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Sobre a exaustão

É mais fácil tirar um rim ou outro órgão de alguém do que o deixar uma semana sem Wi-Fi

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2020 | 03h00

Dia desses, desabafei com um amigo que estivera exausto ao longo de 2020. Recuperei-me. Não me lembro, porém, de ter me sentido tão cansado, sem inspiração como neste ano. Meu amigo ouviu, ponderou e me disse que o mesmo acontecera com ele, embora não soubesse explicar o porquê. “A pandemia”, arriscariam alguns. “É normal, natural”, diriam outros.

Talvez todos tenham razão: não foi um ano fácil. O modelo de “lives”, com isolamento social e medo difuso em meio ao risco de doença e da morte, minou tudo. Esse novo modelo de trabalho pode ter suas vantagens, mas tende a diluir as fronteiras entre o espaço de descanso, lazer e o espaço de trabalho. Muita gente foi trabalhar no quarto, local de sono. Outros, na sala, lugar de comer, conversar, estar. Isso não é pouco. Leva, entre outras coisas, a passos mais perversos e que já se desenhavam antes como ter 8 horas de trabalho diárias apenas como um piso de horas trabalhadas. Somos demandados pelo smartphone e suas redes sociais e aplicativos de mensagem quase incessantemente. Viver entre estímulo e recompensa de forma irrefreada exaure uma biologia feita para dias mais tranquilos. Por fim: sim, é natural cansarmos. Seria, igualmente, natural descansarmos. Estudos mostram que é durante o sono que muito em nosso corpo se realiza: produzimos coisas ótimas dormindo. Dormir não é perda de tempo. Pelo contrário, é fundamental, natural. Desnaturalizar o descanso, a contemplação, a calma, o ócio, a recreação, o sono: nada disso é natural. É nossa vida, contudo.

Uma novidade absoluta? Dados de quase 10 anos atrás, coletados em pesquisa Ibope, mostravam que quase a totalidade (incríveis 98%) de nossos jovens entre 20 e 29 anos se sentia exaurida mental e fisicamente. Nos EUA, uma pesquisa de 2015 feita pelo Conselho Nacional de Segurança mostrava que 43% dos trabalhadores do país dormiam menos do que o recomendado.

Byung-chul Han mapeou a tendência no livro A Sociedade do Cansaço. Ele compara a exaustão atual a uma epidemia. No mundo sólido de meados do século passado, as epidemias eram virais, de fato. Han não previa a atual pandemia. Mas isso não invalida seu argumento de que hoje as doenças são neurais.

Pesquisas feitas na Inglaterra e na França na primeira década dos anos 2000 já relacionavam a falta de descanso e sono com o desenvolvimento de doenças, maus hábitos (como o tabagismo) e prejuízo ao desenvolvimento fetal. Qual a razão de tudo isso para Han? O excesso de algo que, na filosofia, chamamos de positividade. Se antes, como descreveu Foucault, vivíamos a sociedade da disciplina e nossos corpos obedeciam a sinais para entrar e sair de fábricas e escolas, chefes e metas impostas de forma dura, hoje vivemos uma cultura do positivo. Quer ver filmes e séries? Haverá uma enxurrada tão grande disponível em aplicativos que você passará uma hora em uma barra de rolagem e não conseguirá escolher. Aí... vêm estímulos de redes sociais: “amigos” postaram coisas novas, curtiram e comentaram suas postagens. Vamos interagir com eles! Agora e sempre! Outra hora e meia se foi. Quando você estava baixando o telefone, um vídeo chamou sua atenção. Era engraçado e emendou em outro melhor ainda. No terceiro, você percebeu que estava precisando voltar a trabalhar. Nesse ínterim, 30 minutos se passaram. Então, você olha o aplicativo de mensagens: grupos de política querem sua opinião, pessoal do trabalho com mil demandas, todas urgentes, para ontem. Até dar conta de responder a todo mundo, incluindo família e amigos em intermináveis bons-dias e correntes, foi-se embora outra hora e meia.

Finalmente, vamos produzir! Na caixa de e-mail, pego uma demanda, abro o computador e consigo o milagre: duas horas de concentração e o trabalho adiantou bem. Almoço com pressa, em pé. Engulo algo para ser exato. Faço isso olhando meu smartphone em outro círculo sem fim de imagens, likes e comentários. A parte da tarde é um “eterno retorno” disso. Quando me deito, o celular está comigo, competindo com a TV entre os mais velhos. Deixando a pilha de livros que comprei por aplicativos maior, com mais poeira. Um sentimento de vazio me toma, mistura-se a uma culpa não sei bem de quê. De estímulo em estímulo, jantei na cama, luz apagada, celular ainda nas mãos: me oferecendo novos filmes, séries, leituras, comida, exercícios, carros, etc. Novas cobranças no WhatsApp. Algumas de um chefe que parece desconhecer a ideia de descanso ainda mais do que eu... Vou dormir depois de acalmá-lo e ver uma sequência de três episódios de uma série que me recomendaram.

O antídoto não seria o sim, o positivo, porém dizer não! Baixar o celular, desligar. Não aceitar, não ver, não produzir. Descansar, contemplar, trabalhar para viver e não o contrário. Mas quem aceitaria essa vida atualmente? É mais fácil tirar um rim ou outro órgão de alguém do que o deixar sem Wi-Fi por uma semana.

Depois, reclamamos do cansaço... Sejamos honestos! Nós o adoramos! Nós o esculpimos, alimentamos, pomos e tiramos do sol. O esmero é tanto com nosso companheiro, que ele já se confunde comigo. Boa semana para todos!

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