Sob o signo da perda

No Rio, Miranda Otto diz ter descoberto a poesia de Elizabeth Bishop nas filmagens de 'Flores Raras'

LUIZ CARLOS MERTEN / RIO, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 11h01

Miranda Otto é muito mais bela ao vivo. Ela não comenta a própria beleza, mas admite que a pele é delicada e a maquiagem muitas vezes não a favorece. A atriz australiana de 45 anos veio ao Brasil no começo da semana passada para divulgar Flores Raras, que abriu, na sexta, o Festival de Gramado (fora de concurso) e estreia dia 16. O sol estava a pino na terça em Copacabana, quando Miranda concordou em sair do hotel na Av. Atlântica e fazer as fotos na areia da praia. A cada click ela pedia um segundo ("Just a sec!") para fechar e descansar os olhos. Foi uma das coisas que a surpreenderam no Brasil - a intensidade do sol. Na Austrália, onde nasceu, o sol sempre fez parte de sua vida, mas ela, até por ter a pele muito branca, sempre manteve certa distância. No Rio, ela descobriu, o sol e a praia fazem parte da vida de todo mundo que vive na zona sul.

Admite que não sabia nada sobre a vida da poeta Elizabeth Bishop ao ser convidada pelo diretor Bruno Barreto para fazer o filme. Não conhecia Bruno nem o filme mais conhecido dele. "Tentei assistir a Dona Flor, mas o filme não é encontrável na Austrália. E o Bruno não me arranjou uma cópia para vê-lo aqui", reclama, rindo. Não conhecia a poesia de Bishop. Descobriu-a enquanto fazia o filme. Li muito sobre ela, mas o roteiro ajudou: é consistente, dos melhores que li.

O fato de Elizabeth Bishop ter mantido uma ligação forte com a paisagista Lota de Macedo Soares - que criou o Parque do Flamengo, no Rio - não a intimidou. Casada (com o ator Peter O'Brien), mãe de uma filha de 8 anos, ela conta que não há nada de especial em fazer cenas de intimidade gay. "São delicadas, de bom gosto. Bruno não mostrou o sexo entre duas mulheres com sensacionalismo." O sentimento entre as duas no filme não é diferente do que existiria entre um casal hétero. Os problemas são iguais. O deslumbramento da aproximação e da descoberta, a dor da perda. Bruno diz que é um filme sobre a perda, e é verdade.

Sobre Gloria Pires, que recebeu na sexta, em Gramado, o Prêmio Oscarito, por sua contribuição ao audiovisual no País, Miranda só teve elogios - "É humana, incrível, grande atriz. Não é fácil representar numa língua que não é sua, e Gloria fez muito bem". E Miranda divaga sobre o filme. "Acho interessante a forma como mostra duas pessoas que vivem imersas em processos criativos fortes. Lota vive a arquitetura, o paisagismo. Acompanhamos Elizabeth em sua briga com as palavras. A poesia, de todas as formas de escrita, exige a precisão do verbo."

Ela conta que a primeira pessoa em quem pensou, ao receber o convite para Flores Raras, foi em seu avô. "Ele esteve no Brasil e sempre me contava as histórias daqui. Criei um Brasil mítico no meu imaginário. As músicas, a comida, a sensualidade, tudo é forte, mas o que mais me seduziu foi o calor humano. Tenho seguido um pouco as histórias de manifestações e de violência, mas as pessoas me parecem acolhedoras e solidárias."

Ela conta que já era atriz ao fazer o papel que virou um tornant em sua carreira, uma reviravolta: a princesa Éowyn de O Senhor dos Anéis. "Tive de fazer teste para conseguir o papel. Na época, era um sonho maluco de Peter (Jackson). Um filme grande, que ninguém tinha certeza se ele conseguiria concretizar. Mas eu confiei. Já gostava de seus filmes, mas O Senhor dos Anéis era outra coisa, pelo tamanho do projeto. Só quando A Sociedade do Anel estreou e fez sucesso, acho que todo mundo, e o próprio Peter, pôde relaxar."

Miranda Otto conta que não representou muito contra fundos verdes nem azuis. "Havia um desejo grande de realismo por parte de Peter, e isso favorecia o elenco." Compara. Diz que a linguagem do cinema é universal, e certos procedimentos são os mesmos. Mas em Hollywood tudo é maior. "O fato de Flores Raras ser menor, até como produção, não significa que não tivemos recursos. Cada filme tem seu tamanho, e acho bom para uma atriz alternar projetos de diferentes magnitudes."

Quase foi também a Gramado para a apresentação do filme, mas teve de voltar à Austrália porque o marido tinha uma estreia e ela precisava cuidar da filha. "Temos nossas carreiras, mas o fato de sermos pais é uma atividade conjunta. Gostamos de ficar em casa, juntos, mas quando um tem compromisso, o outro trata de se adaptar. Darcey (é o nome da menina) nos acompanha quando é possível, mas está em idade escolar." Agora mesmo, Miranda divide-se entre EUA e Austrália.

"Estou em Los Angeles por algum tempo, fazendo uma série de TV. É sobre um advogado que tem muitas mulheres. Faço a ex." Diz que representar é a mesma coisa em qualquer mídia, mas como cada uma tem sua especificidade termina ficando diferente. "O teatro tem mais preparação prévia. No cinema, nos preparamos também, mas depois o processo é lento. A TV, mesmo nas séries, tem um ritmo intenso. Mas em cada mídia precisamos criar o personagem, desvendar seu interior. Minha personagem é frágil, mas se fortalece em Flores Raras. Lota, ao contrário, é a forte que se fragiliza. Para mim, o grande desafio é quando o diálogo não explica e as emoções fluem por olhares e gestos. Em Flores Raras, há muito disso. Em O Senhor dos Anéis, também. Sou abençoada por fazer aquilo de que gosto."

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