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Ignácio de Loyola Brandão
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Só que agora sei o que fazer

Um grupo que se formou no colégio, 50 anos atrás, decidiu se encontrar e celebrar minha minha eleição para a Academia Brasileira de Letras

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2019 | 02h00

O que vou sentir amanhã em Araraquara, quando entrar na Escola Estadual Bento de Abreu, EEBA, onde estudei entre 1948 e 1956?

Deveria ter saído em 1954, mas fui reprovado duas vezes no científico, porque naquela época, sem os Weintraubs e as Damares, ignorantes, delirantes, obtusos, ou se estudava, ou vinha reprovação. Não pensem que era uma escola risonha e franca. Nada disso, era pauleira mesmo. Uma coisa sei, vou pensar muito sobre o ontem e o hoje, mais interessado no hoje e no amanhã.

Acontece que um grupo que se formou no colégio, 50 anos atrás, decidiu se encontrar e nesse encontro tiveram a ideia de me convidar, lembrando minha eleição para a Academia Brasileira de Letras. Eu tinha reclamado, mas não sabia que a turma preparava em segredo a festa que vai ter placa. 

No meu tempo, era Ieba, Instituto de Educação, e funcionava em outro prédio, no centro da cidade, hoje Casa de Cultura Luís Antônio Martinez Corrêa. Daqueles professores algum estará vivo? Jurandyr, de Português; Ulisses, de Matemática; Ergilia, de Ciências; Candida, de Desenho; Cidinha, de História; Machadinho, de Química; Teresa e Daisi Pimentel, de Canto orfeônico (tinha e fui o mais desafinado); Alarcão e Barleta, de trabalhos manuais (até os homens eram obrigados a bordar); Walter, de Geografia; Luciano, de latim (tivesse estudado, teria aprendido alemão fácil); Isaura, de espanhol; Mazzei, de Educação Física (ele sempre me dizia: vá, não fique nesta cidade); Fanny, de francês (minha segunda língua); Newton e depois Pimenta, o Mister, de inglês; dona Mariquita (mãe de Ruth Cardoso) de Biologia; Leticia Carboni, de Filosofia. Outros, esqueci. Talvez fossem apenas esses.

A camisa do uniforme era bege com uma gravata. Para que gravata? Havia Alvarenga, inspetor de alunos, rigoroso, severo. Mas quando nos atrasávamos por um minuto e encontrávamos o portão fechado, dávamos a volta no quarteirão, pulávamos o gradil atrás da prefeitura e ele fingia não ver. E havia ainda o bedel, “seu” Benedito, bonachão, eterno cigarrinho de palha na boca.

No pátio coberto havia tábuas repletas com nomes de casais, de desejos, de cantadas. Desapareceram. Onde estão? Alguns daqueles casais deram certo? O batom vermelho de Bete Caldas, os cabelos ruivos de Marly Dorsa, a sensualidade de Heleninha Almeida, o grupo formado por Suely Botta, Norma Crisci, Verinha, Gilda Parisi, Lais Pinheiro, ainda tenho os rostos dentro de mim. Sentávamos nos degraus do Cine Odeon, esperando a abertura do portão. 

Em frente, havia o Chafih, confeitaria e pão com molho; depois a Livraria São Bento; a lanchonete do Hanai (avô deste que hoje é gerente do Sesc), com um misto-quente inigualável, e Oguri com um belo cachorro-quente. 

Fui de uma diretoria do Centro Cívico Dr. Camilo Gavião de Souza Neves, cuja única função era fornecer as carteiras de estudante. Já havia pressões de não estudantes que ofereciam dinheiro para ter a carteirinha, afinal com ela se pagava meia-entrada no cinema.

Mas Hugo Fortes fazia barreira, rechaçava a corrupção e nisso acho que tinha um aliado em Sidney Sanchez, que mais tarde presidiu o STF e condenou Fernando Collor. Provavelmente, alguns daqueles colegas estarão ali amanhã. 

Entre meu último exame de matemática – sobre o qual falarei – e hoje se passaram 62 anos. A história desse exame está no meu show Solidão no Fundo da Agulha, que faço há cinco anos com minha filha Rita Gullo. O resultado desse exame decidiu minha vida.

Jamais esqueço uma noite de fevereiro de 1957, quando, sentado em um banco de granito do jardim em frente do Ieba, fui acometido de total desespero, angústia irreprimível. Perdido, suava e agitava-me torturado por uma pergunta: “O que vou fazer da vida? Nunca serei nada. Não posso viver na mesmice, um dia igual ao outro”. 

Este Ignácio que volta à sua terra, agora eleito por unanimidade para a mais alta instituição de letras do Brasil, sabe apenas que a Cadeira 11 é um meio caminho nesse ofício que escolhi. Ainda há muito pela frente, só que agora sei o que fazer.

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