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Sob as ordens da Rainha

Era um daqueles dias em que tudo, absolutamente tudo dá errado numa redação de jornal, das pautas que a realidade dos fatos vem desmantelar à secretária que faltou sem dar satisfação

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2018 | 02h00

Era um daqueles dias em que tudo, absolutamente tudo dá errado numa redação de jornal, das pautas que a realidade dos fatos vem desmantelar à secretária que faltou sem dar satisfação. 

Em sua mesa, o editor-chefe, Murilo Felisberto, esfregava as mãos nervosamente, e só abriu o bico para declarar, com sua voz miúda, fazendo a delícia da galera em torno:

– Hoje, se tudo correr bem, eu me f...!

*

Falecido em maio de 2007, aos 67 anos de idade, Murilo Agostini Felisberto deixou pegadas nítidas na imprensa brasileira, em especial no Jornal da Tarde, do qual, sob o comando de Mino Carta, foi secretário desde o primeiro número, em janeiro de 1966, subindo a editor-chefe quando Mino, em 1968, saiu para fazer a Veja. 

Lembrado sobretudo por suas ousadias de designer gráfico, capazes de dar ao JT uma cara inédita na imprensa diária do País, aquele mineiro de Lavras tinha um punhado de outros talentos – entre eles, um senso de humor rascante, não raro vitriólico, do qual a historinha acima é apenas uma ilustração. 

Mais uma? 

Num começo de noite, chegando à redação, Murilo ouviu do secretário Ivan Angelo a notícia de uma tentativa de suborno:

– Hoje tentaram comprar um repórter nosso.

– Quem? – quis saber o recém-chegado. E, ao ouvir o nome, fechou negócio:

– Vende! vende! vende!

*

Quase meio século se passou desde que conheci Murilo Agostini Felisberto, para seus subordinados “a Rainha” – e ainda posso ver sua figura brevilínea e seca, as costas recurvadas, os cabelos alvoroçados numa gaforinha precocemente embranquecida, óculos de aros ovais dourados empoleirados no nariz adunco, sardas pintalgando a pele muito clara – tão clara que inspirou uns versos quando uma febre de haicais irreverentes assolou a redação: O pinto da Rainha/ é branco/ como farinha. Ao vê-lo entrar na redação da rua Major Quedinho, como sempre sobraçando publicações estrangeiras, nosso colega Toinho Portela cravou, para deleite de uns poucos: “A Rainha e sua coroa de arminho!”. 

Inesquecível, também, o dia em que fui lhe entregar meu convite de casamento. Era nula a intimidade entre o editor-chefe e o jovem copydesk – redator – da editoria de Variedades, que entre seus pares figurava em modesto escalão intermediário (fosse eu uísque Johnny Walker e seria um Red Label). 

Até entrar na sala envidraçada de Murilo Felisberto – pela primeira vez desde que lá chegara, ano e meio antes, em maio de 1970 –, eu tinha a pretensão de achar que o convite, concebido por um amigo artista plástico, seria do agrado daquele craque das artes gráficas. 

Arranchada em seu trono, a Rainha examinou o impresso demoradamente, avaliou com a polpa dos dedos a gramatura do cartão – e quando abriu o bico, foi para desfiar uma crítica tipográfica de minhas bodas: teria sido melhor usar papel do tipo tal, e uma fonte menos pesada para o texto, que de quebra estava mal alinhado. Só faltou dizer: no próximo casamento, trate de providenciar coisa melhor. 

Já ia saindo, desacorçoado, quando Murilo me recomendou, subitamente enfático:

– Não tenha filhos! É o maior problema na hora da separação!

*

Sem fazer pouco da linguinha viperina, tão temida quanto elogiada, o maior dos talentos de Murilo, como ficou dito, era o de designer, criador de belas, antológicas páginas. Na certa para épater le bourgeois, chegou a dizer que detestava notícia, gostava mesmo é de “frescura”. 

Nunca me pareceu que se interessasse por política, e me pergunto se tinha em mente cutucar a censura sob a qual vivíamos quando desenhou, no fundo de uma página, de alto a baixo, uma tesoura aberta.

Coube a mim o pesadelo de fechar a matéria, sobre o declínio do ofício de alfaiate. Num tempo em que não havia computadores que o fizessem por nós, foi preciso providenciar folhas de largura dupla, e mandar vir, do departamento de contabilidade, máquina de escrever de carro grande, capaz de acomodá-las. Aplicado nos dois ângulos da enorme tesoura aberta, o texto, qual areia de ampulheta, deveria começar com linhas largas que se afunilariam rumo ao vértice, para, transposto o gargalo, se encompridarem progressivamente. Tormento adicional para este redator: nada de divisão silábica. No beco estreito dos dois ângulos, um monossílabo já seria por demais comprido. 

Ficou uma beleza, veio elogiar Murilo no dia seguinte. Falava, quem duvidaria?, do que para ele mais contava, o visual. Quando o designer e tipógrafo americano Herb Lubalin esteve no Brasil, nos anos 70, nosso chefe quis fazer bonito aos olhos do colega, e, para a matéria que anunciou a chegada da sumidade a São Paulo, recorreu a tipologia criada pelo visitante, nunca antes nem depois utilizada no Jornal da Tarde. 

Seu rigor não era menor em se tratando dos usos e costumes do bom jornalismo. Certa vez, recebi convite para secretariar um congresso de bancos, freelance que em uma semana me renderia mais que o salário mensal. Sendo impossível acumular tarefas, fui pedir a Murilo que me liberasse por uns dias – e ele: nem pensar! A prioridade era o jornal que me empregava. No fim do mês, a surpresa de um aumento no holerite. 

Houve um momento, bem mais adiante, em que Murilo Felisberto reagiu como criança amuada ante algo que eu fizera. Foi quando, em 1992, publiquei O Desatino da Rapaziada, livro em que há uma passagem sobre os começos do Jornal da Tarde. Um colega veio me dizer que a Rainha se magoara comigo. Mas por quê?, me espantei, certo de o haver tratado bem no Desatino. É que eu lhe dera menos refletores que a seu ex-pupilo e substituto Fernando Mitre. A Rainha, disse o outro, por pouco não fez beicinho:

– No livro eu apareço duas vezes, e o Mitre, cinco! 

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