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Só queremos casa, comida e liberdade

Ao ser preso e torturado, Ramy Essam se torna herói da revolução árabe, grava CD e sai em turnê para alertar: mais sangue será derramado

BOLÍVAR TORRES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h07

Quando estouraram os primeiros protestos na Praça Tahir, em janeiro do ano passado, Ramy Essam era apenas mais um entre os milhares de jovens anônimos que se reuniam para gritar seu descontentamento contra a ditadura de Hosni Mubarak. Estudante de engenharia civil e músico numa banda desconhecida, trazia o violão debaixo do braço para acompanhar os gritos por liberdade. Ele estava no lugar certo, na hora certa. Em um momento de súbita inspiração, escreveu a canção Arhal (Vá Embora), um aviso direto ao regime que rapidamente se tornaria o hino da Primavera Árabe, amplificando a mobilização.

Os versos se espalharam por todo o Egito, ganharam milhões de visualizações no YouTube e suas performances no palco permanente instalado na praça o transformaram, da noite para o dia, em uma das estrelas da revolta. A revista inglesa Time Out chegou a relacionar Arhal em terceiro lugar num ranking das músicas que mudaram o mundo, à frente do Imagine, de John Lennon. Ao ensaiar os primeiros acordes, porém, o cantor de 24 anos não tinha ideia de que estava prestes a mudar a história do seu país.

"Eu apenas transformei em canção os slogans de protestos da Praça Tahir", diz Essam com modéstia. "Fiquei surpreso com a reação das pessoas. Era a primeira vez que cantava para um público tão grande."

Apesar do seu inglês precário, Essam prefere fazer a entrevista por telefone, para que se possa captar "seus verdadeiros sentimentos". O cantor, que lança seu primeiro álbum, Manshourat, dia 12 de abril, treinou o idioma depois de fazer uma turnê pela Inglaterra e pela África do Sul.

O engajamento de Essam lhe rendeu fama e prêmios internacionais, como o Freemuse, dedicado a figuras maiores na luta pela liberdade, mas também cobrou preços altos. Na fatídica Quarta Sangrenta, data em que as forças do regime apertaram o cerco sobre os manifestantes, Essam foi atingido por pedras na cabeça. Na mesma noite, fez uma apresentação histórica com o rosto coberto de gazes, diante de uma plateia também repleta de cicatrizes e feridas. Em março de 2011, quando participava de mais um protesto após a queda de Mubarak, Essam foi sequestrado durante quatro horas pelo governo militar de transição, que ainda se mantém no poder. Agora, estava no lugar errado, na hora errada.

"Eles me machucaram feio. Saltaram nas minhas costas, tiraram minha roupa, cortaram meu cabelo e bateram na minha cabeça. Depois me bateram com varas e me torturaram com choques elétricos", conta com voz calma, sem perder o humor: "Tinham me reconhecido, e acho que não eram grandes fãs da minha música."

Apesar do trauma, Essam não se recolheu. Numa provocação aos militares, expôs na internet fotos do seu corpo torturado e voltou a cantar na Praça Tahir. Como bom cantor de protesto, precisou adaptar sua música ao novo contexto político. Sua primeira apresentação depois da fama mostrou a agilidade com que é capaz de capturar os anseios do momento: poucos dias depois de estourar com Arhal, Essam estava no palco pronto para entoar seu hit. A massa da Praça Tahir, contudo, interveio aos gritos - chegara a notícia de que Mubarak acabara de renunciar. O cantor precisou de apenas dois minutos para compor uma nova letra sobre o Egito pós-Mubarak, e apresentá-la para a plateia em êxtase.

"Hoje posso dizer que a música política fez a minha carreira", admite o cantor. "Acredito na revolução através da música e acho que é uma honra para qualquer artista ajudar a iniciar uma revolução. Antes, eu achava que tinha limites, mas depois do que aconteceu, perdi o medo. Espero que a partir de agora mais músicos no país possam falar sobre o que sentem no coração."

Com a queda do ditador, mudaram os focos de protesto. O novo desafio é formar um estado civil. Em 2012, vieram novas manifestações, novos mortos, novos problemas. A massa passou a se reunir em frente à sede do governo militar, exigindo a liberação dos presos políticos e clamando por reformas. Agora, Essam escreve refrãos sarcásticos sobre o regime provisório e canta sobre as mazelas do cotidiano: a falta de pão, de liberdade, de justiça social.

"O regime atual roubou nossa revolução", avalia. "O nosso sentimento é de que precisamos de uma nova revolta. Não sei quando ela acontecerá, se este ano ou se daqui a dez anos. Na primeira revolução, não tínhamos experiência, mas agora estamos mais fortes. Se insistirem em tirar nossa liberdade, seremos milhões na praça novamente."

Essam é a prova e a esperança de que um novo Egito está nascendo. O próprio cantor admite que, antes da revolução, artistas não podiam dizer o que dizem hoje. A liberdade, porém, ainda é limitada, e se restringe principalmente à internet, onde Essam afirma que pode cantar "sobre quase tudo". Quando indagado sobre o que quer para o seu país, ele é sucinto: "Só queremos direito a casa, comida e liberdade."

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