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Só rindo

Trump fez promessas autoritárias, inclusive a de tentar mudar leis que regulam calúnia na imprensa

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2016 | 02h00

"Organizadores de um protesto em massa durante a posse anunciaram no sábado que pretendem cercar a Casa Branca para impedir o presidente Barack Obama de ir embora.”

Não se trata de mais um caso de falsa notícia difundida como fato, e sim de exemplo do humor de Andy Borowitz, o satirista de plantão na revista New Yorker.

A um mês da posse e com as revelações diárias sobre a subversão de tudo o que se espera em decoro e compostura de um presidente eleito e sua equipe a ponto de receber as chaves da Casa Branca, a palavra surreal está na boca do público. Mas, ao contrário dos exemplos dados pelo bilionário da 5.ª Avenida com seu desprezo por fatos, a realidade está cada vez mais próxima no espelho retrovisor. 

“Os americanos vivem um trauma coletivo?”, perguntava a manchete do New York Times de domingo. Como enfrentar os próximos quatro anos?, indaga a mídia, enquanto consulta terapeutas e sociólogos. Mas há outros curandeiros eficazes em atividade: os humoristas. A sátira política é uma ferramenta de sobrevivência em tempos autoritários e os comediantes norte-americanos dão sinais de que vão honrar a tradição.

O humor é o inimigo do ditador. Uma das primeiras providências do sanguinário presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi, ao dar um golpe de estado em 2013, foi tirar do ar e, em seguida, prender Bassem Youssef, conhecido como o “Jon Stewart do Egito.” Apesar de ter obtido liberdade condicional, Youssef se mudou para os Estados Unidos e faz sátira política na rede Fusion.

O progressivamente tirânico Recep Tayyip Erdogan provocou um incidente internacional porque o comediante Jan Böhmermann leu um poema cheio de insultos à sua pessoa na TV alemã. Promotores de Hamburgo recusaram o pedido de Erdogan de processar Böhmermann criminalmente.

Em campanha, Donald Trump fez várias promessas autoritárias, inclusive a de tentar mudar leis que regulam calúnia na imprensa. Além de não ter senso de humor, o presidente eleito é notório por se expor ao ridículo indo atrás do que o criticam. Quem se lembra da cena deplorável de Trump levantando suas mãos num debate para provar que elas não são pequenas e, por conseguinte, seu equipamento sexual também não seria?

A saga das mãos de Trump se arrasta há 30 anos, desde que Graydon Carter, editor-chefe da revista Vanity Fair, descreveu o bilionário na defunta revista Spy como um short-fingered vulgarian (vulgar de dedos curtos). Carter conta que passou a receber de Trump fotos de suas mãos com os dedos destacados em tinta dourada.

Aos 70 anos, o homem que vai assumir o controle dos códigos nucleares estaria mais ponderado? Nem pensar. Na semana passada, a Vanity Fair publicou uma resenha hilariante classificando o Trump Grill, o restaurante no saguão da Trump Tower, como possivelmente um dos piores do país. O homem que diz não ter tempo para receber briefings de inteligência estava logo a postos no Twitter prevendo a demissão de Carter e a morte da Vanity Fair. A revista bateu recorde de novas assinaturas no mesmo dia.

Por que o humor atazana o déspota? Porque frustra a tentativa de despertar medo. Trump vai ter um assustador arsenal de intimidação com as duas casas do Congresso controladas por seu partido, mas não terá o poder de um Sisi ou um Erdogan.

Ironicamente, o mais pesado fogo de artilharia satírica vem da NBC, rede que emprega Trump e exibe o Saturday Night Live. O presidente eleito vai continuar como “produtor executivo” do Celebrity Apprentice, a partir de janeiro sob o comando de Arnold Schwarzenegger. 

O SNL do último sábado estava especialmente mordaz, com Trump ridicularizado por um Vladimir Putin sem camisa. Depois de ter criticado antes no Twitter a imitação feita por Alec Baldwin, desta vez, o presidente eleito manteve, quem sabe se à força, os dedinhos fora do teclado.

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