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Só o humor salva

Globo volta a apostar no riso aos domingos, dia em que a plateia migra

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2013 | 02h13

Tá rindo de quê? Não importa. O negócio é rir. Abandonado no início do ano, o humor dominical da Globo retoma sua posição soberana como alvo de apostas do dia da semana em que a audiência mais muda de canal. Com duas estreias anunciadas para dezembro - Junto & Misturado, no dia 1º, e Divertics, no dia 8 -, a emissora endossa sua fé no gênero.

A crença é calçada pela excepcional audiência da volta do Sai de Baixo, que quase dobrou a audiência do pós-Fantástico, no domingo passado. Primeiro de uma série de quatro episódios feitos para o canal Viva, em junho, o enredo marcou 17 pontos de audiência na Grande São Paulo (cada ponto equivale a 52 mil lares), 8 a mais que o domingo anterior, com a série Revenge.  

Justificar a boa audiência do Sai de Baixo com a suspeita de que o formato de sitcom é tudo o que o público quer seria um diagnóstico simplista. "O público gosta da repetição, é uma característica humana, não é da audiência de TV", justifica Maurício Farias, responsável por dois dos seriados mais longevos da Globo, ambos de humor - a volta de A Grande Família, há 13 anos, e a criação de Tapas & Beijos, há três - e agora pela direção de Núcleo do Junto & Misturado.

Programa que dá certo por muito tempo só corre o risco do esgotamento. "É paradoxal, mas você acaba ficando prisioneiro do próprio sucesso", avalia Farias. "E a gente fica com a obrigação de fazer isso girar, substituir o bom por algo tão bom ou melhor."

Não menos expert em humor na TV, o que, no seu caso, inclui uma longa lista de novelas, Jorge Fernando, diretor de Núcleo do novo Divertics, credita ao gênero a capacidade de solucionar até grandes crises - daí a indisfarçável preferência da TV pelo riso. "Quando você dá risada de um problema, você já vê saída para aquele problema", opina. "Em toda a história da humanidade, em crises, em cada guerra, o humor veio com força total, desde os cabarés de Berlim." Divertics, aposta, será um "bálsamo para momentos tão difíceis que a gente está vivendo". "Conseguir debochar do quanto você gasta de imposto já vale para começar a ver como vai reivindicar por isso."

Com Luiz Fernando Guimarães, Maria Clara Gueiros, Leandro Hassum, David Lucas, Rafael Infante, Roberta Rodrigues, Marianna Armelini, Nando Cunha, Ellen Roche e Hilda Rebello, a já conhecida mãe do diretor, Divertics mescla elementos circenses - os contrarregras aparecem como acrobatas. "Tudo se passa dentro de um galpão, é um estúdio de televisão, com mesa de corte voltada de frente pra plateia, e a minha mãe sentada na plateia. É divertido, atende a todas as idades e estamos aprendendo fazendo, desde o tipo de figurino e de caracterização, até o que é mais importante - se o texto ou o caco", define Jorge Fernando. Divertics ocupará o início das tardes de domingo, na vaga do Esquenta - que entra em recesso até 2014 - por 18 domingos.

Todas as praias. O revezamento de programas tem sido política adotada pela Globo, mas desequilibrar a balança a favor do humor requer dosagem vigiada. "Não pode virar o que virou o cinema nacional, em que chegou um ponto em que as pessoas falam: 'pôxa, que saco, só tem comédia'", pondera Farias.

Mas, se todos os caminhos levam ao humor, pelo menos na TV há salvação para evitar a overdose. Divertics não é a mesma coisa que Sai de Baixo, que passa longe de Zorra Total, que nada tem de Junto & Misturado. Os estilos se multiplicam.

Bruno Mazzeo, que já escreveu textos para o Sai de Baixo, prefere evitar comparações. Junto & Misturado foi ao ar em 2010 e na época chegou a ter uma segunda temporada aprovada pela Globo, sendo depois suspensa. A volta do programa foi vista com surpresa até por Mazzeo e Farias, que receberam a proposta de retomá-lo há pouco mais de um mês.

Quando a segunda temporada foi suspensa, houve quem dissesse que o programa seria muito sofisticado para a TV aberta, o que Mazzeo e Farias negam. "Toda vez que a gente faz um projeto que anda por um território novo, tem esses fantasmas da narrativa", fala o diretor. De lá para cá, a direção da Globo também pode constatar que há uma imensa plateia interessada em formatos muito distintos dos tradicionais e até num humor mais ácido, como prova o sucesso do Porta dos Fundos na internet.

Luiz Fernando Guimarães bem sabe que o ônus de se lançar em algo inovador existe, mas o bônus bem pode compensar - vide TV Pirata e Os Normais. Agora, com Divertics, repete a dose de se lançar rumo ao desconhecido - mas nem tanto. "A possibilidade de inovar me atrai e me estimula muito", conta ele ao Estado. "Divertics, além de ser dirigido pelo Jorge Fernando, que é muito meu amigo, é uma mistura de tudo que já fiz e tudo que não fiz. É um programa que não tem uma classificação, que vai mudando e se moldando ao longo dos episódios. Nesse sentido, vejo cenas que caberiam no TV Pirata e cenas também dentro da possibilidade humorística do Zorra Total."

O importante é que a piada se faça entender. "O que eu faço não é sofisticado e também não é popularesco", diz Mazzeo. "Claro que em um filme ou em um programa, uma parcela entende e gosta mais de umas coisas. E outra não vai entender. Não dá pra ficar explicando e nem pra tentar fazer algo sofisticadíssimo porque, se ninguém entender, não tem o menor sentido fazer", conclui o humorista.

Politicamente correto. Enquanto o Porta dos Fundos avança na web, incentivando a TV a tirar um pouco o pé do freio na criação, Luiz Fernando defende o respeito, sem perder a piada. "Não acho que o TV Pirata fosse politicamente incorreto. Eu, como ator, não gosto do exagero, da ofensa. Gosto de fazer piada sobre a má educação, sobre a idiotice, mas sem desrespeito", fala.

Filho de Chico Anysio, Mazzeo acha que o pai, que fez humor nos idos da ditadura, "deve ter sofrido menos do que quem sofre hoje com o politicamente correto". Conhece alguém que tenha se ofendido com alguma piada de Chico? "Não conheço, mas é possível que exista. Na época, eles não tinham twitter pra reclamar."

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