Sob chuva, Ozzy domina o Anhembi

Qual ídolo do rock é capaz de ganhar a noite em trinta segundos? A resposta estava no coro dos fãs que lotaram a Arena Anhembi no sábado para testemunhar, pela segunda vez em dois anos, o extraordinário sacerdote do metal, Ozzy Osbourne.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2011 | 00h00

"How the fuck are you all doing?" é a punch line boca suja de Ozzy ao subir ao palco. A frase é despojada, de timing certeiro, algo digno dos melhores momentos de Kramer no programa Seinfeld. Ateia fogo à plateia e mostra de cara que Ozzy está pouco interessado nos aspectos vaidosos de uma apresentação de rock. O que o roqueiro quer nunca foi claro mas suas palavras resultam em uma conexão imediata com o público.

Ao vivo, é fácil compreender por que o reality show The Osbournes, que retratava a vida intima do roqueiro fez tanto sucesso. As faces do carisma osbourniano não param por aí. A maneira desajeitada com que transita pelo palco, como um velho rabugento que sai à sacada para reclamar do barulho da vizinhança, só melhora com a idade. Quando resolve fazer polichinelos então, o "Príncipe das Trevas" se transforma em um personagem completamente afável e a vontade é nada menos que de abraçá-lo.

Isso tudo ao som de Fairies Wear Boots, War Pigs, Paranoid, e outros clássicos do metal interpretados com virtuosismo pela banda. Ozzy, que para o delírio da galera despejou um balde d"água sobre sua cabeça ao ver os primeiros minutos do toró que encharcaria tudo e todos na noite de sábado, é de longe o mais verdadeiro.

Em contraponto à sua brejeirice, a banda tem o badalado guitarrista grego Gus G, um ás do metal com kit completo: guitarra igual à logomarca do Hollywood Rock, solos perfeitos e madeixas graúdas que voam para trás com um ventilador ligado pela produção toda vez que o guitarrista frita seu instrumento. Gus, que se juntou a Ozzy depois da saída, em 2009, do conhecido Zakk Wylde, reinterpreta, em grande parte, os solos de Tony Iommi e Randy Rhodes, um dos pais da guitarra metal que fez história nos primeiros discos solo de Ozzy. Os solos de Gus são executados à velocidade da luz com perfeição milimétrica e o relinchos e derrapes da guitarra metal, interjeições características do estilo. Mas o que sobra em técnica falta em alma para o guitarrista. Quando foge do script, Gus se dá mal, como aconteceu na metade do show, em que fez um longo solo e tentou agradar a plateia com um trecho de Brasileirinho. Waldir Azevedo quase saiu do túmulo para dar-lhe um safanão.

Melhor quando holofotes estão sobre Ozzy, que poderia ter assassinado Aquarela do Brasil em versão heavy metal que, ainda assim, teria sido ovacionado pelos fãs. O show começou (adivinhem) pesado e a sensação era de que isto se sustentaria até o fim, com pouca dinâmica. Mas lá pelas tantas, em Suicide Solution, a sexta música, Ozzy se empolgou e elevou o impacto das músicas. Depois do solo de Gus G, foi a vez do baterista Tommy Clufetos mostrar serviço enquanto Ozzy descansava. Quando voltou, foi a vez de Iron Man, do Black Sabbath. Como em todas as releituras da banda, faltou a sujeira do metal antigo.

A mais mansa I Dont Want to Change the World, um veículo para o lado mais sentimental do cantor, aliviou o excesso de peso e deu vez aos momentos mais memoráveis de anteontem. Com Paranoid e Mama Im Coming Home o bis chegou a ser tocante (em parâmetros heavy metal). Mama foi cantada em coro pela multidão e só não se acendeu um mar de isqueiros porque a chuva não deixou.

Ao mesmo tempo que faz palhaçadas, Ozzy é capaz de ser completamente assustador, como faz em Mr. Crowley. Nos momentos em que fecha os olhos e cruza os braços, como um vampiro em repouso no caixão, o cantor se transforma em uma criatura do mal que parece ter saído de um filme B.

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