Sob o olhar dos que nos veem

Sob o olhar dos que nos veem

Tão logo terminou Insolação, no ano passado, Felipe Hirsch sentiu uma irresistível necessidade de "reorganizar a vida", como bem sublinha. "Retornei à Sutil Companhia do Teatro disposto a falar sobre as formas com que os homens se veem", conta. O resultado é a peça Cinema.

, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2010 | 00h00

Em cena, os personagens ocupam uma antiga sala de projeção, onde vão circular por estados emocionais diversos, por intermédio de poucos diálogos ? como na realidade, eles se revelam por meio de risadas, sustos e comentários involuntários. Depois da experiência atrás das câmeras, era inevitável que Hirsch utilizasse o cinema como uma metáfora para falar sobre o olhar. "É um espetáculo sobre identificação, sobre como você vê e escolhe o que ver. Somos a imagem de quem nos assiste, nós somos o cinema", acredita ele, pela primeira vez, não vai utilizar membros da Sutil ? preferiu selecionar 15 atores depois de abrir inscrições para testes e ter mais de 1.350 concorrentes.

Depois de criar cenários fenomenais, em tamanho e criatividade, como o que trazia ossada de um dinossauro em Os Solitários ou o enorme prédio de Avenida Dropsie, Daniela Thomas optou por um conjunto de malcuidados assentos de uma sala de cinema, dispostos diante do público. "As cadeiras que olham estão praticamente encavaladas com as que estão sendo observadas, pois poucos centímetros as separam", comenta a cenógrafa, notando uma mudança no curso da produção do diretor. "Com esse trabalho, Felipe, curiosamente, quebra sua rotina de sempre emoldurar a cena teatral como se fosse uma tela grande. Agora, é o teatro olhando para o cinema."

O trabalho com os atores foi minucioso, com o grupo assistindo diariamente a um grande filme (clássicos como 8 e ½, de Fellini, e O Desprezo, de Godard). "Selecionamos longas em que o ato de ver seria estimulado, no sentido racional, intelectual, emocional e sensorial", conta o diretor, que construiu a dramaturgia de Cinema a partir de mais de 600 exercícios criados em parceria com os atores.

Tal exercício fascina Daniela Thomas: "Enquanto o cinema é como a Fórmula 1, pois vive à mercê da eletrônica, o teatro é visceralmente humano." / U.B.

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