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Sob o edredom

George Orwell não foi, afinal, um mau profeta, foi apenas um profeta apressado. A sociedade controlada por um Big Brother que tudo vê e tudo sabe, que Orwell previu para 1984, só começou a existir, com os avanços da bisbilhotice eletrônica, há pouco tempo. Hoje sabemos que tudo que mandamos por e-mail ou falamos pelo telefone, mesmo que seja apenas notícia do furúnculo da vovó, pode estar sendo monitorado. Os americanos, principalmente, têm os meios para nos controlar completamente, todo o tempo, dia e noite. Não é mais o Big Brother, mas o Big Uncle, o grande tio do norte, de olho em todos nós.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2014 | 02h12

No livro de Orwell uma das funções do Big Brother é a de impedir o amor entre os cidadãos. O sexo tem que ser escondido, e é quase impossível esconder-se dos olhos do grande controlador. O que torna irônico o significado que "Big Brother" adquiriu com o tempo, como sigla de TV, em todo o mundo. Um dos atrativos do programa é o prazer do voyeurismo, o de ver o que acontece quando jovens dos dois sexos, e às vezes de três, são reunidos num clima de sensualidade exposta, e o sexo é tacitamente permitido, desde que embaixo do edredom. A distopia de Orwell, do estado onipresente, até na cama, se transformou na utopia do sexo sem restrição, em que em vez de se esconder das câmeras os competidores a procuram, para aparecer mais.

O Big Uncle não deve se interessar pelo que fazemos sob o edredom. A minha vida sexual eu tenho certeza que não causa nenhum frisson em Washington. Mas em todos os outros sentidos, a profecia de Orwell foi confirmada. 1984 finalmente chegou.

O beijo. Não sei se é verdade, mas ouvi que a discussão, na Globo, sobre autorizar o não o beijo gay na novela foi mais longa e difícil do que se imagina. Havia duas facções: a que defendia beijo de língua e a que só aceitava boca fechada. Só na última, tormentosa, reunião ficou decidido: boca fechada. O Brasil ainda não está pronto para a língua.

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