Sobre a intolerância política

Low Life traz à tona o tema da repressão aos imigrantes ilegais na França

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2011 | 03h06

Em Low Life, de Nicolas Klotz e Elizabeth Perceval, temos uma história de amor e rebeldia ambientada na França pós-distúrbios da periferia e imersa nas questões raciais. Tema político de um casal de longa parceria artística, que havia já mostrado o extraordinário A Questão Humana, um dos melhores filmes políticos da década.

A linha não está de todo ausente nesta nova produção. Se em A Questão Humana aproximava-se o ideário nazista do comportamento das corporações contemporâneas, agora o desafio é ver como a intolerância com os imigrantes causa efeitos deletérios na própria população francesa.

O caso, aqui, é de um triângulo amoroso entre a jovem Carmem, Charles e Hussain, um poeta afegão, que vive sem documentação regular. Carmem começa relação intensa com Hussain, mas o casal é atormentado pela prisão e deportação iminentes do rapaz. O quadro de fundo é uma série de protestos dos jovens contra um status quo um tanto indefinido e o elogio à vida comunitária, à la anos 1970.

Perpassa, pelo filme, aquela atmosfera tão bem captada por Bernardo Bertolucci em sua evocação do maio de 1968, Os Sonhadores. Mas, se em Bertolucci essa recordação tinha um lado luminoso, embora trágica em seu desfecho, a proposta de Klotz e Perceval não vai além do tom obscuro a marcar os dramas precoces daquelas vidas jovens.

Não falta encanto ao filme, prejudicado, no entanto, pelo tom um tanto solene dos diálogos e de sua concepção visual. É feito em digital e apresenta uma fotografia bastante escura, em especial nas cenas noturnas, com definição inadequada.

Esse aspecto é danoso para a vivacidade do elenco jovem, em especial o casal Carmem e Hussain, interpretado por Camille Rutheford e Arash Naimian. No entanto, a outra ponta do triângulo, o também poeta e candidato a suicida Charles, parece meio sem função. Sua presença destoa e acaba por abalar o drama do qual deveria fazer parte.

Um tanto sobrecarregado de referências literárias, Low Life acaba sentindo o peso da direção um tanto rígida. Num filme sobre jovens, e sobre o inconformismo diante da realidade social, essa atitude não vai bem.

Acaba por atravancar um filme que, de início, parece bem promissor. Tanto pelo retrospecto da dupla que o assina quanto pela pertinência do assunto de que trata. Hussain é rapaz culto, com tese sobre Holderlin. Mesmo assim não é aceito pela França oficial. Carmem, que não tem o nome por acaso, é tentadora, embora esteja longe da personalidade da personagem de Merimée, que celebrizou o prenome espanhol. Na sociedade da racionalidade política, proposta por Sarkozy, existe pouco espaço para esse tipo de casamento poético. Mesmo diretores talentosos podem sucumbir a esse sufoco, a pretexto de criticá-lo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.