o texto na sua dimensão evocativa, indicariam os signos do inconsciente. Se o texto causa algo no leitor, como diria Lacan, isso se deveria aos rastros da figurabilidade.

Se estas considerações teóricas seriam válidas para qualquer escrito teórico em psicanálise, em certos registros conceituais isso se evidenciaria de maneira ainda mais inequívoca. Este seria o caso dos conceitos de "originário" e de "metapsicologia", que são os temas de dois ensaios do livro. Isso porque estes conceitos apenas poderiam ser enunciados por metáforas e imagens, nunca de maneira direta. Vale dizer, o registro da enunciação regularia o registro do enunciado, subvertendo-o insistentemente de ponta-cabeça. Isso porque é o sujeito o que se evidenciaria nesta insistência, pelo viés da repetição da figurabilidade.

A questão que se impõe agora é a razão desta insistência do figural no discurso psicanalítico. Poder-se-ia afirmar que isso seria inevitável em decorrência da identidade entre o sujeito e o objeto teórico na psicanálise. Esta superposição, fundada no inconsciente, conduziria à tensão permanente entre os registros do conceito e da figura no saber psicanalítico, de modo que no limite esta tensão não poderia jamais ser eliminada.

Por conta disso, o discurso psicanalítico seria permeado inevitavelmente pelos espectros. Porém, para falar numa retórica psicanalítica escorreita, pode-se afirmar que os escritos psicanalíticos são perpassados por fantasmas que, como espectros, regulam a construção conceitual em psicanálise.

Se nos deslocarmos do registro teórico para o registro clínico em psicanálise, o halo da figurabilidade estará ainda mais presente, na medida que na clínica a presença dos fantasmas do analista, que o orientam na sua escuta, se torna ainda mais evidente. Isso porque é o inconsciente que funciona como movente da escuta analítica, pela regra da atenção flutuante.

Entretanto, se considerarmos que os conceitos psicanalíticos são oriundos da experiência analítica, não existiria qualquer diferença entre escritos teóricos e clínicos em psicanálise, pois seria sempre a experiência psicanalítica o que estaria no plano da imanência de qualquer escrita em psicanálise.

No que concerne a isso, pode-se afirmar que Freud já o sabia. Assim, quando escrevia o Projeto de Uma Psicologia Científica (1895), dizia a Fliess numa carta que a "fantasmatização" era o instrumento de trabalho de que se valia na sua escrita. Por essa razão, tinha que suspender o seu trabalho num determinado momento, para não sair do ar com a sua fantasmatização, isto é, tinha que reler o que escrevera para se certificar de que não estaria delirando. Portanto, o risco que coloca a fantasmatização é o do franco delírio, que precisa ser conjurado.

Evidentemente, Freud não acreditava que o discurso psicanalítico fosse um delírio. Por isso mesmo, afirmara que tinha tido êxito onde o paranoico fracassara, na medida que a psicanálise como saber não seria uma produção delirante. Para isso, no entanto, o teórico teria que avaliar permanentemente o seu discurso, para criticar as figuras do inconsciente que lhe direcionam de maneira insistente.

Porém, mesmo que não atinja o limite do delírio, a figurabilidade do inconsciente confere ao escrito analítico uma certa marca mitológica. Foi por conta disso, aliás, que Freud afirmou, nas Novas Conferências sobre a Psicanálise (1933), que a teoria das pulsões seria a sua "mitologia". Esta foi a maneira que ele encontrou para afirmar que a psicanálise não seria uma ciência, mas uma outra modalidade de produção teórica, no contexto histórico do neopositivismo triunfante.

Assim, para Freud a psicanálise não era uma ciência "dura", como as ciências naturais, conforme pretendera sustentar inicialmente. Contudo, ela não era um discurso estético, como pretendiam alguns críticos da psicanálise.

No entanto, se o saber psicanalítico evidencia a tensão permanente entre os registros do conceito e da figura, o mesmo poderia ser dito do conjunto das ciências humanas e da filosofia. Nessas, com efeito, o conceito tem uma dimensão autoral, colocando em evidência os espectros do sujeito, como ocorre igualmente no campo das artes e da literatura.

No ensaio intitulado O Que É Um Autor? (1969), Foucault opôs os discursos da ciência e da discursividade para mostrar como na primeira a construção do conceito coloca numa dimensão de silêncio o nome do seu criador, enquanto que na segunda a referência ao autor se faz sempre presente. Daí porque no campo da discursividade existiria sempre um retorno aos textos fundadores da dita discursividade, como ocorreu nos casos de Freud e de Marx. Lacan, que assistiu à conferência de Foucault, que deu origem a seu ensaio, na Sociedade Francesa de Filosofia, afirmara que era assim que entendia o seu retorno à Freud. Desta maneira, as diferentes ciências humanas, a filosofia e a psicanálise seriam formas de discursividade, nas quais a marca autoral é o que caracterizaria estes escritos.

Finalmente, retomando o desdobramento da hipótese teórica de Mezan, de que a leitura da figurabilidade na teoria psicanalítica implicaria numa clínica do texto, pode-se dizer que essa é uma outra forma de sustentar o imperativo da crítica em psicanálise. Isso porque é preciso que o leitor não seja tomado de assalto pela sedução do texto, que se faculta pela experiência da transferência presente na leitura e na transmissão institucional da psicanálise.

JOEL BIRMAN É PSICANALISTA, PROFESSOR TITULAR DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA UFRJ E PROFESSOR ADJUNTO DO INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL DA UERJ

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