Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Só tinha de ser música

Faz cerca de quatro anos que o cineasta Nelson Pereira dos Santos vem trabalhando em dois aguardados projetos envolvendo a música de Tom Jobim. Um deles é totalmente musical, o outro são histórias sobre sua vida. A seguir trechos da entrevista concedida pelo diretor ao Estado, na noite de sexta-feira em São Paulo, em que fala dos dois filmes.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2011 | 00h00

O sr. havia dito que A Música Segundo Tom Jobim seria basicamente de números musicais com eventuais depoimentos. Como ficou a versão final?

Originalmente o projeto seria dividido em três atos, cada um concentrando as canções de acordo com o tema. O primeiro seria o Rio de Janeiro, o segundo seriam as mulheres a quem o Tom dedicou canções e o terceiro, a natureza. Ia fazer com intérpretes de hoje cantando essas canções com uma pequena apresentação de Chico Buarque sobre cada ato. Mas depois pensamos em procurar pessoas importantes que cantaram Tom Jobim e decidimos fazer um filme de montagem, utilizando imagens de arquivo. Então ficou assim, seguindo mais ou menos a cronologia da criação dele, a partir do momento da peça Orfeu da Conceição, que depois virou filme. Cada canção tem alguma informação visual rápida sempre para situar o momento da história, mas evitando a versão jornalística dos fatos. Então tem todos grandes os intérpretes brasileiros e internacionais.

Tem Frank Sinatra? Pergunto isso por causa da questão de direitos sobre imagem...

Sim, evidentemente. Frank Sinatra não poderia ficar de fora. Então, por causa dessa questão de direitos de imagens, o filme acabou custando o dobro do projeto inicial, que seria de R$ 2 milhões. Nunca tinha trabalhando assim antes, precisando fazer remessa internacional de valores. São 33% para a Receita Federal. Mas valeu a pena, pelo elenco do filme ficou barato, tenho até vergonha de dizer. Parece mentira.

Nos anos 1980, o sr. realizou uma série para a extinta TV Manchete, com esse mesmo nome, que teve momentos antológicos de Tom. Que destino teve esse material com o fim da Manchete?

Foi tudo destruído. Só não se perdeu totalmente porque algumas pessoas fizeram gravações caseiras em VHS. Paulo Jobim tem esses programas gravados e vem providenciando a recuperação de áudio e vídeo. É importante que isso volte a ser visto pelo público. Usei um trecho desses programas no outro filme (A Luz do Tom), em que entra a voz de Tom, depois Dorival Caymmi, Villa-Lobos.

Poderia lembrar um pouco como eram esses programas?

Era o Tom contando a história da música brasileira, especialmente carioca. Ele na casa dele, tocando piano, recebendo amigos, como Radamés Gnatalli, Dorival Caymmi, Chico Buarque, acompanhado por Dori Caymmi no violão e Danilo Caymmi na flauta, e sempre rolando uma conversa totalmente improvisada. Era tudo muito espontâneo, eu trabalhava com muito conforto, com três câmeras, gravava direto. Perdi o emprego por causa disso porque a Cora Rónai escreveu que era o primeiro programa inteligente da televisão brasileira. Ninguém mais me quis (risos).

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