No intervalo entre um trabalho e outro, a editora de moda Olívia folheia revistas em uma típica banca de rua de Paris. Poucas horas depois, acorda em uma suíte de hotel e observa a paisagem. Algumas noites à frente, toma um taxi em Londres, à procura de um hotel, onde bebe um drink no bar. Na manhã seguinte, acorda em mais uma suíte com vista para o movimento da cidade. Mais algumas noites e alguns dias à frente, acorda em uma suíte suntuosa de Veneza. Está, como sempre, atrasada. Pela cidade fria, Olívia caminha apressada, arrastando sua mala, que já se tornou sua casa ambulante. Mais uma vez, ela se prepara para dormir e acordar em uma cidade diferente.

16 de fevereiro de 2014 | 02h12

Para a protagonista de Latitudes, o filme, muitas vezes é mais estranho voltar para casa do que levar a pequena mudança de um aeroporto a outro. Olívia já não se lembra em que cidade comprou uma certa revista, em qual escolheu qual drink, que tipos viu na rua. Seria em Londres? Veneza? Buenos Aires? As imagens se confundem e a memória se fragmenta. "Só quem viaja entende isso", diz a atriz Alice Braga. "Você já teve a sensação de acordar e não saber onde está? De não saber onde viu algo? Eu sou a rainha de fazer isso", diz ela, que dá vida à Olívia em Latitudes.

Já exibido no YouTube e no canal TNT como série, o projeto estreia no formato de longa-metragem em 28 de fevereiro em São Paulo e 14 de março no Rio. "Olívia está sempre confundindo lugares, referências... Eu, que vivo viajando de um set a outro, de um país a outro, entendo muito bem isso", contou a atriz em conversa com o Estado, alguns dias antes de se preparar para mais uma viagem. "Desta vez vou para Iguape, filmar o novo longa do José Eduardo Belmonte, com Ingrid Guimarães, Fábio Assunção, Maria Flor e Carol Abras", conta ela, que também é coprodutora de Latitudes.

Primeiro projeto transmídia do Brasil, estrelado por Alice e Daniel de Oliveira, o filme chega aos cinemas seis meses depois de a série estrear no YouTube (youtube.com/latitudesfilme), e na TV, no canal TNT. "Ainda não sabemos com quantas cópias, pois, vamos estrear aos poucos em diversas cidades. Mas já sabemos que temos público considerável que já viu a série na internet e que quer ver o filme no cinema", informou o diretor Felipe Braga.

A julgar pelos números de espectadores online, mais de 2,5 milhões, o filme tem boas chances de fazer seu púbico no cinema. "Curiosamente, quem viu na web também quer, segundo pesquisas realizadas, ver no cinema. Isso é algo novo para nós. Aliás, neste projeto, tudo é novo", acrescentou Felipe. "O interessante é que o filme tem outro formato. Apesar de ser parte do projeto desde o início, não é um resumo da série, mas outro produto. É bom ver isso", disse a atriz.

Deslocamentos. Com uma nova montagem, que faz uso criativo da imagens captadas em tempo enxuto (a equipe filmou em sete cidades em seis semanas), Latitudes consegue o feito de se transpor para a tela grande. "Desde o início, quando escrevi o roteiro, pensava no filme. Mas queríamos também explorar os outros formatos, experimentar novas formas de chegar aos mais variados públicos. E também ir além da fórmula da lei de incentivo quando o assunto é fazer cinema", acrescentou Felipe.

Assim como na série, Latitudes conta a história de um casal improvável, mas verossímil em tempos de globalização e 'era da conectividade'. Olívia é esta editora de moda que viaja pelo mundo à procura de tendências, seguindo desfiles e se hospedando em hotéis luxuosos. Daniel de Oliveira é José, fotógrafo prestigiado que também circula pelo globo clicando editoriais. Entre cidades como Porto, Buenos Aires, Londres, Veneza, José Ignácio, Istambul e São Paulo, o relacionamento deles avança, mas também tropeça. E são as suítes em que se hospedam, aeroportos, estações de trem, ruas e restaurantes que servem de palco para este mundo global e, ao mesmo tempo, intimista. "Quisemos passar, mais do que a questão geográfica, o mundo interior deles, a história de amor, que perpassa cada um dos lugares", diz Alice.

Para isso, além do roteiro afiado de Felipe, a edição fragmentada, tanto quanto as imagens das memórias de José e Olívia, traduz o sentimento de deslocamento dos personagens. "Na hora de editar o longa, tomamos cuidado de, para não ser uma experiência só de formato, não usar como ponto de partida os episódios que já foram ao ar", conta o diretor. "Realmente pegamos o material bruto e editamos do zero. Eu tinha uma noção mais clara do que seria o longa, antes de fazer a série."

Para Alice e Felipe, o tema de Latitudes não é o deslocamento, físico, mas emocional. "É a obsessão pelo outro. Não no sentido doentio, mas sim no de quem não consegue fazer outra coisa porque se está pensando em alguém o tempo inteiro", dizem. "É estar do outro lado do mundo e o rosto da pessoa não sai da cabeça", comenta Alice.

Para criar esta falta de lugar no mundo, a montagem usa planos diferentes e cortes que vão, secamente, de uma cidade a outra. "Não importa em que canto do mundo estão. Eles são protagonistas de uma história de amor. Por isso, na segunda metade do longa, radicalizamos e não há mais transição. É um momento só. Há a sensação de angústia de passar pelos países", diz a atriz, que já rodou o mundo entre sets de sucessos como Cidade Baixa (Salvador), Ensaio Sobre a Cegueira (Toronto e São Paulo), Elysium (Vancouver e EUA), o inédito Kill Me Three Times (na Austrália), com direção de Kriv Stenders , com Sullivan Stapleton, entre outros. "Desta última vez, foram três meses na Austrália. Já tenho minha família australiana", brinca. "Mas minha base é São Paulo."

Assim como quem viaja sempre precisa ser criativo para construir sua casa com os elementos que têm à mão, a equipe reduzida de Latitudes (pouco mais de dez pessoas) teve de usar a criatividade para se usar o pouco tempo disponível para extrair o máximo de cada lugar. "Este é um projeto que adorei fazer. Eu, que já estive em equipes imensas, desta vez fiz minha própria maquiagem, ajudava a cuidar também do figurino... Foi uma grande experiência. E, por conta do orçamento mínimo (totalmente sem verba de lei de incentivo), se não fosse assim, na guerrilha, não teríamos feito", analisa a atriz, que, para falar desta experiência em 360º, foi convidada para mediar uma mesa de debates sobre projetos transmídias no Rio Content Market, mercado internacional focado na produção de conteúdo multiplataforma que ocorre no Rio de 12 a 14 de março. "Acredita que estou ansiosa? Nunca fiz. Então, vou atuar", brincou Alice. "Na verdade, vou estudar bastante o assunto. Estamos vivendo uma fase de mudanças, em que o modo de ver uma série, um filme está mudando. Eu mesma vi Amores Roubados no meu celular. Ainda há muito o que aprender."

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