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Só mesmo em Cuba

Em que outro lugar eu teria encarado um 'bife' feito com casca de banana da terra?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2017 | 02h00

Tem coisas que só em Cuba, comentei com minha amiga (vamos chamá-la de Doutora Crespa), enquanto subiam na tela os créditos de Últimos Dias em Havana - filme que, aliás, recomendo com entusiasmo supraideológico. Como a interlocutora pusesse no rosto um ar de incredulidade, julgando ver na declaração mais um de meus exageros, me senti desafiado a sacar ilustrações probatórias do que acabara de dizer. 

Você já ouviu falar, argumentei, de algum lugar onde uma velhinha tenha pedido para ser enterrada com o vestido de noiva, peça bordada com esmero na juventude, nas profundezas dos anos 30, e que não chegou a usar, senão à guisa de mortalha, meio comida pelas traças, tão virgem quanto a defunta? 

Pude ver esse vestido, no dia em que, levado pelo Manuel, conheci Cuquita, ex-miss (mais expressivo em espanhol caribenho: reina de la belleza) que viu esfarinhar-se seu noivado a poucas horas de subir ao altar. Secarrona, não me animei a lhe pedir detalhes da novela, a qual, soube pelo Manuel, culminou com o noivo fugindo com outra na véspera das bodas.

Eventualmente bandalho, meu amigo esperou que a Cuquita fosse lá dentro, preparar um café, para escancarar as portas de um armário e me mostrar, além do vestido, todo um enxoval em linho e seda, vestígio do mais exigente capitalismo, igualmente sem uso e roído por bichos que, segundo a dona, só podiam ser comunistas. 

Um desastre, aquele primeiro encontro com a rabugenta Cuquita. Certo de estar agradando, dei a ela uma dessas garrafinhas cearenses em cujo interior areias coloridas compõem paisagens, prenda comprada, ainda sem destinatário, no free shop de Guarulhos. Mais tarde o Manuel, às gargalhadas, me contou que, mal virei as costas, a bruxa catou o enfeite com sua garra de ave de rapina e, rosnando, “¿pa’ que sirve esa mierda?”, o espatifou contra a parede. O jeito foi rir também.

Ano e tanto depois, com a morte de Cuquita, meu amigo, que durante anos lhe servira de enfermeiro e acompanhante, herdou o minúsculo apartamento térreo, no centro da cidade, pois a falecida não tinha família, e, além dele, um “panteón” no cemitério de Havana.

Na última vez que nos falamos, faz tempo, o Manuel tentava passar nos cobres a sepultura, na qual acondicionara algumas tias, para fazer caixa e reformar o apartamento. Por aquele cortiço funerário, de porteira fechada, pedia 7 mil pesos. Dotado que era para a arte de negociar, posso apostar que vendeu bem o seu, digamos, “mortiço”. Se aos cubanos estiver reservado um futuro no capitalismo, Manuel haverá de fulgir nele como grande empresário.

Falava eu disso à Doutora Crespa, na saída do cinema, e, para dissolver sua incredulidade quanto à capacidade de viração dos nativos num país cronicamente desabastecido, tratei de enumerar uns feitos do Manuel. 

Lembro dele, por exemplo, a pedalar uma duríssima, quase ergométrica bicicleta chinesa, rumo “al campo”, remotas periferias de onde trazia ovos e legumes para revender em Havana, com o risco de ser apanhado pela polícia. Aconteceu várias vezes, mas, no cômputo dos ganhos e perdas, ele cerziu seu pé-de-meia. 

Nos anos 80, Manuel foi dos primeiros a usar alumínio de embalagens industriais, obtido sabe Marx como, para fabricar e vender improvisadas antenas parabólicas. Providas de componentes eletrônicos contrabandeados de Miami, as “parábolas” eram postas a mirar as antenas dos hotéis burgueses, e assim chupavam imagens de canais americanos e europeus. Já não há parábolas, mas houve tempo em que elas infestavam telhados e sacadas nos pardieiros de Havana. 

Lembro-me da excitação com que os cubanos puderam conhecer, na tela de seus televisores russos, por sinal rucíssimos, o tão falado e jamais comido Big Mac, do qual, na ilha de Fidel, não havia mais que um arremedo, gaiatamente apelidado “Mac Castro”, além de uma contrafação do Burger King, que o populacho, em alusão à marca registrada de El Comandante, batizou de “Barber King”. 

Olhos grudados na TV, a avó do Manuel gostava menos dos programas do que dos “teléfonos largos”: os anúncios de bens de consumo, em que se liam, com inédita fartura de algarismos, os números do 0800. Espero que doña Mercedes tenha tido um fim de vida em que já não estivesse obrigada a secar a borra do café, para reutilizar ou vender, ou preparar maionese com apenas um ovo, receita que, sem reclamações, cheguei a provar. A vantagem dessa maionese de crise, trombeteava o Manuel, otimista incurável, era quase não conter colesterol. 

No início dos anos 90, durante o brabíssimo Período Especial em Tempo de Paz, que se seguiu à derrocada da União Soviética, foi o Manuel quem ensinou a avó a driblar a falta de carne, com um “bistec de toronja”, no qual fatias dessa fruta, temperadas e fritas, dariam ao comensal de boa vontade a ilusão de estar traçando um bife. Vi doña Mercedes fazer o mesmo com casca de plátano, nossa banana da terra, passada no gofio, trigo torrado e moído, antes de ir à frigideira. 

“Descobrimos que a carne não tem gosto de nada”, disse o Manuel ao me ver mascar aquele simulacro de bife, “pois tudo pode ter gosto de carne.” 

Onde mais, minha querida Doutora Crespa, a não ser em Cuba? 

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