Sobre discípulos, mestres e umbigos

A boa literatura seduz, a ótima literatura surpreende. A literatura excelente encanta, a literatura genial espanta. O que faz de Dalton Trevisan o mito que representa não é sua ojeriza à exibição pública, mas seu estilo fulminante, que expõe as misérias humanas com frieza cruel. Sua postura esquiva contraria a caça aflita por fama ou êxito comercial no mercado dos livros. Devassar a intimidade da alma de um gênio misterioso como ele é o paraíso dos aspirantes à fortuna crítica. E conviver com ele, a excelsa glória.

José Nêumanne, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Miguel Sanches Neto, paranaense de Bela Vista do Paraíso, penetrou no Éden do Vampiro de Curitiba graças ao talento inato para manejar palavras e à capacidade de fazer amigos e influenciar pessoas. Depois, se viu expelido do jardim das delícias do convívio com o ídolo, a exemplo do que houvera ocorrido antes com outros. Nada demais! A exclusão compulsória da revelação dos mistérios do gênio esquivo já tinha sido amargada até por um parceiro de juventude: Wilson Martins. Do céu dos eleitos ao limbo dos rejeitados a caminhada é dolorosa e o trajeto, árduo. O celebrado crítico, batizado no roman à clef de Sanches de Valter Marcondes, desceria do pedestal de historiador da inteligência nacional para cutucar o gênio da prosa breve com a vara curta da irreverência, atingindo-o no ponto nevrálgico da autoestima: o contista inovador de outrora passou a ser hoje um mestre do passado.

Quem negará, pois, a Sanches, ficcionista de obra pregressa aclamada, o direito de expor pecados e mazelas do esquisitão da narrativa curta? Será acusado de cuspir no prato em que comeu a coalhada da Confeitaria Shaffer? Dir-se-á que se serviu do sangue vertido nos textos do Vampiro para dele extrair a verve, numa versão paranaense contemporânea da antropofagia dos indígenas comedores de gente, celebrada na metáfora de Oswald de Andrade? E daí?

Veneno nunca fez mal à boa literatura. Nem piora a melhor. Quem condenará a intenção de engolir e vomitar a glória do ídolo em queda? A questão que fica no ar é: o que há de verdadeiro na realidade que o autor de Chá das Cinco com o Vampiro anunciou entregar ao leitor ávido para invadir a reclusão a que Dalton se condenou (ou em que se salvou da mesmice)? Ela chega enfraquecida pela inverossimilhança, inimiga figadal de ficcionistas: "Esconder a intimidade mais ou menos medíocre fez com que sua biografia crescesse." Que história é essa? Retire-se o gênio literário de Dalton Trevisan, chamado de Geraldo Trentini no romance de Sanches, e o que restará de suas rabugices? Nada!

Outro problema da tentativa de reduzir ao mínimo divisor comum o medíocre provincianismo do Olimpo em que intelectuais pensam viver encarapitados é encontrar para tanto uma causa útil. Que proveito terá o leitor arguto do melhor da obra do misterioso minimalista ao saber que ele assedia moçoilas incautas? Ou que o contista paga a observadores que podem gozar do anonimato que lhe é negado para injetarem sangue fresco de vida real na obra do Vampiro e, assim, a livrarem do perigo da anemia letal?

Mais que o ranço do ressentimento instilado ao longo de uma narrativa conduzida de forma competente por um artesão consciente de seus dotes e caprichos, ressalta do acerto de contas do discípulo com o mestre o prazer sentido por Eva ao ver Adão morder a maçã oferecida pela serpente: o gosto do furto da glória exclusiva. "Todo leitor é um ladrão", justifica Sanches. Isso o inocentará da tentativa de roubar do outro não o deleite do texto de bom feitio, mas o sabor do fruto da fortuna crítica? E de sua fama?

Ao convencer um ficcionista célebre como Dalton Trevisan, José Rubem Fonseca, a participar do lançamento exibicionista de seu romance Gonzos e Parafusos na Livraria da Vila, em São Paulo, a carioca Paula Parisot tentou alcançar a própria excelência literária apropriando-se da competência do padrinho. A empreitada assemelha-se à de Sanches, mas com uma diferença abissal: o que nele é texto de qualidade nela é patética pretensão.

Ao se propor a viver uma semana numa livraria fantasiada de Baronesa Elisabeth Bachofen-Echt, personagem de um quadro de Klimt e um dos alter egos da romancista no livro, contando com a cumplicidade de um mestre das letras, ela tentou iluminar seu texto fraco com o brilho autoral dele. Sem levar em conta o ônus da responsabilidade que sua habilidade de literato cobra em seu comportamento em público, o criador de Mandrake se deixou levar pelo devaneio inviável de transferir o próprio valor para algo sem valia.

Trata-se de um delírio de vaidade extremada, que, se nada retira dos méritos do prosador, nada também acrescenta aos escassos merecimentos da prosa de sua prosélita. Se a moça houvesse ficado em casa exercitando a escrita, talvez se habilitasse a produzir algo de melhor qualidade na próxima vez. Recolhido às páginas de sua obra celebrada com justiça, Fonseca daria aos fãs leais a chance de relevar a revelação recente de que ele tentou apagar da própria biografia sua participação no Ipes, instituto financiado por empresários para combater o governo João Goulart, depois do golpe militar de 1964.

José Nêumanne, Jornalista e Escritor, É Editorialista do Jornal da Tarde

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