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O que faz com que os ingleses Jeff Beck, Peter Gabriel e Sting se joguem na música erudita com tanta propriedade? Talvez o próprio fato de serem ingleses

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Será que é mesmo tão difícil para um músico popular arriscar-se no erudito? As incursões malogradas de Paul McCartney ajudam a fortalecer o preconceito. Seu pífio oratório Liverpool, de 1991, deve ser creditado mesmo ao maestro e compositor Carl Davis, nada tem a ver com o universo artístico do ex-Beatle. Há pouco, outro roqueiro ilustre, Sting, acaba de cometer Symphonicities (Deutsche Grammophon/Universal).

Pra que encher de cordas os arranjos de suas canções tão conhecidas? Tudo postiço. Melhor ficar com o velho e bom Sting do Police, nos anos 80.

O que une todas estas tentativas, a maior parte delas frustrante? Provavelmente, o DNA europeu destes músicos, que tiveram desde a infância uma formação clássica - e por isso, no seu inconsciente, enxergam sempre no fim do túnel uma moldura erudita. Dois outros músicos britânicos deram-se muito bem em suas aventuras clássicas. São casos recentíssimos - e bem-sucedidos - que reforçam bastante nosso argumento. 

 

 

 

Ouça somNessum Dorma, de Puccini, gravada por Jeff Beck       

 

 

Comoção clássica. O primeiro é o célebre Jeff Beck. Em Emotion & Commotion, que ele vem lançar no Brasil no dia 25 de novembro, na casa de espetáculos Via Funchal, o talentosíssimo guitarrista faz um passeio fascinante pelo universo erudito. Seu experiente produtor Steve Lipson (ex-engenheiro de som dos Rolling Stones, que produziu trabalhos de McCartney, Pet Shop Boys e Simple Minds, entre outros) colocou-o à frente de uma orquestra de 64 músicos. E faz seu instrumento cantar de modo eruditamente refinado já na primeira faixa, Corpus Christi Carol, onde o compositor inglês Benjamin Britten chora os mortos na Segunda Guerra Mundial.

Gratas surpresas. Sutil o arranjo sinfônico de Peter Murray. Outra leitura emocionante é a da famosíssima ária Nessun Dorma, da ópera Turandot, de Puccini: começa erudita e o pulso regular, aos poucos, propicia 6 minutos contemplativos de Beck. Ainda com a orquestra a seus pés, ele expõe o tema e depois acompanha a cantora Olivia Safe na meditativa Elegy for Dunkirk, tema de Desejo e Reparação, filme de 2007 baseado no romance de outro inglês, Ian McEwan. Uma das gratas surpresas do CD é o arranjo "erudito" de Murray para Somewhere over the rainbow, a clássica canção do filme O Mágico de Oz.

Mas o exemplo mais impactante desta tendência é o do também inglês Peter Gabriel, em seu mais recente CD, Scratch my Back. Num vídeo disponível em seu site (www.petergabriel.com), ele afirma que seus ídolos são Igor Stravinsky e Arvo Pärt - duas escolhas surpreendentes mas compreensíveis quando se ouvem as músicas.

Gabriel atinge aqui um nível raro entre intérpretes populares: acrescenta a linguagem da música sinfônica a suas canções e de outros compositores sem que a música erudita entre a marteladas. Ao contrário, parece que Peter Gabriel as compôs assim mesmo, neste formato: sem guitarras nem bateria; só voz e instrumentos sinfônicos.

Duvida? Ouça Mirrorball (Elbow), Heroes (David Bowie), Listening Wind (Talking Heads), The book of love (The Magnetic Fields) ou Philadelphia (Neil Young). Os reponsáveis pela proeza são o compositor e arranjador John Metcalfe (ex-Durutti Column) e o produtor Bob Ezrin (trabalhou no célebre The Wall de Pink Floyd e em Berlin, de Lou Reed). É, a música erudita está mesmo no DNA, senão de todos os roqueiros em geral, ao menos no dos britânicos. Gabriel, Sting e Jeff Beck estão aí para provar a teoria.

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