Christopher R. Beha , O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h09

Um novo romance de Peter Cameron não faz muito para se anunciar como um evento literário. Seus livros são curtos - somente um, The City of Your Final Destination (no Brasil, A Cidade do Seu Destino Final, editora Best Seller), tem mais de 300 páginas - e não são deliberadamente "inteligentes". Suas principais virtudes literárias são sagacidade, charme e leveza de toque, qualidades pouco encontradas na ficção americana contemporânea exceto em forma de artifício, como bizarrice engraçadinha. Cameron é, antes de tudo, um romancista de costumes, construindo seus efeitos a partir do drama e da comédia das relações humanas, trabalhando sempre numa escala pequena que torna tentador tratar seus livros como "menores" (isso explica, em parte, por que seu romance aclamado pela crítica, Someday This Pain Will Be Useful to You (no Brasil, Um Dia Essa Dor Será Útil, editora Rocco), narrado por um adolescente gay circulando por Nova York, foi originalmente comercializado como "para adolescentes"). É fato que Cameron tem pouco interesse em experimentações formais e menos ainda no romance como um veículo para a crítica política ou cultural, distanciando-se de contemporâneos como Jeffrey Eugenides e Jonathan Franzen. O prazer que sua obra proporciona não é o prazer de encontrar grandes ideias - sobre, por exemplo, a maneira como a tecnologia muda a sociedade, ou a maneira como as estruturas de poder limitam a liberdade humana, ou o destino da família numa sociedade capitalista tardia. Cameron antes se especializa na sutileza emocional e em desejos ocultos - enquanto sugere uma desordem quase avassaladora se agitando por baixo da superfície plácida.

O método de Cameron envolve tipicamente transportar personagens para ambientes pouco familiares e observá-los às voltas com os costumes da região. Em The Weekend, Lyle sai de Manhattan para a casa no Norte do Estado de Nova York de seus melhores amigos casados, Marian e John. Lyle não é exatamente um estranho, mas foi afastado de Marian e John pela morte de seu namorado, Tony, a figura em torno da qual todos haviam girado. Agora, as três personagens sobreviventes precisam recalibrar suas relações de maneiras desconfortáveis e enfrentar a possibilidade de que, por mais perto que estejam, não consigam gostar muito uns dos outros. É sobre esses serenos dilemas humanos que Cameron constrói a sua obra (faz pensar nas duas polegadas de marfim, de Austen).

Em meu romance favorito de Cameron, o soturnamente irônico Andorra, um narrador nabokoviano chamado Alexander Fox, "compelido pelas circunstâncias a começar (sua) vida de novo em algum lugar novo", chega ao país do título - que, incidentalmente, tem alguma semelhança com o microestado europeu real com esse nome. Ele se envolve em vários affairs atrapalhados até que o que pareceria uma confusão inócua se transforma em algo sinistro. Omar Razaghi, o acadêmico encrencado de A Cidade do Seu Destino Final, viaja ao Uruguai - de novo o nome é mais um substituto estrangeiro do que um significante geográfico real - para buscar permissão de herdeiros de um romancista latino-americano para escrever a biografia deste. Ele se vê envolvido com a viúva, a amante e o irmão, que manipularão Omar cada um para os seus interesses, acertando velhos rancores fora do seu entendimento. A única exceção parece ser James Sveck, o nova-iorquino de 18 anos que narra Um Dia Essa Dor Será Útil. Mas James habita sua própria vida à beira da idade adulta como um turista confuso e assustado.

O mais recente romance de Cameron, Coral Glynn, segue esse molde de "estranho chega à cidade". O romance começa com a chegada de Coral, uma jovem enfermeira itinerante, à Hart House, uma solar rural inglês onde ela foi contratada para cuidar da matriarca moribunda, sra. Hart, que vive na casa com seu filho. O major Clement Hart foi ferido na 2.ª Guerra Mundial - o ano é 1950 - e anda com a ajuda de uma tala ortopédica. "Você parece se sair bem com ela", diz-lhe Coral quando eles se encontram nos jardins de Hart House. "Eu consigo manejar o reto e estreito", responde Clement, "que imagino que seja o que todo homem como eu está qualificado a fazer. Mas sinto falta dos bosques. Eu tinha uma fortaleza no bosque, quando era jovem, onde brincava de soldado."

Nas mãos de Cameron, esses fragmentos inócuos de diálogo reverberam, fazendo incompreensões aparentemente cômicas se construírem aos poucos, provendo os romances de poder, e, às vezes, de uma tragédia inesperada. Pensamos na brincadeira de infância de Clement nos bosques, e em seu confinamento adulto ao reto e estreito, quando ele discute planos para propor Coral a seu amigo de infância, Robin Lofting, numa cena que ressalta a habilidade de Cameron com diálogos sugestivos:

"Ela tem peitos?" (Robin pergunta).

"Eu tinha a impressão de que todas as mulheres têm peito."

"Certo, mas eles variam de tamanho. De que tamanho são os peitos dela?"

"Que pergunta extraordinária. Por que perguntaria uma coisa dessas?"

"Porque, como afirmei anteriormente, somos dois homens conversando num pub. Precisamos fazer um esforço para seguir o protocolo."

"Então o melhor que posso te dizer é que seu peito - não gosto da palavra - é perfeitamente proporcionado."

"De que palavra você gosta?"

"Não gosto de nenhuma palavra. Não gosto do tema."

"A maioria dos homens gosta. O tipo que casa, ao menos. Você terá de fazer um esforço."

Todos os romances de Cameron contêm relações tanto heterossexuais como homossexuais, mas ele não mostra mais interesse pela política sexual do que por qualquer outro tipo. Quando suas personagens são constrangidas por preconceitos sociais, ele é mais propenso a traçar a resposta humana a esses constrangimentos do que a diagnosticar as forças que lhes dão origem. Embora Robin já seja casado, ele fica muito mais confortável amando Clement do que Clement retribuindo esse amor. Ele pensa em seu passado com nostalgia enquanto Clement o sente como um fardo e um embaraço. Evidentemente, Coral não compreende a natureza dessa relação quando aceita casar-se com Clement, mas ela carrega seu próprio segredo, também de natureza sexual, tendo a ver com a casa anterior onde trabalhou como enfermeira.

O romance é obscurecido ainda mais por uma investigação criminal com a quantidade exata de melodrama, que literalmente diz respeito a crianças brincando nos bosques. Como Alexander em Andorra, Coral se vê implicada num assassinato que não cometeu por não querer admitir transgressões muito menores, e como ele, suas tentativas de escapar das consequências desse erro só o complicam. Muitas das personagens transplantadas de Cameron estão igualmente paralisadas pelo decoro, permanecendo passivas o suficiente para complicar as coisas antes de se atirarem a ações que apressam o que o destino preparou.

Apesar dessas semelhanças com romances anteriores de Cameron, Coral Glynn não se parece com nenhum deles, assim como eles não se assemelham muito entre si. Cameron nunca havia ambientado um livro a certa distância no passado; embora tenha ambientado romances em países estrangeiros, ele nunca explorou muito as especificidades desses locais. Sua escolha pela Grã-Bretanha de meados do século passado é significativa de uma maneira que ambientações anteriores como Andorra e Uruguai não são. A maioria das complicações do enredo, a começar pelas complicações de homossexualidade enrustida, apoia-se nas restrições de normas locais. De maneira incomum, Cameron busca explicitamente captar o sabor de um tempo e espaço particular, e a história que ele conta não poderia ter ocorrido dessa maneira em nenhum outro.

Mesmo assim, Coral Glynn não é um romance de época porque Cameron pouco fez para ajustar seu estilo às exigências desse gênero. Isso parece uma falha, exceto que o estilo de Cameron, tal como é, cumpre essas exigências com perfeição. Um leitor de suas obras anteriores encontrará algo de revelador em Coral Glynn que explica todas as características - charme, sagacidade, elegância, e, sobretudo, toda a habilidade de soar variações repetidas de um mesmo tema, fazendo a melodia nova a cada vez - que observei acima. Podemos ser lentos demais para reconhecer Cameron como um mestre americano do século 21 porque ele tem a sensibilidade de um britânico do século 20.

Embora seus pares maximalistas possam retraçar uma linha a Dickens ou mesmo Fielding e Sterne, eles o fazem por meio de vários modernistas e pós-modernistas americanos, europeus e latino-americanos. Cameron é incomum em sua dívida direta com grandes romancistas britânicas de meados do século passado como Elizabeth Taylor, Elizabeth Bowen e Barbara Pym, que se parecem precisamente porque tomam o indizível como seu tema. O principal insight de sua obra é que, como Taylor escreveu em At Mrs. Lippincote's, "nenhuma de nós fala a verdade sobre os quartos que mantemos trancados". Podem-se chamar essas escritoras de "menores" da mesma maneira que Cameron é um escritor menor.

Elas provavelmente não revelarão os cânones pessoais dos contemporâneos "maiores" de Cameron. Mas essas são as escritoras dele, e Coral Glynn é seu tributo a elas. O livro está cheio de alusões claras - como a menção a uma sra. Lippincott na cidade. Assim, ele poderia ser lido como um exercício de pastiche, mas nunca o é, porque Cameron absorveu de maneira tão íntegra e admirativa as lições dessas mulheres, a principal delas quanto se pode tirar o esforço para seguir o protocolo e da distância que esse protocolo cria entre o que é falado e o que se quer expressar.

Cameron está obviamente consciente do desafio que esses temas colocam para leitores e escritores acostumados a um mundo moderno onde pouco fica sem dizer, onde não há protocolo a seguir, e não há quartos mantidos trancados. Ele joga lindamente com esse dilema em Um Dia Essa Dor Será Útil, quando o pai de James Sveck pergunta desajeitadamente se ele é gay. "Por quê?" pergunta James. "Isso lhe permite obter uma dedução extra nos impostos ou algo assim?" "Se você é gay", o pai responde, "eu quero ser corretamente aprovativo." "Você não seria aprovativo se eu fosse heterossexual?", quer saber James. Observa-se James lutando para encontrar resistência, uma força contra a qual se definir. Uma luta similar pareceu se manifestar em toda a carreira de Cameron, na medida em que ele enviava personagens para cidades e países mais ou menos de sua própria imaginação, libertando-os para imaginar a coisa certa a dizer ou fazer, criando consequências mortais para suas faltas de decoro. Quando se lê Coral Glynn, tem-se a sensação de que todas as suas andanças finalmente trouxeram Cameron para uma espécie de terra natal. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

CHRISTOPHER R. BEHA É EDITOR ADJUNTO DE HARPERS MAGAZINE. SEU PRIMEIRO ROMANCE, WHAT HAPPENED TO SOPHIE ELDER, SERÁ PUBLICADO NO PRÓXIMO MÊS PELA TIN HOUSE BOOKS

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