"Sob a Areia" chega às locadoras

No desfecho de Oito Mulheres, o belo filme de François Ozon ainda em cartaz nos cinemas da cidade, a veterana Danielle Darrieux canta Il n?y a pas amour heureux. É bom prestar atenção naquela letra: não existe amor feliz. É o tema que percorre a obra do diretor Ozon. Está em Gotas d?Água em Pedras Escaldantes, em Sob a Areia e agora no policial musical do diretor. Gotas d?Água baseia-se numa peça de Rainer Werner Fassbinder, Sob a Areia tem sua origem no que se chama de "fait divers", um fato ocorrido na infância de Ozon e que o marcou para sempre.Ele passava férias com os pais, na praia. E, de repente, a família inteira ficou aflita com os gritos de uma mulher cujo marido havia desaparecido. Simplesmente, ele se evaporou na praia. Morreu no mar, fugiu? Ozon nunca soube o desfecho do caso, mas a angústia daquela mulher permaneceu com ele. Forneceu-lhe o ponto de partida para Sob a Areia. A mulher é Charlotte Rampling, bela na maturidade dos seus 60 e tantos anos. Ela chega à praia com o marido, Bruno Cremer. Ela adormece na areia, sob o sol, e o marido desaparece. Começa um pesadelo.Terá o marido morrido? Como o corpo não aparece, ele não pode ser considerado legalmente morto. A lei exige um certo tempo para isso. Não é só o estatuto legal que se abate sobre a personagem de Charlotte. Sem um corpo, ela não consegue realizar o luto e, sem a realização desse luto, por mais doloroso que seja, o marido permanece vivo, como um peso, para ela. Impede-a a relacionar-se com outro, ou outros. Para desconcerto dos amigos, ela age e pensa como se o marido estivesse vivo - e fosse voltar daqui a pouco. Quando finalmente vai para a cama com outro homem, tem uma crise de riso. Ele quer saber o que houve. Ela diz que não pode deixar de comparar seu peso, sobre ela, com o do marido. E ele é muito leve. Leve, como? O marido era mais gordo, pesava mais sobre ela. Esse peso não é só físico, é metafórico, também.E ainda começa a dúvida. E se o marido tivesse outra, se tivesse fugido para reconstruir a vida? É tudo vago, tudo nebuloso. De concreto mesmo, só a angústia e a infelicidade de Charlotte. Numa entrevista para o Estado, Ozon disse porque a escolheu para o papel: precisava de uma mulher madura que fosse bela e desejável. Charlotte possui esse perfil. Foi um mito dos anos 1960 e 70, participando de filmes como Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti, e O Porteiro da Noite, de Liliana Cavani. Dois filmes sobre (e contra) o nazismo e o segundo provocou polêmica porque Charlotte fazia uma judia que mantinha uma relação sadomasoquista com o oficial de um campo de concentração e agora identifica o homem no porteiro no hotel em que está, com o marido.Sob a Areia é um belo filme e outro grande papel para Charlotte Rampling. Depois dele, Ozon não teve dificuldade para cooptar as estrelas de Oito Mulheres. Todas passaram a acreditar nele como diretor de mulheres.Sob a Areia (Sous le Sable). França, 2000. Direção de François Ozon. Vídeo e DVD (R$ 42) da Imagem.

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