Só para eles

Gabriel Villela monta Macbeth com elenco exclusivamente masculino e traz Marcello Antony como protagonista

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2012 | 03h15

O caminho começou em Minas Gerais, passou pela Grécia antiga e foi dar em uma Escócia soturna e sombria. Em 2011, o diretor Gabriel Villela levou à cena o monumental romance de Lúcio Cardoso, Crônica da Casa Assassinada. Na sequência, montou Hécuba, sua primeira tragédia clássica em mais de 20 anos de carreira. Agora, essa aproximação com o universo trágico é coroada com Macbeth. A mais sangrenta das obras de William Shakespeare chega amanhã ao Teatro Vivo.

"O que me levou a Macbeth foi o conteúdo dramático do personagem", observa o encenador, que escalou o ator Marcello Antony para o papel-título. "Um herói exemplar no modelo grego, esse protagonista sofre uma perturbação psicológica, e então se transforma em um assassino."

Estimado pelo rei por sua virtude e coragem, Macbeth recebe honrarias e um novo título de nobreza. Porém, o encontro com três feiticeiras e a profecia de que viria a suceder o monarca despertam nele a cobiça desmedida que será sua ruína. "Fui em cima dessa ambição e também da pulsão de morte que o rege", diz Antony. "A partir do momento em que ele mata a primeira vez, o casal Macbeth mergulha no sangue."

Para o estopim dessa teia de assassinatos, é essencial a participação de Lady Macbeth. Na atual montagem, quem assume o posto dessa que é considerada a mais terrível das vilãs shakespearianas é Claudio Fontana. Villela optou por um elenco formado apenas por homens - tal qual o costume do teatro elisabetano do século 17. Mas não teria sido apenas um preciosismo histórico o que teria pautado a escolha.

O casting exclusivamente masculino, assim como a drástica redução no número de atores - de mais de 20 para 8 - ressaltam certo artificialismo da peça. Surgem como uma recusa ao teatro de pretensões realistas. Servem para dar vazão à opção do encenador por uma leitura épica e distanciada da fábula. O olhar do criador mineiro filtra a ficção do autor britânico com a linguagem de Bertolt Brecht. Dentro dessa visão, os atores mais narram do que interpretam seus personagens.

Ao criar um texto repleto de metáforas, Shakespeare conta com o poder de imaginação do público para vislumbrar a história por completo. De certa maneira, parece ser esse também o mote que conduz Villela. Muito pouco é representado. Quase tudo é sugerido. Como se em cada uma das cenas ele rogasse aos seus espectadores: "Imaginai..."

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