Sob a capa do humor, um veio crítico fino e sempre muito eficaz

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

16 de março de 2012 | 03h09

O Vaticano já foi cenário de coisas pouco santas, como as intrigas da Guerra Fria em As Sandálias do Pescador, ou mesmo palco de crimes hediondos, como na terceira parte de O Poderoso Chefão, em que um papa é assassinado. Nunca, no entanto, serviu de cenário para a humanização maior de alguém ungido pela infalibilidade como neste Habemus Papam, de Nanni Moretti.

Como a Igreja não gosta que mexam com seus dogmas, alguns religiosos protestaram contra Moretti, assim como fizeram com o muito mais inofensivo O Código Da Vinci. No caso de Habemus Papam, a Igreja, do seu ponto de vista é claro, até que tem razão. Isso porque o filme, se por um lado pode ser visto, de maneira um tanto superficial, apenas como uma comédia dramática às vezes divertida e outras vezes tocante, no fundo traz um veio crítico nada desprezível.

A história é a de um conclave, reunido para escolher o novo papa após a morte do anterior. Penetrar na pompa desses bastidores eclesiásticos, com toda a força das imagens, é um dos méritos de Moretti como diretor experimentado, no auge de sua capacidade formal. A força das imagens é tamanha que mesmo leigos talvez fiquem impressionados com a religiosidade que delas emana.

O efeito é grandioso, porém enganador, porque Moretti, sábio e astuto como apenas um artesão de longa prática sabe ser, começa logo a movimentar as peças que corroem a engenhoca cerimonial por dentro. A principal delas, uma fina ironia que faz com que toda pompa e circunstância comecem a parecer irrisórias. Risíveis, no limite; mas é bom que se diga que a delicadeza do diretor não lhe permite uma galhofa irresponsável. Sua estratégia é apenas, digamos assim, descorar um pouco a púrpura dos cardeais e desidratar-lhes a postura demasiado composta. Em uma palavra, ele humaniza os sacerdotes evidenciando suas fraquezas, ciúmes, desejos de poder, tédio e medo.

A aplicação dessa estratégia de desmistificação se dá sobre todos os personagens, de maneira geral, mas é ainda mais intensa sobre o protagonista, o cardeal francês que, para sua surpresa, acaba eleito por seus pares para ocupar o trono de Pedro. Aceita, mas a responsabilidade lhe pesa demais. Um psicanalista ateu (o próprio Moretti) é convocado para ajudar o novo papa a vencer a sua inibição.

Um homem aceita um cargo e, ato contínuo, descobre-se incapacitado. Tivesse ele um emprego comum e daria um passo atrás, sem qualquer problema. Renegociaria a sua promoção ou, no limite, pediria demissão da empresa e iria repensar a vida num resort no Sul da Bahia, digamos. Fica mais difícil para um papa. Não apenas pela expectativa despertada em milhões de pessoas, mas porque, ao aceitar, seu nome se reveste da aura santa da infalibilidade. Ora, como conciliar o poder do infalível com a fragilidade extrema do homem? Dessa contradição, nasce uma situação dramática pouco comum.

Por outro lado, a veia cômica de Moretti faz com que a dramaticidade da situação seja temperada por um humor de primeira, refinado e nunca óbvio. Ele próprio faz o psicanalista também cheio de problemas com sua mulher e que deverá consertar a cabeça do novo pontífice. Para isso, permanecerá no interior do Vaticano, com os cardeais do mundo inteiro durante tempo indeterminado. Não saem por uma questão de segurança. O mundo não pode saber do drama íntimo que está se passando no interior dos muros sagrados. E, desse modo, Moretti terá a ideia de proporcionar aos seus colegas cardeais algum tipo de entretenimento, para passar o tempo. O espectador verá por si em que consiste essa diversão terapêutica.

Tudo é muito bom em Habemus Papam, do roteiro imaginativo às imagens excepcionalmente bem construídas por Moretti. Mas, se tivermos de observar o filme em seus elementos, nada supera a interpretação marcante de Piccoli, patético e intenso, em sua pungente humanidade de alguém escolhido para uma tarefa acima de suas forças. Deve-se dizer que o filme, sendo de Moretti, atira também em outras direções. O da fábula da moral psi: como submeter à psicanálise, técnica baseada na sinceridade completa consigo mesmo, alguém cuja subjetividade é vigiada por toda a estrutura eclesiástica? Fábula de moral política: num mundo em que todos, de alguma maneira, desejam o poder, como considerar alguém que o recusa? Fábula do absurdo: por que não envolver toda a comunidade eclesiástica num animado torneio de vôlei enquanto os pilares do seu mundo bambeiam?

Essas propostas distintas, por vezes contraditórias, entre o riso, a reflexão séria e a compaixão humana, se entrechocam e se comentam neste brilhante Habemus Papam.

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